Que estarão tramando esses dois ?
Em vez de Uribe, Lula fala direto com Santos
Presidente afirma que a relação com o atual líder colombiano é extraordinária. Farc querem diálogo com o novo governo
Chico de Góis e Monica Yanakiew*
*Especial para O GLOBO
BRASÍLIA e VILLA HAYES, Paraguai. - O Globo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu ignorar o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que, num comunicado divulgado anteontem classificara de deploráveis as declarações do brasileiro sobre o conflito com a Venezuela. Embora tenha dito no Paraguai que sua relação com Uribe é extraordinária, Lula optou por falar diretamente com o presidente eleito, Juan Manuel Santos, que toma posse dia 7.
Lula e Santos conversaram por telefone, ontem pela manhã, mas o porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, não soube dizer de quem partiu a iniciativa.
Para Baumbach, o episódio de anteontem ficou para trás.
— O presidente acha que o episódio está superado.
Ele não comentou e nem comentará (o tom das críticas de Uribe) — disse Baumbach, lacônico sobre o diálogo com Santos: — O presidente considerou que a conversa foi positiva e que ajudou nesta preparação para uma distensão.
Lula espera participar de jantar de despedida de Uribe Na quinta-feira, Uribe criticara declarações de Lula, para quem o conflito entre Venezuela e Colômbia era no campo verbal.
Segundo Uribe, o governo brasileiro ignora “a ameaça que representa a presença dos terroristas das Farc” (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) na Venezuela. Caracas e Bogotá cortaram relações depois de a Colômbia acusar a Venezuela de tolerar a presença de guerrilheiros em seu território.
— Sou amigo de Uribe, tenho com o presidente uma relação de oito anos extraordinária, da mesma maneira que espero ter nos próximos cinco meses (restante de sua Presidência) com Santos — disse Lula em Villa Hayes, 30 quilômetros a noroeste de Assunção.
Ele garantiu que não deixará “uma divergência pessoal atrapalhar a relação de um Estado com outro Estado” e que, não só irá ao jantar de despedida de Uribe no próximo dia 6, como espera ser convidado para sentar se na mesma mesa.
De acordo com assessores que estavam na sala na hora da ligação para Santos, o presidente eleito expressou sua intenção de manter boas relações com o Brasil. Os dois não falaram das críticas de Uribe. Lula afirmou ao colega eleito que não irá se intrometer em assuntos internos da Colômbia, deixando a entender que considera que o problema com as Farc não diz respeito ao Brasil. Ao final do telefonema, ele convidou Santos a visitar o Brasil, o que foi aceito. No entanto, ainda não há data agendada.
Ex-ministro da Defesa de Uribe, Santos recebeu ontem um sinal de que a guerrilha estaria disposta a conversar. Alfonso Cano, líder das Farc, colocou na internet três vídeos de pouco mais de dez minutos cada, dirigidos ao presidente eleito, ao país e à União de Nações Sul-americanas (Unasul). Apesar das pesadas críticas a Uribe e mesmo a Santos, Cano apresenta cinco pontos sobre os quais conversaria com o novo governo: bases militares (usadas pelos EUA), direitos humanos, equilíbrio ecológico, regime político e modelo econômico.
— Conversemos — disse Cano. — (As Farc) convidam ao diálogo e à busca da solução política para o conflito interno colombiano.
Já o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, prometeu ontem que seu país combaterá qualquer grupo que entre em seu território. A declaração veio um dia depois da reunião da Unasul sobre o conflito, que terminou sem um consenso.
Em seu editorial ontem, o jornal “The Washington Post” considerou convincente o material apresentado pela Colômbia e que comprovaria a presença da guerrilha na Venezuela. Para o “Post”, Uribe se sente frustrado com a comunidade internacional que se nega a responsabilizar o presidente Hugo Chávez. O texto cita o Brasil como um dos principais admiradores do presidente venezuelano. “Se o apoio fosse retirado, Chávez teria que repensar sua aliança terrorista”, diz o editorial.
No Peru, quatro colombianos foram presos perto da fronteira com o Brasil, suspeitos de fazerem parte das Farc.

 

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