Por Marco Felício

Creio, sinceramente, que o ex-comandante do Exército perdeu, no decorrer de sua última fala oficial, difundida para toda a Força e brevemente comentada por alguns jornais de circulação nacional, a grande oportunidade de reconciliar-se com o pensamento de grande parte de seus comandados da Ativa e da Reserva.
 

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Perdeu a oportunidade de reconciliar-se com a manutenção da mais cara das nossas tradições que é a de manter viva, na memória nacional, permanentemente, principalmente através das sucessivas gerações de militares, os feitos heróicos de milhares de anônimos brasileiros, movidos pelo patriotismo, a serviço da Nação, em defesa da soberania, do sentimento de liberdade do nosso povo e da integridade do nosso território.

Surpreendentemente, cabe a pergunta: Como esquecer a contra-revolução de 64, obstando um bando de insanos que, em nome da busca da implantação de uma ditadura marxista-leninista no Brasil, roubaram, assassinaram, aterrorizaram e, de armas na mão, instalaram violentas guerras de guerrilha urbana e rural, sob orientação externa? Como esquecer aqueles que se sacrificaram para impedir que o Brasil se tornasse uma grande Cuba? Como esquecer os milhões de brasileiros, nas ruas das principais capitais, exigindo, em 64, a ação das Forças Armadas? Como esquecer que os militares, em todos os momentos cruciais de nossa História, responderam aos anseios e expectativas da Nação?

Como esquecer as positivas e inegáveis conseqüências para o País, advindas pós 64? Como esquecer a intentona comunista de 35, a bestialidade dos subversivos, matando covardemente companheiros enquanto dormiam; Como esquecer os movimentos (considerados como já esquecidos pelo ex-Cmt do Exército) de 22, 24 e 1930, os seus heróis, os vendilhões da Pátria, os reflexos sobre a marcha do País na direção do seu futuro? Será que é possível esquecer a fulgurante ação de Caxias, nosso patrono?

A verdadeira História de um povo não pode jamais ser olvidada, principalmente por aqueles que têm o poder nas mãos. Como esquecer a formação de nossa nacionalidade, a conquista e a defesa deste vasto território, a integração nacional, ao longo dos tempos, com o trabalho, o esforço e sacrifício de muitas vidas para que tivéssemos o País e a liberdade de que hoje desfrutamos? Esquecer a verdadeira História, seus fatos nos mínimos detalhes, por menor que sejam, é permitir a construção de uma nova estória, respondendo a objetivos obscuros como estão o fazendo os derrotados em 64, sob a mudez e a omissão de tantos que se dizem responsáveis.

Falou o ex-comandante na sua ação voltada para a conciliação das Forças Armadas com a sociedade brasileira. Cabe uma nova pergunta: Quando as Forças Armadas estiveram apartadas da sociedade brasileira? Essa é a idéia daqueles que tentam fraturar a unidade interna, apartando a "sociedade civil" da "sociedade militar". Dividem a sociedade e tentam desmoralizar e denegrir os militares para melhor dominar.

São as Forças Armadas a mais real representação de nossa sociedade, integrando e contribuindo para a formação física e moral de pretos, brancos, índios, mestiços, pobres, remediados e ricos, estando em todos os rincões deste País, muitas vezes de forma isolada, levando, além da segurança, o atendimento médico-hospitalar, ensino, estradas, aeroportos, ajudando nos momentos de catástrofes, integrando, congraçando, incutindo valores pátrios.

A verdade é que em nome de uma conciliação nacional unilateral, abrimos mão do que não poderíamos jamais fazê-lo: da dignidade militar. O fato da nota do ex-Comandante do Exército, atendendo às pressões do governo, condenando a que o CComsex emitiu, esta última com intensa repercussão positiva no meio militar, quando do caso das falsas fotos de um subversivo que se matou na prisão, até hoje é uma nódoa na História da Força, não digerida pela maioria de seus integrantes.

Será necessária a reconciliação com ressentidos e revanchistas, que não escondem publicamente a sua aversão aos militares, alguns indiciados como formadores de quadrilha, deformados de caráter? Infelizmente, alguns já agraciados com condecorações militares, sem qualquer sustentação plausível para isso.

Creio que a reconciliação a ser procurada pelos chefes militares é a da Força com equipamentos modernos, com alto índice de operacionalidade e poder de dissuasão frente às incertezas de um mundo cada vez mais violento. É a reconciliação com a verdadeira liderança; É a reconciliação com a valorização dos seus integrantes; É a reconciliação com a capacidade de respaldar os interesses nacionais (Estamos a mercê até mesmo de nossos subdesenvolvidos vizinhos).

É a reconciliação com um projeto de Nação, que possa projetar poder além de suas fronteiras; É a reconciliação com a capacidade de influir nos destinos do País; É a reconciliação com a coragem de falar à Nação sempre que houver esta necessidade frente a descaminhos inaceitáveis; É a reconciliação com a verdadeira História da Instituição Armada e com a imagem de um Brasil respeitado internacionalmente.

 

Marco Felício é General da Reserva do Exército Brasileiro
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