Atentado a bomba no Aeroporto de Guararapes
  2 mortos e 13 feridos graves - 1966 - AP

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS
Será que a realidade é tão nítida? Se vamos buscar a verdade, é preciso fazê-lo de maneira verdadeira, e não à custa de sofismas - O Estado de São Paulo
A RECENTE divulgação da terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), com a sua polêmica comissão da verdade, acendeu um debate que é visto por alguns como uma espécie de cruzada entre um "eixo do bem" (o dos verdadeiros) e um outro, "do mal" (o dos mentirosos).
Mas será que a realidade é assim tão nítida? Será que a verdade é um valor inegociável neste Brasil pré-olímpico e já eleitoral? Ou será que o viés ideológico não contamina tal debate, impedindo que se veja que o "mundo lá fora" não é preto nem branco, que a natureza abomina maniqueísmos e que a vida humana, quando se torna história, reveste-se de nuances infinitas, as quais somente a inteligência mais sutil é capaz de penetrar?
A discussão acerca da punição aos envolvidos na lutas travadas durante o regime militar é, quanto a isso, emblemática. Não conheço ser humano normal capaz de discordar de que a tortura é um ato vil e covarde e de que qualquer torturador merece pena exemplar, tenha ele agido nos DOI-Codi brasileiros, na prisão de Guantánamo ou nos calabouços de Fidel.
Tal fato, porém, por si só não permite concluir que as vítimas do arbítrio no Brasil tenham sido -todas elas- defensoras fervorosas das liberdades democráticas, como sugerem os inúmeros filmes, livros e depoimentos vindos à luz nos últimos tempos, e que parecem almejar -salvo engano- menos a punição dos torturadores do que a glamourização da própria guerrilha, chegando mesmo, em alguns casos, à "quase beatificação" de algumas das suas lideranças.

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A verdade é que a análise do ideário dos grupos de resistência armada demonstra facilmente que, neles, não havia muito espaço para o "mito burguês" da democracia;

 
 Corpo de Chandler "justiçado", na frente
   da mulher e 3 filhos pequenos - VPR
que os poucos democratas que os integravam somente lograram sê-lo em sofrida oposição ao totalitarismo vigente nesses grupos; e que era mais fácil encontrar defensores da causa democrática entre os membros do MDB -como o saudoso dr. Ulysses- que insistiam na luta parlamentar (apesar das severas restrições impostas ao Congresso Nacional) do que entre os que optaram por expropriações, sequestros e justiçamentos.
(É provável que, hoje, já mais velhos, muitos dos que pegaram em armas sejam capazes de perceber o erro estratégico que cometeram, pois a verdade é que os "brucutus linhas-duras" dificilmente teriam tido o despudor de ir tão longe no desrespeito aos direitos humanos se a própria guerrilha não houvesse criado uma situação de não retorno, imune a negociações. E é até possível que alguns dos que lutaram tenham feito a autocrítica e estejam sendo sinceros quando dizem que agora são "100% democratas".
Todavia, é pelo menos duvidoso que, naqueles tempos de "foquismo" e de "revolução na revolução", os seus objetivos fossem assim tão pacíficos e que teriam, caso tivessem tomado o poder, respeitado integralmente os direitos fundamentais dos seus adversários.
  
 Bomba  no Quartel do II Exército
 Morte do soldado Kosel
A história está repleta de grupos libertários que lutaram contra regimes iníquos e que acabaram, todavia, tornando-se ainda mais odiosos do que os antigos opressores.)
Um outro exemplo de simplificação histórica grosseira é o mau hábito de certos autores de livros didáticos que insistem em falar "em bloco" sobre o regime militar. Confundem-se, nesses "tratados", com triunfante ignorância -ou rematada má-fé-, os diferentes governos do período, que são todos condenados como se nada de construtivo houvessem feito. Felizmente, esse viés caricato já há muito deixou de ser empregado pelos estudiosos realmente sérios. A
ssim, só para dar um exemplo, qualquer especialista sabe bem a diferença entre as políticas exteriores dos governos Castelo e Geisel: o primeiro alinhou-se caninamente aos Estados Unidos, e o segundo, ao contrário, com a doutrina do pragmatismo responsável, foi um
 
 Filme enaltecendo o traidor  e
 assassino Carlos Lamarca
continuador criativo da política externa independente, formulada ainda no pré-64 por políticos ideologicamente tão diversos como Afonso Arinos e San Tiago Dantas.
Ignorar tais fatos, reduzindo o regime militar ao AI-5, é o mesmo que dizer que Juscelino não foi Brasília nem o Plano de Metas, mas só inflação; que o Estado Novo não foi Volta Redonda nem a CLT, mas só Filinto Müller; que o próprio Lula não são os programas sociais e a bem-sucedida diplomacia presidencial, mas tão somente a explosão dos gastos correntes e a possibilidade assustadora do retorno da censura à imprensa, desta feita por razões "politicamente corretas".
Ora, se vamos mesmo buscar a verdade, é preciso que o façamos de maneira verdadeira, e não à custa de sofismas que só denotam a paranoia dos que vivem da mistificação.

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS, 49, médico, psicoterapeuta e neurocientista, é escritor, artista plástico, mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França).

 

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