Ministro Paulo Vannuchi/Pres. Lula/ Ministra Dilma Rousseff
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Por uma  proposta inicialmente defendida  pelo ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) e representantes de familiares de mortos e desaparecidos políticos, será enviada à apreciação do Congresso , por sugestão da Casa Civil, a criação da Comissão da Verdade e da Justiça. Esse projeto de lei deverá estar em pauta até abril.
O anúncio oficial do grupo de trabalho será feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo será presidido pela Casa Civil da Presidência e contará com a participação de representantes dos ministérios da Justiça, Defesa e dos Direitos Humanos. Também serão chamados o presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e um representante da sociedade civil.
 
Esperamos que , se aprovada a criação de tal comissão,  os seus membros começem dando o exemplo de imparcialidade chamando membros do governo, ex- militantes de organizações terroristas, para que em seus depoimentos contem com detalhes  a verdade sobre os seguintes pontos:
- motivação para a luta armada;
- período em que foram iniciados os preparativos para a guerrilha (reuniões, cursos de técnicas de guerrilha na União Soviética, Pequim, Cuba e outros paraisos comunistas);
- a infiltração nos quartéis, no meio estudantil e operário;
-quais as organizações que já existiam antes de 1964 e quais os seus líderesContinuando a série Projeto Orvil, contribuindo antecipadamente para a Comissão da Verdade  e da Justiça, continuamos com a série sobre a Vanguarda Popular Revolucionária;

Ações terroristas da VPR e o destino de alguns de seus membros
Em 1968, as ações de guerrilha urbana perdiam-se no anonimato de seus autores e, muitas vezes, eram até confundidas com as.atividades de simples marginais. De acordo com os
  
 Diogenes José Carvalho de
 Oliveira
dirigentes  de algumas organizações militaristas, já chegara o momento do público tomar conhecimento da luta .armada·revolucionária em curso, o que poderia ser feito através de uma ação que repercutisse no Brasil e no exterior.
Em setembro, Marco Antonio  Braz de Carvalho, o "Marquit:o",. homem de confiança de Marighela - que dirigia o Agrupamento Comunista   de São Paulo -, e que fazia a ligação com a VPR, levou para Onofre Pinto, então coordenador-geral da VPR, a possibilidade de ser realizada uma  ação - o "justiçamento" do capitão do Exército dos Estados Unidos da América, Charles Rodney Chandler,  aluno bolsista da Escola de Sociologia e Política, da Fundação Âlvares Penteado,  que morava em São Paulo com a esposa .e dois filhos pequenos. Entretanto, segundo os "guerrilheiros", Chandler era um "agente da CIA" e "encontrava-se no Brasil com a missão de assessorar a ditadura militar na repressão". O que na realidade , não era verdade.
No inicio de outubro, um "tribunal revolucionário", integrado por três dirigentes da VPR ,Onofre Pinto, como presidente, João Carlos Kfouri Quartim de Morais e Ladislas Dowbor, como membros-, condenou o Capitão Chandler a morte.  Dulce de Souza Maia, fez o levantamento dos horários habituais de entrada e saida de casa, costumes, roupas que costumava usar, aspectos de sua personalidade e dados sobre os familiares e sobre o local em que residia, numa casa da Rua Petrópolis, nº 375, no tranquilo bairro do Sumuré, em São Paulo.
Escolhido o "grupo de execução", integrado por Pedro Lobo de Oliveira, Diógenes José Carvalho de Oliveira e Marco Antonio Braz de Carvalho,  nada é mais convincente, para demonstrar a frieza do
  
          Onofre Pinto
assassinato do que se transcrever trechos do depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, um dos criminosos, publicado no livro
A Esquerda Armada no Brasil" - Prêmio Testemunho 1973 da Casa de Las Américas - Moraes Editor - Lisboa - Portugal:
"Como já relatei,  o grupo executor ficou integrado por três companheiros: um deles levaria uma pistola-metralhadora INA, com três carregadores de 30 balas cada um ; o outro, um revolver; e eu, que seria o motorista, uma granada e outro revólver. Além disso, no carro estaria também uma carabina M-2,a ser utilizada se ´fôssemos perseguidos pela força repressiva do regime. Consideramos desnecessária cobertura armada para aquela ação. Tratava-se de uma ação simples. três combatentes revolucionários decididos são suficientes para realizar uma ação de justiçamento nessas condições. Considerando o nível em, que se encontrava a repressão, naquela altura,  entendemos que não era necessária a cobertura armada."

A data escolhida para o crime foi o 8 de outubro, que assinalava o primeiro aniversário da morte de Guevara. Entretanto, nesse dia, Chandler não saiu de casa e os três terroristas decidiram  "suspender a ação". Quatro dias depois, em 12 de outubro de 1968, chegaram ao local às 7 horas. Às 8 horas e 15 minutos, Chandler dirigiu-se para a garagem e retirou o·seu carro, em marcha a ré. Enquanto seu filho, de 9 anos, abria o portão, sua esposa aguardava na porta da casa, para dar-lhe o adeus. Não sabia que. seria o último.
Os terroristas avançaram com o Volkswagen, roubado dias antes, e bloquearam o caminho do carro de Chandler.
Leiam o relato de Pedro Lobo:
" Nesse instante, um dos meus companheiros saltou do Volks, revólver na mão, e disparou contra Chandler".
 Era Diógenes José Carvalho de Oliveira, que descarregava, a queima roupa, os seis tiros de seu Taurus de calibre .38.
E prossegue Pedro Lobo, que dirigia o Volks:

" Quando o primeiro companheiro deixou de disparar, o outro aproximou-se com a metralhadora INA e desferiu uma rajada. A décima quinta bala não deflagrou e o mecanismo automático da metralhadora deixou de funcionar. Não havia necessidade de continuar disparando . Chandler estava morto. Quando recebeu a rajada de metralhadora emitiu uma espécie de ronco, um estertor, e então demo-nos conta de que estava morto".

Quem portava a metralhadora era Marco Antonio Braz de Carvalho.
A esposa e o filho de Chandler gritaram. Diógenes apontou o revólver para o menino que, apavorado, fugiu correndo para a casa da vizinha. Após Pedro Lobo ter lançado os panfletos, nos, quais era dito que o assassinato fora cometido em nome da revolução brasileira, os três terroristas fugiram no Volks, em desabalada carreira.
Ê interessante observarmos o destino dos sete envolvidos no crime:
-Marco Antonio Braz de Carvalho ("Marquito"), que deu a rajada de metralhadora, morreu em 26 de janeiro de 1969, após troca de tiros com a policia.
-Onofre Pinto -"Augusto"-,o presidente do "tribunal revolucionário" que condenou Chandler à morte, ex-sargento do Exército, foi preso em 2 de  março de 1969 e banido para o México, em 5 de setembro, trocado pelo Embaixador dos Estados Unidos, que, havia sido seqüestrado. Em outubro, foi a Cuba onde ficou quase.dois anos, tendo feito cursos de guerrilha. Em junho de 1971, foi para o Chile, com cerca de 20 mil dólares. Em maio de 1973, foi expulso da VPR, tendo sido acusado de "conivência com a infiltração policial no nordeste", devido às quedas dessa organização em dezembro de 1972. Temendo ser  "justiçado" pela VPR, fugiu para a Argentina onde desapareceu, misteriosamente, em meados de 1974.
-João Carlos Kfouri Quartim de Morais -"Manoel"-, um dos membros do "tribunal revolucionário", foi expulso da VPR, em janeiro de 1969. Alguns meses depois, fugiu do Brasil, com dinheiro da organização, radicando-se em Paris, onde foi um dos fundadores da revista "Debate". Professor universitário e jornalista, regressou a São Paulo após a anistia, sendo um dos diretores da sucursal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1983, foi nomeado Secretário de Imprensa do Governo de Franco Montoro, em São Paulo.
-Ladislas Dowbor -"Jamil"-, também membro do "tribunal" ,  foi preso em 21 de abril de 1970 e banido em 15 de junho, para a Argélia, em troca do Embaixador alemão, outro seqüestrado. Após passar por vários países, dentre os quais Suiça, Itália, Polônia, Chile, Portugual,Turquia, Cuba e Guiné-Bissau, retornou ao Brasil, após a anistia, e aqui leciona Economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade de Campinas.
-Dulce de Souza Maia -"Judite"-, que realizou os levantamentos sobre Chandler, foi presa em 27 de janeiro de 1969 e banida para a Argélia, em.15 de junho. Tem curso em Cuba e percorreu diversos países, tais como Chile, México, Itália e Guiné-Bissau, onde passou a trabalhar para o seu governo. Retornou a São Paulo em agosto de 1979  passando a desenvolver  .atividades em "movimentos pacifistas", tendo sido eleita, em 1980, presidenta do ,"Comitê de Solidariedade aos Povos do Cone Sul".
- Pedro Lobo de Oliveira - "Getúlio" - o motorista da açaõ criminosa foi preso em 23 de janeiro de 1969, quando pintava um caminhão com as cores do Exército para o assalto ao quartel do 4º Regimento de Infantaria, de Quitaúna/SP. Em 15 de julho de 1970 foi banido para a Argélia em troca do Embaixador alemão. Em fins desse ano foi para Cuba onde fez curso de guerrilha. Após passar por vários países, dentre os quais Chile, Peru, Portugal e República Democrática Alemã, voltou a São Paulo, em novembro de 1980, indo trabalhar como·gerente de um sítio em Pariquera-Açu, de propriedade da familia  de Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de subversivos e um dos dirigentes nacionais do Partido dos Trabalhadores.
-Finalmente, Diógenes José Carvalho de Oliveira  -"Luiz"-, que descarregou o seu revólver em Chandler, foi preso em 30 de janeiro de 1969, quando desenvolvia um trabalho de campo em Paranaíba, em Mato Grosso. Em 14 de março, foi banido para o México, trocado pelo Cônsul japonês (mais um dos diplomatas estrangeiros seqüestrados), indo, logo após, para Cuba. Em junho de 1971, radicou-se no Chile. Com a queda de Allende, em setembro de 1973, foi para o México e, daí, para a Itála, Bélgica e Portugal. Em 1976, passou a trabalhar para o governo da Guiné-Bissau, junto com Dulce de Souza Maia , sua companheira. Após a anistia retornou ao Brasil, indo residir em Porto Alegre, tendo trabalhado como assesspr do vereador Partido Democrático Trabalhista, Valneri Neves Antunes, antigo companheiro de militância na VPR, até outubro de 1986, quando este faleceu vitima de acidente de automóvel.
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