Por: Jarbas Passarinho 
Quando o Muro de Berlim foi derrubado, em 1989, cheguei a duvidar de que não passasse além da derrota das vanguardas comunistas da guerra fria, embora a China, depois de Mao Tsé-tung, já houvesse introduzido reformas econômicas, criando o “socialismo de mercado”, um oxímoro, uma conjunção de palavras antagônicas, uma espécie de Marx e Hayek de mãos dadas, realizando transformações econômicas no quadro de um regime político totalitário. Tática que Mikhail Gorbachev justifica, em suas Ante-Memórias, não ter podido adotar porque todas as funções essenciais de gestão econômica estavam nas mãos de uma centena de Ministérios. Restringiu-se às reformas políticas. Malsucedido, quase deposto em agosto de 1991, lastima-se: “Não há reformadores políticos felizes.” Renega convicções marxistas, ao reconhecer que “a antinomia socialismo/capitalismo, tão forte depois da segunda metade do século 19, lhe parecia, “agora, caduca”.
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A União Soviética (URSS) foi oficialmente morta em dezembro de 1991, após 74 anos de regime totalitário iniciado com Lenin. Surgiu a globalização: democracia como regime político e economia de mercado, não necessariamente o capitalismo liberal do laissez-faire de Adam Smith, mas, também, do neocapitalismo democrático e do social-liberalismo de José Guilherme Merquior. Restava, como remanescente estrito do comunismo, a pobre Coréia do Norte, às voltas com a fome endêmica de seu povo, priorizando a fabricação da bomba atômica. Países no Leste Europeu abandonavam o comunismo e se democratizavam. As esquerdas logo se arregimentaram para combater a globalização, fazendo de seu alvo o neoliberalismo, doutrina econômica posta em prática por Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, na Inglaterra.
Anos depois, saudosistas do comunismo se reuniram em São Paulo, iniciativa do Partido Comunista Cubano, presentes a guerrilha colombiana Farc e diversas facções, especialmente leninistas, decididas a fazer “dar certo aqui o que deu errado no Leste Europeu”. Em suma, o comunismo sem os erros da URSS. Do Foro de São Paulo, obra de Cuba, ponta-de-lança exportadora da revolução para os trópicos sul-americanos, participou Lula, ainda candidato a presidente da República. Achava eu natural a esquerda inspirar-se em Fênix e renascer das próprias cinzas.
Foi então que me veio às mãos o artigo de Jean-François Revel sob o título Is Communism Reversible? Pode uma democracia emergir de um totalitarismo? Toda revolução socialista tem por objeto a abolição das estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais, substituídas por novas. Admitir o contrário é ceder a qualquer das duas tentações de que fala Revel. Uma é julgar o novo somente pelo velho e deduzir que as reformas que marcaram a história do socialismo afetaram a natureza do sistema. É o caso do Foro de São Paulo. Outra, muito pior, é ver como novo o que não passa de reprise ou de variação do velho. É o caso do “socialismo do século 21”, de Hugo Chávez. Ouso ponderar que as nações do Leste Europeu, hoje todas democratas, são exemplo da reversibilidade, mesmo quando, em eleições livres, voltam a ter como dirigentes antigos líderes comunistas. Isso, porém, não é caso dos nacionalistas de vocação totalitária, que praticam o neopresidencialismo na moldura de uma democracia pluralista, em que os três Poderes, de que fala Montesquieu, lhe são subservientes, como se dá hoje na Venezuela.
Abundantes, na História, os movimentos guerrilheiros de militares descontentes com seus governos, só em 1962, pela primeira vez, o Partido Comunista, de Douglas Bravo, e o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), de Moses Moleiro, desencadearam a guerrilha de natureza foquista na América do Sul. O mito marxista-leninista perdurou com Douglas Bravo, Perkoff e outros até prevalecer a coexistência pacífica, já em 1966, quando Douglas, em entrevista no México, disse poder ser estranho para muitos povos da América Latina que oficiais do Exército fizessem parte da guerrilha, quando aos militares tradicionalmente cabia a repressão. Esta foi a peculiaridade da buscada revolução venezuelana.
Passados muitos anos, o Exército venezuelano repôs no poder o coronel Chávez, deposto num golpe de Estado, e o mantém, aparentemente, de forma incondicional, quando ele se dispõe a ser, na prática, o que o Foro de São Paulo recomendou e ficou na retórica, à exceção dos comunistas das Farc, que há mais de 40 anos resistem às Forças Armadas regulares da Colômbia. Chávez, com as características típicas do caudilho, lança o brado dramático: “Socialismo ou morte!”
Morrendo estão, sim, as liberdades fundamentais, a da imprensa livre e a de não ter medo. No poder há nove anos, Chávez reelege-se por mais seis, graças ao assistencialismo, à distribuição aos pobres de parte da renda do petróleo que exporta e de que força o preço do barril na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Faz da Assembléia Nacional, toda ela de seus adeptos, câmara de chancela, típica do totalitarismo. Entristece ver a foto dos deputados aprovando por unanimidade a concessão de poderes especiais ao caudilho, que passa a governar por decreto. Os deputados só passam a conhecer as leis chavistas pela imprensa oficial. Ele vai calar a única TV que lhe faz oposição. Apoda-a de inimiga do povo, o velho labéu do stalinismo.
Aprendi, com Getúlio Vargas e seu Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) que fascismo não é só impedir de criticar, mas obrigar a elogiar. Rendo-me a Revel, que achei pessimista: o mito marxista (embora primário) volta, sim, pela mão de um caudilho arrogante, nos trópicos.
Jarbas Passarinho, ex-presidente da Fundação Milton Campos, foi senador pelo Estado do Pará e ministro de Estado

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