Extraído do Projeto Orvil pela Editoria do site www.averdadesufocada.com

CAPITULO III

 Preparativos para a Intentona Comunista

1. A mudança da linha da Internacional comunista - IC

Induzido pela Internacional Comunista, o Partido Comunista- Seção Brasileira da Internacional Comunista - PC-SBIC - esforçara-se por se inserir no processo revolucionário brasileiro, que teve início no ano de sua fundação e que passa por 1924/26 e vai desaguar em 1930. Esse período de revoltas e revoluções tinha, porém, como motivação, uma problemática interna voltada para os problemas estruturais e sociais, mas essencialmente brasileiros. Talvez por isso mesmo é que as direções do PC-SBIC jamais foram capazes de entendê-los. Suas análises estereotipadas viam, em cada ocasião, apenas uma luta entre os "imperialismos" inglês e norte-americano. Com esse dualismo mecanicista explicam também a revolução de 1932. Deste modo, por construírem suas análises sobre abstrações de caráter ideológico, não conseguiram sintonizar o Partido com o processo revolucionário em curso e acabaram por perder o "bonde da história". Essa frustração iria fazê-los desembocar na Intentona de 1935.

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Vimos, no capitulo anterior, que a URSS, em 1934, mudara Sua política externa do isolamento .para o diálogo com o ocidente. As ameaças nazistas e fascistas contribuíram para alterar a linha política da IC.

A política de "classe contra classe" não dera resultados e levara ao ostracismo diversos partidos comunistas. Quase que num "retorno às origens", a política da "frente" foi retomada, modificando-se o termo "Única" pelo "popular".

De um modo geral, a frente popular pretendia englobar todos os individuos e grupos numa luta contra o fascismo, indepedentemente de suas ideologias. E, é claro, aproveitar essa frente para tomar o poder.

2. A vinda dos estrangeiros

Concluindo que no Brasil já amadurecia uma situação revolucionária e que a nova politica de "frente popular" desencadearia a revolução, a curto prazo, a IC decidiu enviar diversos "delegados", todos especialistas, a fim de acelerar o processo. Com isso pretendia suprir a falta de quadros dirigentes do PC-SBlC que pudessem levar a tarefa a bom termo. Na realidade, a lC enviou um selecionado grupo de espiões e agitadores profissionais.

No inicio de 1934, chegou ao Brasil o ex-deputado alemão Arthur Ernsf Ewert, mais conhecido com "Harry  Berger". Tendo atuado nos Estados Unidos, a soldo de Moscou, Berger veio acompanhado de sua mulher, a comunista alemã Elise Saborowski, que entrou no Pais com o nome falso de Machla Lenczycki. Berger acreditava que a revolução comunista teria inicio com a criação de uma "vasta frente popular 

antiimperialista" composta por operários, camponeses e uma parcela da burguesia nacionalista. A ação de derrubada do governo seria efetuada pelas "partes revolucionárias infiltradas no Exército" e pelos' "operários e camponeses articulados em formações armadas", embrião de um futuro "Exército Revolucionário do Povo". O governo a ser instituído seria um "Governo Popular Nacional Revolucionário", com Prestes a frente.

 O mirabolante pIano de Berger, tirado dos compêndios doutrinários do marxismo-leninismo, não levava em conta, apenas, um pequenino detalhe: a política brasileira, aquinhoada com uma nova Constituição de fundo liberal e populista, estava cansada dos mais de 10 anos de crise e ansiava por um pouco de paz e estabilidade.

Outros agitadores profissionais vieram para o Brasil, a mando de Moscou, durante o ano de 1934.  Rodolfo Ghioldi e Carmen, um casal de argentinos, vieram como jornalistas. Ghioldi, na realidade, pertencia ao Comitê Executivo da lC, era dirigente do PC argentino e escondia-se sob o nome falso de "Luciano Busteros". O casal León-Jules Valée e Alphonsine veio da Bélgica para cuidar das finanças. A esposa de Augusto Guralsk, secretário do Bureau Sul-Americano que a IC mantinha em Montevidéu veio para dar instrução aos quadros do PC-SBlC. Para comunicar-se clandestinamente com o grupo, foi enviado um jovem comunista norte-americano, Victor Allen Barron. O especialista em sabotagens e explosivos não foi esquecido: Paul Franz Gruber, alemão, veio com sua  mulher Erika, que poderia servir como motorista e datilógrafa.

O  grupo de espiões instalou-se no Rio de Janeiro. De acordo com o insuspeito Fernando Morais: "Uma identidade comum os unia : eram todos comunistas, todos revolucionários profissionais a serviço do Comintern e vinham todos ao Barsil fazer a revolução " " Moraes, F : "Olga", Ed Alfa-ômega, São Paulo, 1985 pagina 67

Faltava, entretanto, o líder "brasileiro", aquele que estaria.à frente do novo governo comunista. Havia já  alguns anos que Prestes vinha namorando os marxistas-Ieninistas. Desde os anos da Coluna, procurava uma ideologia que complementasse o seu espírito revolucionário. Entretanto, seus contatos com os dirigentes do PC-SBIC o desencantaram. Ou melhor, julgando-se acima deles, procurava uma visão do mundo mais perfeita e mais elaborada. Tentara, até, criar o seu próprio movimento, através do LAR.

A possibilidade de ir para a URSS, conversar com os próprios dirigentes do Kremlin, satisfez seus ambições. Em novembro de 1931, Prestes desembarcava em Moscou, com sua família, onde, durante três anos, aprenderia como fazer a revolução.

Em abril de 1935, o "Cavaleiro da Esperança" estava de volta ao Brasil, pronto para assumir a direção do PC e da revolução comunista. A insólita solução concretizava-se: o novo líder dos comunistas brasileiros seria imposto de cima para baixo, da cúpula da IC às células do PC-SBIC. A tiracolo, Prestes trazia sua jovel esposa, Olga Benário, ativa comunista alemã, de confiança dos soviéticos. A IC não poderia entragar, sem controle, a revolução comunista brasileira a um homem que, até aqule momento, ainda não pertencia aos quadros do PC.

Olga seria a sombra de Prestes, criada pela luz de Moscou.

3. O Partido Comunista do Brasil (PCB)

O ano de 1934 marcou o início de uma nova fase para o PC- SBIC.

Em julho, a sua  I Conferência Nacional reelegeu, como secretário-geral, Antonio Maciel Bonfim, mais conhecido como "Miranda", antigo sargento da polícia militar baiana. Para minorar os efeitos aparentes de sua subordinação à IC, o PC-SBlC mudou seu nome para Partido Comunista do Brasil (Seção da Internacional Comunista), usando a sigla PC B

. Esse conclave mudou a linha politica do Partido, segundo os ditames da sua matriz. A luta era antifascista e deveria ser formada uma "frente popular contra os integralistas".

O PCB, radicalizando-se, passou a considerar-se como a "vanguarda na transformação da atual crise econômica em .crise revolucionária - que já se processa -- encaminhando todas as lutas para a revoiução operária e camponesa". Conclamou os camponeses à tomada violenta das terras e à sua defesa pelas armas. Exortou a luta das massas "em ampla frente´´unica, para transformação da guerra imperialista em guerra civil, em luta armada das massas laboriosas pela derrubada do feudalismo e do capitalismo". A lu ta, segundo o PCB, deveria ser elevada  "até a tornada do poder, instaurando o Governo Operário e Camponês, a Ditadura Democrática baseada nos Conselhos de operários, camponeses, soldados e marinheiros". Com relação ao marxismo-leninismo, jactava-se o Partido de que era o "único neste pais que estã baseado· nessa ideologia, a qual já levou.à vitória o proletariado e as massas populares da sexta parte do mundo, a União Soviética" .( Pubicado em "A Classe Operária", jornal do PCB , de 1º de agosto de 1934)

Em documento dado a público logo depois da Conferência, o PCB, vislumbrando as eleiçôes de outubro, criticou a via parla mentar, sob qualquer forma ou rótulo com que se apresentàsse, afirmando que "de modo algum resolve a situação das massas; situação que só poderá ser resolvida pela derrubada víolenta desse governo e sua substituição pelo governo dos· soviets (conselho) de operários, camponeses, soldados e marinheiros" . ( Carone, E: "O PCB - 1922 a 1943 " , Difel  S.A , RJ, 1982 - Páginas 143 a 159.

A. nova linha politica do "novo PCB", em agosto de 1934, .passou a ser a da insurreição aramada para a derrubada do goveerno e a tornada do poder. Os fatos ocorridos no ano seguinte mostrariam se estava preparado para isso e se iria alcançar seu objetivo.

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