Por Luiz Gonzaga Schröeder Lessa

Temos visto, com preocupação, a desenvoltura com que o presidente da Venezuela, Coronel Hugo Chávez, vem se movimentando no continente latino-americano, projetando a sua imagem pessoal, desejoso de ser o herdeiro do ditador Fidel Castro na sua implacável pregação contra Bush e a política norte-americana, amalgamando em torno de si lideranças regionais que imprimem em seus países políticas de conhecido viés esquerdizante.

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Sem grande esforço, impôs, em curtíssimo prazo, a presença da Venezuela no Mercosul como associado pleno, ganhando nova dimensão na sua pregação político-ideológica, que poderá resultar em séria dor de cabeça para a diplomacia brasileira.

Impulsionado pelos vultosos recursos auferidos nos negócios com o petróleo, firma sua posição como líder regional, favorecendo empreiteiras, comprando dívidas, promovendo investimentos, ofuscando a tradicional influência no cenário latino-americano e comprometendo a projeção que o Presidente Lula alcançara no início do seu mandato. Não satisfeito, estreita suas relações com a China e o Irã, não apenas em busca de novas e promissoras oportunidades de negócios, mas, também, como direta provocação aos EUA.

A despeito desta inegável projeção continental, a Venezuela amarga sérias disputas territoriais, não resolvidas, com a Colômbia e a Guiana, em especial com esta última, alegando lhe pertencer cerca de 2/3 do território guianense.

Causa, também, profundas apreensões o polêmico e inusitado acordo de cooperação militar firmado em maio entre a Venezuela e a Bolívia, possibilitando a este último país a construção de bases junto às suas fronteiras com o Chile, Peru, Paraguai e Brasil.

É, pois, com legítima suspeição que se observam os altos investimentos do país na renovação e modernização das suas Forças Armadas, em um ambicioso projeto orçado em U$ 3,8 bilhões que, quando concluído, forçosamente produzirá um desequilíbrio militar na região.

O argumento de Hugo Chávez de que se prepara para uma provável invasão norte-americana não encontra consistência na realidade dos fatos, a despeito da verborragia que mantém com Bush. Ademais, frente ao poderio dos “yankees”, o que Chávez pretende investir é uma gota d’água num encapelado oceano e não possibilita construir Forças Armadas com efetivo poder dissuasório. Se para o irmão do norte pouco representa, para os do sul, os investimentos programados são desproporcionais, geram desconfianças, incentivam uma corrida às armas e aconselham a tomada de medidas acauteladoras.

O pacote venezuelano engloba comando e controle, mísseis antiaéreos, potentes aeronaves de combate (caças e helicópteros), aviões de transporte e de patrulha marítima, navios patrulha, submarinos, radares, blindados sobre rodas, fuzis kalashinikov e outros itens de menor importância. Ademais, cria uma reserva estratégica de dois milhões de reservistas, enquadrados pelo recém-criado Comando Geral das Reservas Militares e de Mobilização Nacional que, estranhamente, se constitui em um comando à parte, não subordinado às Forças Armadas.

Notícias recentes dão conta de que, após delicadas negociações com os EUA, a Espanha concordou com o cancelamento da venda dos 12 aviões Casa, já que nessas aeronaves estão embutidos equipamentos de tecnologia americana que, por acordos firmados, impedem a sua exportação.

É o mesmo argumento que motivou o cancelamento da venda de 24 Supertucanos e 12 AMX do Brasil para a Venezuela.

Muito provavelmente, Hugo Chávez buscará aeronaves alternativas para o seu pacote militar, substituindo os Casa por Antonov.

Serão somente com finalidades defensivas que Hugo Chávez planeja transformar a Venezuela numa “fortaleza inexpugnável” como recentemente declarou ao retornar da sua polêmica participação na Assembléia Geral da ONU?

Os programas em curso na Venezuela combinados com outras iniciativas que se notam na Colômbia, Peru, Bolívia e Chile podem conduzir a América Latina a uma indesejável corrida armamentista e motivar disputas, hoje adormecidas, gerando instabilidades e ameaças na nossa sensível fronteira amazônica, por si só, palco das ambições e da cobiça internacional.

Impõe-se que o Itamaraty e o Ministério da Defesa olhem para o Norte com renovado interesse e justificada preocupação.

 

* O autor é General-de-Exército Ref ; ex-Comandante do Comando Militar da Amazônia e ex-Presidente do Clube Militar

 

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