por Guilherme Fiúza, do site NoMínimo

As veias abertas da América Latina estão em festa. Finalmente, o povo está chegando ao poder. O índio Evo Morales bota os capitalistas estrangeiros para correr, o caloteiro Kirchner consegue índices quase peronistas de aprovação, o coronel Hugo Chávez bota a bola debaixo do braço, avisa que é o juiz de seu próprio jogo e leva a massa ao delírio.

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É comovente ver professorezinhos universitários brasileiros acalentando a guinada autoritária do continente com o verniz da justiça social. Chávez empanturrou seu povo com o cheque-cidadão do petróleo caro, saiu estatizando tudo, vai propor a reeleição sem fim e prepara medidas que lhe permitirão prescindir (ainda mais) do parlamento.

É, de fato, uma revolução – e a América Latina a merece, pois é disso que ela gosta: de um patriarca para chamar de seu.

O Brasil ainda chega lá. Santificado depois do mensalão, Lula sabe que pode tudo, e pela primeira vez um presidente da Câmara será escolhido no uni-duni-tê pelo presidente da República. Quem está encantado com a Venezuela pode aguardar emoções fortes mais ao sul.

Passou despercebido um trecho do último artigo de Fernando Henrique Cardoso, e seria bom prestar atenção nele. Sem apontar o dedo – em seu estilo às vezes indireto demais – o ex-presidente alerta para os ingredientes perigosos do desequilíbrio entre poderes:

“Mas, cuidado, se a democracia representativa que temos consagra um presidente legítimo, não se pode dizer que o Congresso resulte de uma deliberação cidadã, no sentido forte da palavra. O sistema de voto desvincula o eleitor dos representantes e, portanto, cria-se uma fragilidade institucional que, se hoje não é ameaçadora, amanhã poderá ser, pois enquanto a cultura democrática não se enraizar há risco de retrocessos.”

Tradução: Brasília está pronta para ser lambida pelos ventos do chavismo. Viva Bruno Maranhão. Viva o povo. Chega de intermediários.

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