A ALN : A violência até no estertor

  O longo silêncio da Ação Libertadora Nacional (ALN) foi quebrado em São Paulo, no dia l6 de janeiro de 1973, com o assalto à  empresa de transportes Util S/A,  como decorrência da necessidade de sobrevivência. A essa altura, o limitado efetivo da ALN fazia com que seus militantes exercessem múltiplas funções e que se confundisse a Coordenação Nacional com a Coordenação Regional de São Paulo (CR/SP) e com o próprio Grupo Tático Armado (GTA).

Antônio Carlos Bicalho Lana e Arnaldo Cardoso Rocha, seu cornpanheiro de direção nacional, alternavam-se no planejamento e no comando das ações armadas que sustentavam o que restava da organização subversiva em São Paulo. Ao GTA foram incorporados elementos pertencentes ao Setor Estudantil, entre os quais Ronaldo Mouth Queiroz e Francisco Emanuel Penteado..

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Havia um esforço da organizaçãó no sentido de recompor o Setor Estudantil, na tentativa de mobiliar seus debilitados quadros.

 Conseguira refazer seus contatos no movimento estudantil, praticamente inexistente  desde o "racha" do  MOLIPO. Ronaldo Mouth Queiroz ligara-se a Alexandre Vanucchi Leme para a reconstituição de grupos de discussão polltica, primeiro passo para o aliciamento e recrutamento de novos militantes.

Apesar de abalada na sua estrutura, a ALN conseguia manter o seu Setor de Imprensa funcionando. Divulgou, em São Paulo, uma edição mimeografada do nº 9  do jornal  " O Guerrilheiro", enquanto no Rio de Janeiro era distribuido o nº 9 de "Ação", referentes aos meses de outubro, novembro e dezembro de 1972  As publicações, refletindo o estertor da organização não mais enalteciam seus feitos "guerrilheiros". Limitavam-se a orientar o planejamento das ações a serem realizadas, apenas, onde e quando se pudesse assegurar uma superioridade tática.

Assim como ocorrera com o MR-8 no exterior, o nº 12 do jornal  "Ação", vaticinava, numa postura  autocritica, que o prosseguimento da átividade armada, indiscriminadamente, representaria a destruição da organização. Mas, ao contrário daquela organização, esclarecia que as ações  - corretas de inicio - esvaziavam-se de conteúdo político e a insistência na sua prática constituía um erro tático, proporcionando o ressurgimento do "reformismo pacifista" - alusão à nova postura propugnada por diversas  organizações subversivas e, particularmente, à Tendência Leninista (1)que, aos poucos, ganhava adeptos dentre os quadros e militantes da ALN, também no Brasil.,

Mas a organização, mesmo nos seus estertores e apesar, da autocritica, manter-se-ia guiada pela violência irracional que estava incorporada em seus militantes.

 "Justiçamento " de Manoel Henrique de Oliveira.

Atribuindo a morte de Yuri Xavier Pereira e seus companheiros à delação de um dos proprietarios do Restaurante Varela, no bairro da Mooca, onde o terrorista e seu bando foram localizados, decidiu-se pelo, seu assassinato, com o pomposo tItulo de "justiçamento". O comando "Aurora Maria do Nascimento Furtado", constituido por Arnaldo Cardoso Rocha, Francisco Emanuel Penteado, Francisco Seiko Okama e  Ronaldo Mouth Queiroz foi encarregado da missão e assassinou, no dia 21 de fevereiro, o comerciante. 

 Às 0700 hs dessa mánhã, quando Manoel descia de seu Volkswagen, acompanhado de um sobrinho menor, para abrir o restaurante do qual era um dos quatro sócios proprietários, foi metralhado, sem que pudesse esboçar um gesto de defesa, não tendo seu sobrinho sido atingido pelas rajadas de metralhadora por mero acaso. Manoel, 39 anos, de nacionalidade portuguesa, viera para o Brasil há pouco mais de um ano, "para tentar a vida na terra da promissão": Com sua morte,antes que pudesse melhorar de vida, deixou sua mulher, com 2 crianças pequenas, totalmente desamparada, numa terra estranha. O conhecimento da ação não ficou restrito aos assassinos; o corpo de Manoel foi coberto por panfletos da organização impressos no Centro de Orientaç5o Estudantil da USP, por interveniência do militante da ALN  Paulo Frateschi.

" Justiçamento"  do delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior

 Havia algum tempo que os órgãos de segurança conheciam a intenção da ALN em assassinar seus componentes, como forma de intimidação e retaliação pelas freqüentes "perdas" ocorridas no "estouro de aparelhos" e nos confrontos armados. A organização reconhecia que a agonia das orgaJüzações "militaristas" devia-se, em boa parte, à atividade eficiente dos profissionais que participavam da luta antiterrorista.

O doutor Octávio Gonçalves Moreira Júnior, o "Otavinho", delegado do DOPS paulista, destacava-se, desde os tempos de estudante na Universidade Mackenzie, como um convicto opositor das teses marxistas-Ieninistas. Na luta contra a subversão comunista, "Otavinho" havia demonstrado sua inabalável profissão de fé no regime de liberdade. Além disso, pela sua educação e afabilidade, "Otavinho" era muito estimado nos órgãos de segurança, constituindo-se,por tudo isso, num alvo compensador para o terror.

Passando o fim de semana no Rio de Janeiro, "Otavinho" retornava da praia com um amigo, no dia 25 de fevereiro. Parou na esquina da Av. Copacabana com a Rua República do Peru para fazer uma ligação telefônica para sua noiva. Estava sendo vigiado havia muito tempo por um comando composto por Flávio Augusto Neves de  Sales e Merival de Araújo da ALN, Ramires Maranhão do Valle, do PCBR e James Alen Luz da VAR-P. Enquanto completava a ligação no "orelhão", "Otavinho" foi abatido pelas costas por um tiro de espingarda de caça calibre 12, disparado ã queima-roupa por um dos dois elementos que haviam descido, sorrateiramente , de um Aero-willys verde. O disparo fatal, que deixou suas marcas no prédio da esquina e na banca de jornais próxima ao orelhâo, feriu, também, o amigo de Octávio Gonçalves que foi internado no Hospital Miguel Couto. O "justiçamento" foi completado por dois tiros de pistola 9mm desferidos na cabeça de "Otavinho" já estendido na calçada, enquanto de dentro do veIculo eram lançados panfletos, ante os olhares assustados de populares. O levantamento da rotina do Dr Octavio Gonçalves Moreira Júnior foi feito por Bete Chachamovitz.

Com a morte do delegado, a ALN  tentou demonstrar que apesar de debilitada, a "guerra" prosseguiria.

Mais quedas

No dia 2 de março, em São Paulo, ao abordar um local suspeito de tráfico de tóxico, a polícia foi recebida a bala e os meliantes lograram fugir. Um deles, nissei, na fuga deixou cair uma maleta contendo documentos da ALN, sendo o fato comunicado aos órgãos de segurança. No dia 15  desse mesmo mês, com o auxílio dos policiais envolvidos nesse incidente, foi  dada uma nova batida" no local, tendo sido ali identificado o mesmo elemento que deixara cair a maleta com documentos durante a fuga anterior, ácompanhado de outros dois. À ordem de prisão, reagiram, travando-se cerrado tiroteio. Ao dispararem suas armas, os terroristas feriram a transeunte Aparecida Guarnieri Rodrigues e um policial. Ao cabo da refrega os três elementos estavam mortos, tendo sido identificados como Francisco Seiko Okama, Arnaldo Cardoso Rocha e Francisco Emanuel Penteado

O "Justiçamento" do Professor  Francisco Jacques de Alvarenga

No dia 13 de abril, a Ação Libertadora Nacional (ALN) perdia no Rio de Janeiro o terrorista do GTA  Merival de Araújo, morto ao tentar escapar durante a "cobertura de um ponto". A prisão de Merival fora possível pelas declarações de seu' "apoio", o Prof. Francisco Jacques de Alvarenga, militante da RAN, preso naquela ocasião. Solto em seguida, voltou ao seu trabalho no curso MCB.http://www.averdadesufocada.com/images/f/foto2.jpg

No dia 28 de junho, quando preparava provas na secretaria do Curso MCB que funcionava em anexo ao Colégio Veiga de Almeida, na Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, o Prof. Francisco Jacques de Alvarenga foi assassinado com quatro tiros de pistola .45 desferidos pelo terrorista do GTA, Thomás Antônio da Silva Meirelles Neto. O assassino, acompanhado por mais dois elementos, após perguntar à vitima se era o professor Jacques, disparou quatro vezes, em resposta ao gesto amistoso do mestre que lhe estendia a mão. Um dos acompanhantes de Thomás pichou uma parede do colégio com a sigla ALN.

O Fim da ALN

Consumava-se, assim, mais um "justiçamento" da ALN que pressentindo o seu fim, agia de forma a cercá-lo da mesma aura de violência que caracterizou o seu surgimento e a sua existência como organização subversiva. Em julho, em São Paulo, a ALN perdeu , em enfrentamentos armados, mais um elemento de sua Coordenação Nacional e mais um experiente quadro do GTA. No dia 13, o dirigente Luiz José da Cunha, identificado na Avenida Santo Amaro, empreendeu fuga ferindo duas moças na tentativa de sequestrar um carro, antes de morrer no combate com a polícia.

No dia 16, desfalcava a organização o militante Hélber José Gomes Goulart, morto no bairro do Ipiranga ao tentar romper um cerco policial. A ALN mantinha a mística de que os quadros dirigentes e os membros do GTA não deveriam "cair vivos".

Com Hélber foi encontrado um documento da organização que considerava como causas das derrotas da esquerda em geral:

- a centralização e o controle das informações através  dos CODI;.

 - o incremento da  formação técnica dos agentes da lei, bem como o aperfeiçoamento dos métodos de interrogação:

- a campanha publicitária do governo ;

-o controle exercido sobre os sindicatos. dificultando os movimentos de massa; os " projetos impactos";

- a falta de uma unidade política de esquerda, bem como a inexperiência de guerra:

- as derrotas impostas aos movimentos armados e às suas redes de apoio;

-o grande número de militantes no exterior.

O texto admitia o sucesso do governo revolucionário junto à classe média quando veiculava textualmente:"...E na verdade não podemos dizer que não obteve êxitos".:.

Em 1º de outubro, o que sobrara da CR/GB, chefiada por Flávio Augusto Neves Leão de Sales, em "frente" com o PCBR e a VAR- Palmares, fez explodir uma bomba nos escritórios da agência de passagens da empresa aérea Lan-Chile, na Avenida Rio Branco, ferindo seis policiais e seis populares. A bomba, entregue com um bilhete, representou um protesto pela derrubada do Governo de Unidade Popular de Salvador Allende, no Chile, ocorrida no dia 11 de setembro.

A bomba,colocada na agência da LAN-Chile, foi considerada a última manifestação de violência praticada pelas organizaçôes subversivas e baliza o fim da tentativa armada comunista para a tomada do poder no Brasil.

 Em face das "quedas" ocorridas nas fileiras da ALN, sua estrutura que já estava deficiente, tornou-se crítica. Em São Paulo, restava um grupo do Setor de Massas, controlado por Betty Chachamovitz, do qual faziam parte Edmir Elias Albino, Gregório Gomes Silvestre e Rivaldo Leão. Estes elementos, militando na organização desde o final de 1972, ligavam-se diretamente ao último membro da antiga CN ainda atuante, Antônio Carlos Bicalho Lana. O grupo atuava no meio sindical da cidade de Santos, particularmente no meio portuário, imprimindo e distribuindo um jornal.

A desarticulação da organização exigia a neutralização do remanescente da direção nacional, Antônio Carlos Bicalho Lana, que continuava atuando em São Paulo. Prosseguindo as investigações,os órgãos de segurança localizaram em 30 de novembro, na Avenida Pinedo, em Santo Amaro, um casal suspeito. Ao serem abordados, os dois sacaram suas armas e tentaram fugir, atirando nos agentes. Cercados, continuaram atirando até tombarem mortalmente feridos. Confirmando as suspeitas, foram identificados como Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Lopes de Moraes. Desta forma, a ALN tornava-se acéfala com o desaparecimento do último membro da Coordenação Nacional.Com a morte de Bicalho, Betty Chachamovitz deslocou-se para o Rio de Janeiro, passando a viver com Flávio Augusto Neves Leão de Sales. Sem a assistência de Betty, o grupo, que atuava no setor portuário de Santos, seria assinalado e preso em abril/maio de 1974, encerrando suas atividades.

A ALN, no Brasil, estava praticamente extinta. Com a inquestionável derrota militar da organização, as teses da Tendência Leninista da ALN, formuladas no exterior por Rolando Fratti, ganhavam adeptos, afirmando-se como a linha política mais correta dentro da conjuntura. No Chile, o grande número de subversivos e terroristas refugiados  supervisionavam as ações no Brasil. O debate entre a TL e a ALN, veiculado pelo jornal "Unidade e Luta", no Chile, foi nitidamente favorável à Tendência.

 Após a derrubada de Allende no Chile, a TL, acompanhando a revoada das organizações subversivas brasileiras que lá atuavam, manteve um núcleo na Argentina com Ricardo Zarattini Filho, enquanto o restante se radicava na Europa.

Nessa altura, Cuba já havia reconhecido, um dos mentores da TL, José Maria Crispim, como liderança da ALN. Crispim foi para a Argentina, para onde, no final do ano, dirigiram-se Flávio Neves Leão de Sales e Rafael de Falco Neto, visando a impor seus pontos de vista e manter a ALN dentro da orientação original, imposta por Marighella. Nada conseguiram e acabaram aceitando a vitória do novo pensamento que se impunha na organização.

Flávio Neves Leão de Sales, acompanhando a revoada,  recebeu de Crispim 6 mil dólares para, junto com Betty Chachamovitz , grávida, irem para Portugal.

A Ação Libertadora Naciónal deixava de existir como organização atuante no Brasil.

1-'Tendência Leninista foi uma organização que surgiu de uma cisão da ALN no exílio, mas nem chegaria a se estruturar definitivamente no Brasil.

Documentos estudados indicam que Ricardo Zaratini foi o principal articulador e redator do texto "Uma Autocrítica Necessária", que serviu de documento básico para a definição da orientação política do novo grupo. No documento, os rumos tomados pela Guerrilha urbana são duramente criticados em nome de um volta à Declaração do Agrupamento Comunista de São Paulo, que havia marcado o nascimento da organização de Carlos Marighella antes da formação da ALN ser introduzida. Eles propunham um recuo imediato às atividades armadas e que fosse implementado um amplo trabalho político entre as massas para a recuperação das caraterísticas leninistas do grupo ao invés da organização político-militar.

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