Presidente deposto deixaria embaixada e ficaria em sua residência sob 'proteção' do Exército - Por Denise Chrispim Marin, TEGUCIGALPA- O Estado de São Paulo
A Organização dos Estados Americanos (OEA), paralelamente à busca de uma solução para a crise hondurenha, pretende obter hoje do governo de facto uma autorização para que o presidente deposto Manuel Zelaya possa sair da embaixada brasileira e abrigar-se em sua residência até que a negociação seja concluída. Sob o argumento de que se faz necessária uma acomodação mais apropriada a Zelaya, a iniciativa trará um alívio ao governo brasileiro. Há 16 dias, o Brasil vive o inconveniente físico, político e diplomático de ver sua embaixada em Tegucigalpa transformada em um núcleo político do presidente deposto.

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Segundo um alto funcionário da OEA, o governo de facto estaria propenso a aceitar a sugestão. Zelaya ficaria recluso em sua própria casa, em Tegucigalpa, sob "proteção" da polícia e do Exército, em uma fórmula disfarçada de prisão domiciliar. Mas haveria um compromisso formal do governo de facto de que, nesse período, Zelaya não seria levado a prisões do Estado nem submetido a tribunais e poderia pedir asilo político.

No dia 21, Zelaya recebeu o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para abrigar-se na embaixada brasileira. Protegido pela imunidade diplomática, até ontem Zelaya estava acompanhado de sua mulher, Xiomara, e por cerca de 50 colaboradores e 10 jornalistas.

Desde seu ingresso, a embaixada passou a ser controlada pelos seguidores de Zelaya, que impuseram regras e definiram turnos de trabalho de limpeza. Apenas a sala de comunicação com o Itamaraty, o arquivo e o escritório ocupado pelo diplomata Lineu Pupo de Paula estão sob domínio brasileiro. A estrutura formal da embaixada foi transferida para a casa do encarregado de negócios, Francisco Catunda Resende.

Mas o maior constrangimento para o Brasil foi provocado pela recusa de Zelaya em acatar os pedidos para não convocar manifestações públicas nem emitir comunicados políticos do interior da embaixada.

. A presença de Zelaya, entretanto, impediu uma participação mais ativa do Itamaraty no processo de busca de uma solução para a crise hondurenha, ao provocar uma dura reação do governo de facto de Roberto Micheletti.

O presidente Lula foi acusado pelo governo de facto de Roberto Micheletti de intromissão nos assuntos internos de Honduras e de ser complacente com a transformação da embaixada brasileira em uma "plataforma de propaganda política e de concentração de pessoas armadas que ameaçam a paz e a ordem em Honduras".

Ontem, o chanceler de facto de Honduras, Carlos López Contreras, afirmou ser desejável a "normalização do interior" da embaixada brasileira. "Que sejam desarmados os estrangeiros e hondurenhos que irregularmente se encontram no interior da missão do Brasil, pois ali, na minha opinião, só funcionários do Brasil deveriam exercer autoridade e, no exterior, só as autoridades hondurenhas", declarou no discurso de abertura da reunião com a OEA.

No dia 27, Micheletti disse que o Brasil tinha dez dias para definir o status de Zelaya e ameaçou levantar a imunidade da embaixada, já que o Brasil não reconhece o governo de facto. O prazo venceu na terça-feira, mas nenhuma medida foi adotada.

 

 

 

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