OPINIÃO - O Globo
A situação da diplomacia brasileira continua crítica no impasse político em Honduras. O chanceler Celso Amorim afirmou que suspender o "abrigo" ao presidente deposto, Manuel Zelaya, na Embaixada do Brasil, seria "um incentivo a novos golpes de Estado na América Latina". Parece esquecer-se, ou propositalmente esquece, que Zelaya também tinha um projeto golpista, à moda bolivariana, ou seja: realizar referendos para minar por dentro as instituições hondurenhas, tal qual Hugo Chávez na Venezuela e seus discípulos Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Já o assessor especial do presidente Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, que evitou criticar o fechamento de 34 emissoras de rádio por Chávez na Venezuela, acha que as tentativas de envolver o líder venezuelano na trapalhada em Honduras são "uma cortina de fumaça".

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Mesmo tendo sido o presidente deposto transportado, a caminho de Honduras, num avião venezuelano, e o próprio Chávez admitido que monitorara o deslocamento de Zelaya pelo telefone, enganando quem o esperava na Assembleia da ONU, em Nova York.

Tendo sido passiva ("Zelaya materializou-se na embaixada", disse um diplomata brasileiro) ou ativa (o que o governo nega, com baixa credibilidade), a participação brasileira no episódio exacerbou o impasse. O governo interino de Honduras endureceu sua posição, enquanto Zelaya deixava mal a diplomacia brasileira ao transformar a missão em Tegucigalpa num bunker político de agitação e propaganda, em claro desafio às regras do asilo político - que ele não pede, nem o Brasil impõe, o que facilita sua atuação. Querendo ou não, o Itamaraty virou cúmplice do impasse. Logo, da crise.

A grande vítima, além da credibilidade brasileira, é o povo hondurenho, pois o governo interino, sob o pretexto de evitar uma insurreição dos partidários de Zelaya, decretou estado de sítio, restringindo as liberdades civis. Embora claramente a negociação seja a única via admissível, não está afastada a hipótese de mais violência.

É o pior dos mundos: o governo interino se acerca rapidamente de uma ditadura, o Brasil se vê acuado, o México - influente na América Central - se mantém mudo, e os EUA, que sempre apoiaram o retorno de Zelaya para que terminasse seu mandato constitucional, se mostram reticentes, diante das evidências das más intenções chavistas. Até agora, o vencedor é Hugo Chávez, que gosta de cultivar um clima de tensão propício a seu protagonismo bolivariano de cunho histriônico e desestabilizador. Quanto mais esticada a corta, melhor para ele.

 

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