Sarney adia leitura de documento que cria comissão de inquérito e dá tempo para o governo convencer parlamentares a retirarem assinaturas. Oposição já prevê vitória do Palácio do Planalto - Por Tiago Pariz- Correio Braziliense
Estimulado por pressão do governo e com uma boa mãozinha do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o movimento no Congresso para enterrar a CPI do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ganha força. Dois deputados já retiraram as assinaturas do requerimento de criação da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a legalidade de repasses federais a entidades ligadas ao MST. Para invalidar a iniciativa, é preciso que outros 11 deputados e dois senadores excluam seus nomes do documento.

Texto completo

Há duas semanas, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) apresentou o pedido de criação da CPI, com 29 assinaturas de senadores e 183 de deputados. Desde então, o governo começou a pressão. Já conseguiu convencer os deputados Ciro Nogueira (PP-PI) e Camilo Cola (PMDB-ES) a desistirem de apoiar a CPI. Enquanto isso, Sarney deu mais tempo para o Palácio do Planalto agir ao adiar de ontem para a semana que vem a leitura do documento sobre a CPI. Uma vez lido em plenário, o inquérito parlamentar é considerado criado, aguardando apenas a instalação dos trabalhos.

 

Críticas

O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), criticou a decisão de Sarney. “O presidente do Congresso deveria se poupar e não ter uma atitude patética como essa”, disparou o democrata. “O governo está tendo o controle direto da pauta do Congresso”, emendou. Kátia Abreu endossou o protesto ao lamentar o tempo que o governo ganhou com a manobra de Sarney. “Esse é o risco que nós corremos. Faz parte do jogo democrático essas tentativas de postergar leitura”, disse a senadora, que também é presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e é uma das principais articuladoras da CPI.

 

Pró-MST

Além de adiar a sessão do Congresso Nacional, Sarney fez um discurso em defesa do MST na quarta-feira. “E um erro olhar o problema dos sem-terra pelo lado penal, criminalizá-lo. Os excessos — e eles existem — devem ser punidos, bem como o desrespeito à propriedade. Mas não devemos radicalizar. Temos que evitar o confronto e não demonizar o MST”, emendou.

Os parlamentares de oposição viram nas palavras de Sarney uma crítica à iniciativa de investigar o movimento. E já apostam que, de hoje até o dia da leitura do requerimento, não haverá mais assinaturas necessárias para a criação da CPI.

Comments powered by CComment