Morales, Zelaya, Ortega, Chavez e Correa, a récua e a ausência do moluscus afarensis.

Por Cristina Azevedo e Tatiana Farah  - O Globo
RIO e SÃO PAULO. Uma situação inusitada, que advogados, diplomatas e especialistas em relações internacionais não se lembram de ver paralelo. Em geral, uma pessoa em apuros políticos recorre a uma embaixada estrangeira em busca de garantias para deixar seu país. Mas e no caso do presidente deposto Manuel Zelaya, que retornou a Honduras e se abrigou na embaixada brasileira, disposto a voltar ao poder?

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- É um caso inédito, e não acredito que isso contribuirá para solucionar a crise. Ele traz um problema para o Brasil, que não estava envolvido no conflito - opina o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia.

O fato coloca o Brasil em situação delicada com o governo Micheletti - um governo, por sinal, que não reconhece.

- É preciso saber se o Brasil ajudou Zelaya a entrar no país ou se apenas o recebeu. Se foi orquestrado, o Brasil assumiu uma postura de alto risco. Isso pode ser uma ação para assumir o protagonismo na resolução do conflito. Se o governo de Honduras quiser resolver pela força, vai criar uma situação internacional insustentável - explica João Paulo Veiga, professor de Relações Internacionais da USP.

Ex-embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur acredita que o caso não contraria a tradição brasileira de abrigar perseguidos políticos.

- Se Zelaya se apresentou, fizemos bem em acolhê-lo. Não acredito que o Brasil tenha feito parte de uma operação de entrada clandestina - avalia o ex-embaixador.

A situação é complicada, na avaliação de Antonio Celso Alves Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Internacional. O Brasil deve comunicar a presença de Zelaya e pedir garantias, disse. Mas, se não as receber, Zelaya corre o risco de ficar encerrado na embaixada, como ficou por cinco anos o líder político peruano Haya de la Torre na embaixada colombiana.

Em outras condições, o Brasil já abrigou refugiados e teve hóspedes polêmicos. Ex-ditador do Paraguai, Alfredo Stroessner viveu 17 anos exilado no Brasil até morrer, em 2006. No caso do presidente deposto do Equador Lucio Gutiérrez, foi preciso enviar um avião para resgatá-lo. Gutiérrez ficou 87 horas refugiado na casa do embaixador brasileiro em Quito. Agora, a presença de Zelaya na embaixada deve levar a um envolvimento maior do Brasil no caso.

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