Ter esperança de que um governo comunista seja bom para o seu povo é o mesmo que ter esperança de que o dia não anoiteça. É natural e inevitável.
Correio Braziliense
Ventos autoritários teimam em trazer do passado os fantasmas das ditaduras latino-americanas. E não sopram dos quartéis. Vêm de dentro de palácios ocupados por governantes democraticamente eleitos. Escolhidos por seus povos com o compromisso de consolidar a democracia, levar seus países à estabilidade política plena, dão meia-volta. Sem pudor, ferem a liberdade com ataques sistemáticos à imprensa. Promovem perseguições, abusam da força.

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Na Venezuela, de Hugo Chávez, a guerra é declarada. A intolerância à crítica é explicitada com o fechamento de meios de comunicação. É fácil: como os veículos dependem de concessões públicas, basta não renová-las. A disposição para calar a mídia não deixa faltarem argumentos. Qualquer detalhe vale. O tamanho da ofensiva pode ser medido pela ameaça de fechamento de mais de 200 rádios. A intimidação é séria. Em 2007, a maior rede de televisão do país, a RCTV, foi tirada do ar, à exceção da programação paga, veiculada por cabo. Mira-se agora a Globovisión.

Pupilos de Chávez, Rafael Correa, do Equador, e Evo Morales, da Bolívia, seguem a lição do mestre e não dão trégua à imprensa. O modus operandi é o mesmo. De discursos que incitam a população a ver jornais, rádios e TVs como instituições a serviço de um império imaginário que ameaça a soberania e o povo, até o acossamento das empresas com ações administrativas ou processos legais. A lei da selva impõe a empresários das comunicações uma só regra de sobrevivência: ou são simpáticos e subservientes ao Poder Executivo, ou perdem o controle dos grupos.

Na última semana, a Argentina entrou ostensivamente nesse clube de países cujo despotismo vai às vias de fato, à agressão pura e simples, quando o intuito é silenciar supostos opositores. A presidente Cristina Kirchner mostra as garras, não é de hoje: seja abusando da retórica de que a imprensa portenha goza de superpoderes, seja distinguindo os meios de comunicação, favorecendo aliados com publicidade oficial e entrevistas exclusivas, negadas aos demais. Também pressiona a Câmara dos Deputados a aprovar — antes que perca a maioria na Casa com a posse dos novos congressistas em 10 de dezembro — polêmico projeto de lei de radiodifusão que cria restrições ao audiovisual.

Mas a chegada de centenas de fiscais da Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip), o Leão argentino, à sede do jornal Clarín no fim da tarde de quinta-feira foi violência sem precedentes no governo Kirchner. As tentativas de se desvencilhar da ação, com a Casa Rosada e a direção do órgão negando terem ordenado a operação, não amenizam a gravidade do episódio. Nem aliviam a responsabilidade do Executivo. Há relatos de que inspetores tentaram coibir a própria cobertura jornalística do incidente. A intervenção sangra a liberdade de imprensa, reabre feridas nas muito jovens democracias do subcontinente. Urge mobilizar os movimentos sociais antes que sopros autoritários dessa ordem terminem por formar monumental tsunami que, mais uma vez, varrerá as liberdades da América Latina.

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