Imprimir
Categoria: Diversos
Acessos: 2863

 País comunista também remeteu dólares para grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura
Por Marcelo Godoy

Em segredo, a Coreia do Norte treinou guerrilheiros brasileiros e enviou dólares a grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar nos anos 70. Instrutores do Exército coreano que falavam espanhol davam aulas de formação política, de marcha, emboscada, explosivos e manejo de armas leves, como fuzis e carabinas, aos alunos brasileiros.

Texto completo

 

O Estado entrevistou três dos integrantes de uma turma de brasileiros que treinou táticas de guerrilha rural naquele país - um deles pediu anonimato. Integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), eles revelaram um segredo da guerra fria, parte da história do apoio dado pelos países comunistas à luta armada no Brasil.

De fato, Cuba e China também treinaram guerrilheiros, que depois voltaram ao Brasil. No caso dos alunos dos coreanos, isso só não ocorreu porque os planos fizeram água após a desagregação de sua organização. "O curso foi muito bom. Tinha a parte militar clássica, mas sempre voltada para o trabalho de guerrilha", afirmou o sindicalista Irany Campos, um dos guerrilheiros do curso.

A turma de brasileiros era formada em sua maioria por militantes de esquerda que foram banidos do Brasil. Presos pelo regime, eles haviam sido enviados para fora do País em troca da libertação de diplomatas estrangeiros sequestrados em 1970 pelos guerrilheiros, como os embaixadores alemão ocidental (Ehrenfried von Holleben) e suíço (Giovanni Bücher).

A direção da VPR acertou com a Embaixada da Coreia em Cuba o envio dos militantes - a ALN quase fechou acordo semelhante. "Tenho conhecimento só de uma turma que esteve lá: a nossa", disse Campos.

Os nove da VPR saíram do Chile e foram para Cuba. Ali pegaram um avião em Havana, que fez escalas no Canadá, em Marrocos e em Moscou, quando houve uma pausa de dois dias. Os soviéticos permitiram a estadia dos brasileiros, que, depois, rumaram à Sibéria, onde o avião fez a última escala antes de Pyongyang.

O acampamento dos brasileiros era próximo da capital. "A gente permaneceu isolado. Só saía de lá com os coreanos", afirmou Jovelina Tonello, única mulher do grupo. A alimentação e estada eram por conta dos coreanos. Toda semana havia sessão de cinema com filmes coreanos traduzidos pelos instrutores. "O professor de caratê era um cara que havia matado 13 em uma emboscada", disse Jovelina. O fato ocorrera na Guerra da Coreia (1950-53).

Parte do treinamento, que durou três meses, ocorreu quando ainda havia gelo. As aulas de formação política eram dadas por coreanos. "Dentro da visão que eles tinham de solidariedade internacional do camarada Kim Il-sung. Nós estávamos ali em função da solidariedade internacional", afirmou Campos, citando o secretário-geral do PC daquele país. Ali o guerrilheiro aprendeu a manusear o fuzil AK-47.

"No fim, tivemos a honra de o governo mandar um representante para almoçar com a gente", disse Jovelina. Ela ainda fez curso de auxiliar de enfermagem, que seria útil mais tarde. Após três meses, os guerrilheiros voltaram a Cuba pela mesma rota. "A maioria seguiu para o Chile", disse um dos guerrilheiros, carioca que militou na VPR.

 

"VOLTAR PARA LUTAR"

O objetivo era voltar para o Brasil. "Voltar para lutar", disse Campos. Na época, o Chile era governado pela União Popular, liderada pelo socialista Salvador Allende. Jovelina foi uma das militantes que foram parar em Santiago. Naquele período, em 1972, a situação da VPR havia se deteriorado. Três grupos se digladiavam pelo controle da organização. O líder de um deles, o sargento Onofre Pinto, era acusado de traição por sua ligação com José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, que foi preso e passou a trabalhar para o delegado Sérgio Paranhos Fleury, da polícia paulista.

"Um dia me encontrei com o Onofre e ele me deu um beijo. Eu não entendi nada. Ele disse: "Eu recebi o relatório. Muito bom, muito bom". Aí fiquei sabendo que era o relatório sobre o curso na Coreia", disse Jovelina. A direção da VPR recebeu o relatório dos coreanos por meio dos cubanos. "Eles me felicitaram pelo meu comportamento durante o treinamento."

Jovelina estava em um dos grupos contrários a Onofre e, depois, desligou-se da organização. Passou a trabalhar como enfermeira em uma fábrica até ser presa após o golpe militar contra Allende, em 1973. Como não foi identificada como estrangeira, acabou liberada.

Juntou-se ao marido e a socialistas chilenos na resistência ao golpe, mas em novembro todos procuraram o Refúgio de Padre Hurtado (Santiago), um abrigo para os perseguidos políticos patrocinado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Ela e seus companheiros saíram do Chile em fevereiro de 1974. Deixaram para trás a luta armada e rumaram para o exílio na Europa e em Cuba, levando com eles o segredo coreano.

  

ALN ganhou dólares e deu rolex a Kim

Zarattini quis enviar ao país asiático brasileiros que estavam em Cuba

 

O regime comunista de Pyongyang mantinha contatos com a direção da Ação Libertadora Nacional (ALN), a quem enviou maletas com dólares e ainda aceitou acolher 14 militantes da organização para treinamento. As relações da direção da ALN - o maior grupo da guerrilha urbana no País - com a Coreia do Norte foram importantes.

Prova disso é o depoimento do então militante Aloysio Nunes Ferreira Filho no documentário Tempo de Resistência. Aloysio acompanhara em 1969 o líder da ALN Joaquim Câmara Ferreira até a embaixada coreana em Paris. Na saída, os dois tomaram conhecimento da morte de Carlos Marighella, fundador da organização - Ferreira então voltou ao Brasil e assumiu o comando da ALN até ser morto pela polícia, em 1970.

Quem primeiro revelou as remessas de dinheiro para a ALN no Brasil foi um dos comandantes militares da organização, o escritor Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o Clemente. Ele conta que uma das remessas chegou à ALN em São Paulo em 1971. O dinheiro, cerca de US$ 50 mil, serviu para manter os planos de se criar uma área estratégica de guerrilha rural no País.

"A Coreia ficava longe e não tinha pretensões de interferir na política interna da organização. Não tínhamos lá 20, 30 ou 40 militantes como tínhamos em Cuba", disse Clemente. Ele havia revelado o recebimento do dinheiro coreano em seu livro Nas Trilhas da ALN. Uma vez, seu grupo, depois de "expropriar uma joalheria em São Paulo" resolveu mandar as joias para o exterior.

"A organização não tinha relação com contrabandistas ou receptadores. Não tínhamos o que fazer com as joias e mandamos tudo para o exterior. Mas o Iuri (Iuri Xavier Pereira, morto em 1972 pelo DOI do 2º Exército) resolveu retribuir as maletinhas e mandou um rolex de ouro para o marechal Kim Il-sung (pai do atual secretário-geral do PC do país, Kim Jong-Il)."

Em Cuba, outro dirigente da ALN, Ricardo Zarattini, tentou convencer integrantes da organização que treinavam na ilha para que eles fossem à Coreia e ao Vietnã - 14 iriam para o primeiro e dez ao segundo. Era uma forma de impedi-los de voltar ao Brasil, onde podiam ser presos e mortos. "Eu e o Rolando Frati procuramos os embaixadores." Mas os jovens resistiram ao plano.

Mesmo assim, a Coreia manteve o convite a Zarattini. Ele esteve em um congresso em Pyongyang. "Tinha de fazer um discurso e eles (os coreanos) queriam que eu botasse uma saudação (a Kim Il-sung) "estimado e querido e estimado líder de 40 milhões de coreanos" e uma porrada de elogio, e eu não queria escrever aquilo. Em uma semana que fiquei lá, foram quatro dias só em torno dessa discussão." O discurso saiu sem muito elogio, mas com alguns a Kim Il-sung. "Era uma idolatria tremenda." No fim, o grupo que Zarattini quis enviar à Coreia voltou para o Brasil. Como ele temia, a maioria acabou morta pela repressão.