Por Luiz Gonzaga Bertelli - PRESIDENTE EXECUTIVO DO CIEE - Jornal do Brasil
A proximidade da data de 9 de julho evoca os acontecimentos que mobilizaram os paulistas, em 1932, em torno de uma causa nobre: a constitucionalização do país. Mas poucos sabem, nos dias de hoje, o que significou esse movimento para os que o vivenciaram de perto, nas frentes de combate ou na retaguarda.

Nas primeiras décadas republicanas, havia a famosa "política do café com leite", em que paulistas e mineiros se revezavam no poder central, cada qual simbolizado pela força de suas atividades econômicas mais importantes: a lavoura cafeeira e o gado leiteiro. As demais unidades da federação ficavam, em geral, com a vice-presidência da República.

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O mandato do presidente Washington Luís, iniciado em 1926, não foi tranquilo. A crise mundial de 1929 afetava amplos setores da vida brasileira, atingindo em cheio o alicerce de nossa economia, assentada na monocultura cafeeira, e provocando índices alarmantes de desemprego. Num clima de natural insatisfação, os opositores do governo sentiram-se indignados quando Washington Luís propôs Júlio Prestes, governador paulista, como candidato à sucessão presidencial. Afinal, dentro do acordo tácito que a "política do café com leite" impunha, era a vez de Antônio Carlos, governador de Minas Gerais.

Inconformado com a situação, Antônio Carlos lançou a candidatura do governador gaúcho, Getúlio Vargas, para presidente, tendo como vice o governador da Paraíba, João Pessoa. As eleições, em março de 1930, deram a vitória a Júlio Prestes, mas foram contestadas por Vargas em violento manifesto. O assassinato de João Pessoa, em julho, serviu de pretexto para maior mobilização dos opositores. Iniciou-se um movimento militar, liderado por Getúlio Vargas, contra o governo federal, e a 3 de outubro, faltando apenas um mês para o término de seu mandato, Washington Luís foi deposto.

A Revolução de 1930, como ficou conhecido o episódio, levou Getúlio Vargas a assumir a chefia do governo provisório. Embora tivesse prometido a realização de eleições e a elaboração de nova carta constitucional, Vargas assumiu atitudes ditatoriais: suspendeu a Constituição de 1891, dissolveu o Congresso Nacional, substituiu todos os governadores e prefeitos.

A insatisfação dos paulistas com tal estado de coisas aumentava gradativamente, alimentada por inúmeros manifestos e comícios. Em 25 de janeiro de 1932, no Largo da Sé, uma verdadeira multidão protestou contra os desmandos políticos de Getúlio Vargas. Pouco tempo depois, em 17 de fevereiro, foi criada a Frente Única, união de todos os partidos para lutar "pela autonomia de São Paulo e pela constitucionalização do Brasil". As atividades conspiratórias não tardaram a acontecer, e organizou-se uma comissão, com militares e civis, para planejar a luta armada, vista agora como única solução possível.

A vinda a São Paulo do ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha, serviu de pretexto para uma série de manifestações de repúdio ao governo federal. No dia 22 de maio, pequenos comícios realizados em vários pontos da cidade assumiam tom cada vez mais inflamado. O clima de revolta continuou no dia seguinte, a ponto de os comerciantes fecharem as portas de seus estabelecimentos e liberarem os empregados para as manifestações que tomaram conta do centro. Houve também vários choques entre os revoltosos e os adeptos de Vargas, num ambiente de verdadeira guerra civil. Um grupo exaltado disparou tiros contra a sede do jornal Correio da Tarde, defensor do governo federal, e depredou as instalações de A Razão, periódico que pertencia à família de Osvaldo Aranha. Ao tentar fazer o mesmo no edifício onde funcionava o Partido Popular Paulista, na Rua Barão de Itapetininga, os revoltosos foram recebidos por gente fortemente armada. As primeiras vítimas do movimento tombaram então na Praça da República: Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia e Antônio Américo de Camargo Andrade. Gravemente ferido na mesma ocasião, o menino Dráusio Marcondes de Sousa, de 14 anos, viria a falecer na tarde de 27 de maio. A partir desta data, os revolucionários passaram a chamar o movimento de MMDC, sigla das iniciais dos nomes das vítimas (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo).

A perspectiva de um levante levou o MMDC a reunir voluntários de todos os setores da sociedade. Era preciso formar pelotões, prepará-los para a ocupação de pontos estratégicos, angariar recursos, produzir fardas, distribuir armas e munições, além de manter mobilizada a população via propaganda. Os acontecimentos foram precipitados por pronunciamento do general Bertoldo Klinger, comandante das tropas federais em Mato Grosso e aliado dos paulistas, em protesto contra a nomeação do ministro da Guerra. Na noite do dia 9 de julho, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes e do coronel Euclides Figueiredo, chefes do Estado Maior Revolucionário, eclodiu, finalmente, a revolução paulista.

Militares da Força Pública e das guarnições do Exército sediadas no Estado de São Paulo juntaram-se aos batalhões de voluntários arregimentados pelo MMDC para pôr em prática o plano: com soldados vindos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, que então se posicionavam como aliados dos paulistas, avançariam até o Rio de Janeiro para depor Getúlio Vargas, formar um governo provisório, convocar eleições e promulgar nova Constituição. Obteriam também o apoio de Klinger, que viria de Mato Grosso com 5.000 homens.

As tropas paulistas pararam em São José do Barreiro, à espera do reforço prometido. Estavam próximas de Bananal, a última cidade paulista ao longo da estrada que ligava São Paulo ao Rio. Mas os soldados tiveram que lutar sozinhos, pois as promessas de ajuda não se cumpriram. Os combates ocorreram em várias frentes, sobretudo nas divisas de SP com Rio e Minas Gerais. Apoiados por uma retaguarda admirável de voluntários no atendimento médico, na enfermagem, na alimentação, na costura, envolvendo gente de todas as idades e classes sociais, os soldados paulistas resistiram por três meses em absoluta desigualdade: tinham só 7 aviões e 44 canhões, contra os 24 aviões e 250 canhões das forças de Vargas.

Com a notícia de que a Força Pública havia assinado a rendição, no dia 2 de outubro, os voluntários não tinham mais condições de sustentar a luta, e as últimas trincheiras foram abandonadas. O coronel Euclides Figueiredo, seu comandante, negou-se a assinar o acordo, pois o considerou humilhante.

Vale lembrar, a esse respeito, o emocionado discurso feito em praça pública por Ibraim Nobre:

"A Revolução não deveria terminar assim. Depois que fossem os filhos, iriam os pais, depois que eles morressem, iriam as irmãs, as noivas. Todos morreriam. Mais tarde, quando alguém passasse por aqui, neste São Paulo deserto, sem pedra sobre pedra, levantando os olhos para o céu, haveria de ler, no epitáfio das estrelas, a história de um povo que não quis ser escravo."

Os livros de história costumam dizer que, apesar de derrotados militarmente, os paulistas saíram vitoriosos da Revolução de 32, pois o Brasil ganhou uma Constituição em 1934. É difícil avaliar o passado nesses termos. O saldo imediato do movimento computou 830 mortos em combate e 104 exilados (entre oficiais do Exército, da Força Pública e civis), além dos que ficaram encarcerados na Ilha Anchieta. A luta foi das mais cruentas, e fica difícil reconhecer nela algo positivo.

Mais do que a Constituição – de vida tão efêmera, pois enterrada com o golpe do Estado Novo, em 1937 – talvez fosse mais apropriado evocar aqui o tipo inédito de mobilização que São Paulo conheceu em 1932, mandando cerca de 120 mil homens para o front. Além disso, civis, militares, crianças, velhos, mulheres, índios, comerciantes, professores, grandes industriais, todos se puseram a serviço da causa; as fábricas não paravam de trabalhar, pois do parque industrial paulista era preciso tirar munições, armas, carros blindados, fardas, alimentos; e a intensa propaganda feita pela rádio mantinha elevadíssimo o ânimo da população, que se despojou de alianças e outras jóias para cobrir as despesas de guerra. Foi, acima de tudo, um exemplo ímpar e memorável de união e de força, que talvez não mais se reproduza entre nós

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