Por Nivaldo Cordeiro
Eu ouvi na TV o discurso do senador Aluisio Mercadante, do PT, ontem, no plenário do Senado. Começou “detonando” José Sarney, o presidente da Casa, e acabou de maneira cordata e suplicante à bancada do PMDB, partido que tem em Sarney o seu líder maior, em nome da governabilidade. É preciso decifrar esse enigma, pois compreendê-lo é compreender a própria essência do nosso processo político, a alma coletiva brasileira.

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No mesmo dia mais uma acha de lenha foi jogada na fogueira em que queima o velho cacique do Maranhão: a denúncia de que uma valiosa casa de sua propriedade teria sido omitida da declaração de bens à Justiça eleitoral. Veja, caro leitor, como as denúncias contra ele se repetem com a regularidade com que o planetas giram em torno do sol. A ação desestabilizadora contra o velho ex-presidente continua ativa e é provável que os próximos dias tragam mais um pouco de suas doses homeopáticas.


O PT é isso: como uma hidra, tem muitas cabeças. Mas só aparentemente atuam em sentido contrário. Toda essa dança contra a atual direção do Senado tem um sentido, o sentido da sucessão presidencial. Por ali necessariamente passam, não apenas as articulações para a definição de nomes e de apoios, como também os atos formais que demandam a forma de lei, poder importantíssimo em ano eleitoral. O PT perdeu para Sarney esse precioso instrumento de poder e não se conforma. Desde então jogou seus exércitos de arapongas e de jornalistas alugados contra o atual presidente do Senado. A campanha midiática contra ele é intensa e sem tréguas.


Convém que recapitulemos os fatos. Sarney praticou atos nepotistas repugnantes, de longa data, foi conivente e beneficiário dos atos ditos secretos do Senado, está envolvido, direta ou indiretamente, no conjunto das irregularidades que vieram à mídia. Nunca deixo perder de vista a informação de que Sarney construiu uma imensa fortuna pessoal e, que eu saiba, nunca trabalhou em nada na vida, que não no ofício de político profissional. Estamos fatalmente diante de um indício de enriquecimento sem fato gerador determinado, em si elemento suficiente para uma investigação do Ministério Público. Ocorre ISS com ele e com os 100% dos seus “companheiros” senadores, todos estão na mesma situação, como de resto toda a oligarquia política que comanda a República. Então ninguém vai mexer nesse vespeiro, todos têm rabo preso. Ninguém quererá fazer perguntas difíceis de responder.


Da mesma forma que os casos provados e comprovados de nepotismo nem serão objeto de investigação, pois que já eram fatos sabidos por aqueles que acompanham a cena político. A deixa foi dada pelo próprio presidente do STF, Gilmar Mendes, quando disse que a publicação dos atos “secretos” supriria a falha formal. O único fato novo é que os jornalistas assalariados do PT puseram a notícia na primeira página dos jornais. Ora, Sarney já viveu muito mais que isso. Um olhar sobre a história da chamada Nova República mostrará que, quem enfrentou o velho Sarney, acabou se dando mal. A começar pelo ex-presidente Fernando Collor. O poder que esse homem alcançou, poder real, de comandar deputados, senadores, ministros, altos burocratas do Executivo, graúdos do poder Judiciário, é imenso. Ninguém mexe no ex-presidente sem colher um contragolpe fulminante. O fato de ter peitado o PT no começo do ano, e vencido, mostra isso.


Lula percebeu a realidade política com clareza, embora seus asseclas, de olho na sucessão, tenham recebido passe livre para praticar a sua guerra de guerrilhas, desde que não ultrapassem a linha vermelha. O discurso do senador Mercadante foi exemplar para mostrar isso. O tom indignado do início de sua fala deu lugar a murmúrios conciliatórios do final. Se o PT tem seus arapongas infiltrados, para produzir em série notícias de nossas práticas políticas nefandas, Sarney tem as grandes informações, aquelas dos acordos políticos secretos que sacramentaram Lula e o PT no poder e as grandes negociatas feitas com dinheiro do Erário desde pelo menos 1985. Sarney sabe tudo de todos porque todos tiveram que negociar com ele. Sorte do PT: o velho Sarney ama tanto o poder que se tornou mesmo um conservador, do tipo que só tolera aquelas mudanças que na prática acabem por nada mudar.


Por isso Sarney não vai sair, nem de um jeito e nem de outro. Porque ele tem grande poder pessoal, que emana não apenas dos cargos que ocupa, mas de sua história política. Imagine, caro leitor, se Sarney resolver falar do acordão para permitir a eleição de Lula presidente, ou daquele que enterrou o “mensalão”, ou mesmo do varejo do dia a dia que envolve o seu grupo político no poder Executivo. Lula tem plena consciência disso, mas seus barbudinhos revolucionários estão encarregados de dar um jeito de conseguir uma alternativa sucessória que mantenha os vermelhos no PT. Está posto o impasse: o estratégico ou o tático?


Sarney só sairá de onde está por obra de Deus. Tirante uma chamamento do divino, o PT terá que engoli-lo. Sarney é a personificação de todos os nossos vícios coletivos. Ele, sim, é o que poderíamos de chamar de “um brasileiro igualzinho a você”. É a nossa esclerose política, nosso descenso espiritual, a decrepitude daquilo que se chama de virtudes cívicas. Sarney tem muito poder e sabe como usá-lo. Essa falange dos neófitos petistas não é capaz de derrotá-lo no seu próprio campo.

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