Lula condena golpe em Honduras, mas cala sobre repressão no Irã, faz coro com autocrata e deixa de reprovar ditador sudanês- Folha de São Paulo

QUEM PROCURAR coerência absoluta nas atitudes diplomáticas de uma nação importante não vai encontrá-la. É comum que a costura entre princípios, de um lado, e pragmatismo, do outro -mediada por interesses comerciais e geopolíticos- produza resultados desarmônicos. Mesmo assim, o nível de desafinação da política externa do presidente Lula nos últimos meses inspira cuidados e explicações.

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O Brasil se apega corretamente a princípios ao defender a democracia e o retorno ao "status quo" em Honduras, após o golpe militar que defenestrou o presidente eleito, Manuel Zelaya. Quando está em tela a repressão brutal a manifestações no Irã, no entanto, o presidente Lula se transforma numa espécie de cabo eleitoral de Mahmoud Ahmadinejad.

Em nota, o Itamaraty condenou "de forma veemente" o golpe hondurenho e pontificou que as divergências internas "devem ser resolvidas de forma pacífica". Nenhuma nota publicou sobre o conflito no Irã, onde as divergências estão sendo tratadas com derramamento de sangue e expurgos. Restaram intervenções infelizes de Lula, que fez coro com a propaganda de Ahmadinejad e do aiatolá Ali Khamenei.

Com tais serviços prestados a autocratas, não admira a expectativa, quanto ao líder brasileiro, demonstrada pelo ditador genocida do Sudão, cuja prisão foi decretada pelo Tribunal Penal Internacional. "Conto com o apoio do presidente Lula", afirmou Omar al Bashir no encontro de cúpula da União Africana ocorrido anteontem na Líbia, do qual Lula foi convidado de honra.

Bashir sabe do que fala. O Brasil eximiu-se de condenar, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, o governo sudanês por sua responsabilidade na campanha de "limpeza étnica" que já custou a vida de 300 mil pessoas no país do nordeste da África.

O ministro das Relações Exteriores tenta explicar os surtos de pragmatismo desenfreado da representação brasileira. Em vez de condenar governos que massacram, Celso Amorim prefere dialogar com os ditadores e buscar soluções para "efetivamente melhorar a situação" das regiões em conflito. Os militares golpistas de Honduras decerto gostariam de receber o mesmo tratamento do Itamaraty.

Entre o caso de Honduras, de um lado, e os de Irã e Sudão, do outro, o gradiente de interesse e de influência da diplomacia brasileira decresce quase verticalmente. No continente americano, manter a paz e a estabilidade democrática entre vizinhos é de nosso interesse direto e imediato. A Carta Democrática da OEA permite pressão incisiva da comunidade regional na hipótese de ruptura de regime -e se espera que não seja esquecida pelo Itamaraty no caso cubano.

O interesse na relação com países mais distantes, como o Irã, é bem menor e se restringe aos negócios. Se não há razão para Brasília rivalizar com regimes autocráticos nesse caso, tampouco se justificam a passividade e as atitudes adulatórias observadas.

Há momentos e locais em que o Brasil precisa expressar, nos termos adequados, seu ponto de vista, como sociedade democrática, pacifista e tolerante. O Conselho de Direitos Humanos da ONU é um desses locais. A violenta repressão a dissidentes no Irã é um desses momentos.

 

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