Por Bruno Garschagen - Jornal Português " i"
Quem poderia comparar os confrontos pós-eleitorais no Irão com uma rivalidade de adeptos de futebol? Lula da Silva, que gosta de atestar idoneidade a quem depois mostra não a ter. Lula. Luiz Inácio Lula da Silva. Presidente do Brasil. Perdi a conta de quantas vezes tive que falar sobre Lula aqui em Portugal. Sobre seu governo. Seus vícios. Suas virtudes desvirtuosas. Lu-la. Semana passada Lula superou-se. Lula é insuperável em superar-se.
Eleições no Irão? "Não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irão. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos."
Enquanto os governos do Reino Unido, Espanha, França e Alemanha condenavam a extrema violência contra os opositores, Lula comparava a situação à rivalidade entre as torcidas de dois times de futebol do Rio de Janeiro.
A coisa não ficou por aí.

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Na mesma semana, Lula apoiou o presidente do Senado brasileiro, José Sarney, após a revelação de que em 14 anos a Casa executou mais de 500 actos administrativos secretos para nomear, exonerar e aumentar salários de pessoas ligadas à directoria. Os actos não eram publicados e as decisões eram omitidas dos senadores não envolvidos e da população. Duas sobrinhas e um neto de Sarney teriam sido nomeados por actos secretos para trabalhar em gabinetes de seus colegas.
Lula é fecundo em atestar a idoneidade de gente que depois, afinal, não se mostra tão idónea assim.

Durante o primeiro mandato (2003-2006), Lula perdeu vários homens de confiança e políticos da base do governo no Congresso por denúncias que fariam corar aqueles que aqui estão envolvidos no caso Freeport.

O que disse Lula sobre Sarney? "Penso que ele tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum. Elas (as denúncias) não têm fim e depois não acontece nada."

A habilidade retórica de Lula é soberba. Quem, ao acompanhar a história política em Terras de Vera Cruz, discordaria de tal afirmação? De facto, Sarney tem "história no Brasil". Qual? Pais cuidadosos, tirem as crianças de perto do jornal.

Começando pelo fim: Sarney responsabiliza as anteriores administrações do Senado pelos actos administrativos secretos. Mas foi ele quem presidiu a Casa de 1995 a 1997 e de 2003 a 2005. Façamos uma conta simples. Se os actos secretos começaram há 14 anos, deixe-me ver, 2009 menos 14, sim, sim, 1995. Então quer dizer, ó Garschagen, que a coisa toda começou na primeira presidência de Sarney no Senado? Longe de mim acusar quem quer que seja de qualquer coisa, mas a matemática é uma ciência bastante excêntrica e costuma dar resultados exactos.

Nesses 14 anos Sarney esteve directamente na presidência durante seis anos. Nos outros 12 estava lá indirectamente, exercendo seu mandato (e poder) de senador. Ele foi eleito pela primeira vez em 1990 e reeleito mais duas (1998 e 2006). O mandato de senador no Brasil é de oito anos e o presidente do Senado é o terceiro na linha sucessória para assumir a Presidência da República (primeiro é o vice-presidente, a seguir o presidente da Câmara dos Deputados).

Rebobinemos a história para 1985. Sarney assumiu a presidência da República após a morte, dias antes da posse, de Tancredo Neves, de quem era candidato a vice na eleição indirecta realizada pelo Congresso. A única lembrança positiva de seu mandato (1985-1990) foi ter sido o primeiro governante civil após um governo militar de 20 anos (1964-1984). Durante a sua presidência, o país submergiu economicamente e sofreu com uma hiperinflação histórica (2751% entre Fevereiro de 1989 e Março de 1990), moratória, congelamento geral de preços, crise de abastecimento e denúncias de corrupção em vários sectores do governo e contra ele próprio.

Lula está certo: além de ter história no Brasil para não ser tratado como se fosse uma pessoa comum, sob Sarney pesam denúncias que em nada resultaram. Mas Lula não se refere apenas aos outros. Sua história pessoal e a história do seu governo é a história de quem constrói a história para não ser tratado como uma pessoa comum, esse ente abstracto que garante o voto, legitima o poder e incita doces manifestações de superioridade moral.

Jornalista brasileiro e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica

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