Movimento Revolucionário - 8 de outubro - MR-8 - O MR-8 intensifica as ações armadas
"O Projeto Memórias Reveladas - Centro de Referência das Lutas políticas no Brasil (1964-1985)" foi lançado no Palácio Itamaraty, em Brasília. O projeto tem por objetivo tornar-se um pólo difusor de registros documentais sobre as lutas políticas no Brasil, nas décadas de 1960 a 1980. Nele, fontes primárias e secundárias serão gerenciadas e colocadas à disposição do público, incentivando a realização de estudos, pesquisas e reflexões sobre o período."
 
 
Colaboração do site   www.averdadesufocada.com  - com dados transcritos do Projeto Orvil 

Para complementar os dados do Portal Memórias Reveladas,  apresentamos  informações sobre esse período que, esperamos, sejam usadas em tão importante projeto. Neste capítulo, daremos continuidade  a série sobre a organização ,  Movimento Revolucionário - 8 de Outubro.

Na onda das fugas, em 8 de outubro, data do aniversário da morte de Guevara, aconteceu o primeiro sequestro de avião no Brasil. Quatro militantes do MR-8, Elmar Soares de Oliveira,Cláudio Augusto de Alencar Cunha, Ronaldo Fonseca Rocha e Edgar José Fonseca Fialho, sequestraram o Caravelle PP-PDX, da Cruzeiro do Sul, quando voava de Belém para Manaus, levando-o para Cuba.

A fim de aumentar a sua segurança e dotar seus militantes de documentos falsos, o novo MR-8 assaltou, em 18 de novembro, o posto de identificação do Instituto Félix Pacheco, no bairro de Madureira, levando centenas de  espelhos de carteira de identidade e de formulários de atestado de bons antecedentes.

Em dezembro de 1969, o MR-8  realizou uma miniconferência que aprovou uma "Resolução" dando maior ênfase ao trabalho de massa para arregimentar militantes no meio operário.  Desestruturada com a saída de Franklin de Souza Martins, que fugira para Cuba, a Direção Geral foi completada por Cid de Queiroz Benjamin, que assumiu o Grupo de Fogo (GF), criado no lugar da Força de Trabalho Armado ( FTA). Nessa época, João Lopes Salgado desenvolvia um trabalho de campo no interior da Bahia. O Grupo de Fogo era constituído por Carlos Bernardo Wainer, Cesar de Queiroz Benjamin, Alexandre Lyra de Oliveira, Sérgio Landulfo Furtado, Zaqueu José Bento e Solange Lourenço Gomes.

Preparava-se o novo MR-8 para prosseguir nas ações armadas, sem saber que, a partir de fevereiro do ano seguinte, uma série de prisões desestruturaria a organização e silenciaria, por algum tempo, a sigla que desejava manter.

 Em meados de 1970, Mário de Souza  Prata, sua mulher Marilena Villas-Boas Pinto e José Carlos Avelino da Silva abandonaram a ALN e ingressaram no MR-8. 

 Após a miniconferência de dezembro do ano anterior, o MR-8 entrou em 1970, com uma nova direção geral constituída por Daniel Aarão Reis, José Roberto Spiegner, Cid de Queiroz Benjamin , que comandava o Grupo de Fogo, Stuart Edgar Angel Jones, que dirigia a Frente Operária, e Carlos Alberto Vieira Muniz, que permanecia na direção da Frente de Camadas Médias. 

O MR-8 editava os jornais "Avante" e "Resistência" e estava fortemente organizado na Guanabara e iniciando sua estruturação na Bahia, vista como o trampolim para o Nordeste. Possuía, também, dirigido por João Lopes Salgado, um trabalho de campo na Bahia, na região de Cangula, em Alagoinhas, e uma "área de recuo" no Rio de Janeiro, na região de Cachoeiras de Macacu, para homizio e recebimento de militantes do exterior. Em janeiro e fevereiro, havia adquirido cerca de 50 revólveres Taurus, calibre .38, além de quase cinco mil cartuchos.

Em 31 de janeiro, foi preso, em São Paulo, Fernando Paulo  Nagle Gabeira, que havia participado do sequestro do embaixador americano. Seus depoimentos foram decisivos para a identificação de diversos militantes, e, através deles, iniciaram-se as investigações para suas localizações. Fernando Gabeira, nessa época,estava atuando no subsetor operário da Ação Libertadora Nacional - ALN/SP

 No inicio de fevereiro, houve uma reestruturação do MR-8,com a criação de uma Unidade Externa (UEx), no lugar da Frente Operária.

Para a Bahia, foram deslocados Carlos Alberto Vieira Muniz e Lúcia Maria Murat Vasconcelos, enquanto que o trabalho de campo recebeu o reforço de um grupo de Avelino Bioni Capitani, que se havia incorporado ao MR-8, no Chile.

Na noite de 16 de fevereiro, a polícia encontrou o "aparelho" da Rua Montevidéu, nº 391, na Penha/GB, onde a direção do MR-8 fazia uma reunião. Avisados, os militantes reagiram a tiros, sendo baleado o policial Daniel Balbino de Menezes.

Na ocasião, fugiram Daniel Aarão Reis, José Roberto Spiegner, Cid de Queiroz Benjamin, Vera Silvia Araújo Magalhães, Carlos Augusto da Silva Zilio e mais um militante não identificado.

Após diligências processadas noite a dentro, em busca de um táxi que havia levado um dos terroristas feridos, chegou-se ao apartamento.. da Rua Taylor, onde. foi preso José . Ruivo de Pereira e Souza. Pela janela dos fundos do apartamento, José Roberto Spiegner escapou espetacularmente, sendo encontrado, pouco depois, embaixo da cama, em uma casa da Rua Joaquim Silva. O policial subiu rapidamente na cama.  José Roberto disparou seu revolver,  mas o tiro não conseguiu atravessar o colchão. Após  o tiroteio travado com  outro agente que chegara à porta do quarto, José Róberto Spiegner morreu com um tiro na cabeça.

Não acabaram aí as desventutas do MR-8 nesse início de ano. Em 6 de março, 7 militantes faziam panfletagem na Avenida Suburbana, próximo a Inhaúma. Ao serem abordados por uma rádiopatrulha, abandonaram os dois Volks e refugiaram-se numa pedreira localizada na Estrada Velha da Pavuna. Cercados e após intenso tiroteio, foram presos Daniel Aarão Reis Filho, membro da Direção Geral, Vera Sílvia Araújo Magalhães, ferida de raspão na cabeça, Carlos Augusto da Silva Zílio, ferido no pulmão e no maxilar, Pedro Alves Filho, baleado no braço, e Jorge Alves de Almeida Venâncio, além do casal Paulo César Farah e Regina Maria Toscano Farah.

As declarações  dos militantes presos, particularmente as de José Ruivo, Daniel, Vera Sílvia e Jorge Alves,  proporcionaram as "quedas" de diversos "aparelhos" e militantes. Em 24 de março, o Grupo de Fogo (GF) assaltou a Kombi do Banco Irmãos Guimarães, na Rua Almirante Gavião, roubando um revólver e o próprio veículo, onde foram encontrados, apenas, malotes com cheques e papéis contábeis.

Na tarde de 15 de abril, parte do Grupo Fogo  assaltou a agência Ramos do União de Bancos Brasileiros, na Rua Cardoso de Moraes, 542, de onde foram levados cerca de 15 mil cruzeiros novos. Com a prisão, alguns dias depois, de Sonia Regina Yessin Ramos, que havia participado desse assalto, pôde-se levantar dados que levaram à prisão, entre 22 e 26 de abril, dos três membros da Direção Geral, Cid de Queiroz Benjamin, Samuel Aarão Reis e Carlos Bernardo Wainer, além de diversos outros militantes de menor expressão, entre eles Cláudio Cardoso Campos.

 Nesses quatro primeiros meses de 1970, o MR-8 perdia cinco membros da Direção Geral, além de quadros do Grupo de Fogo e de outras frentes· Nessa época foi constituída nova Direção Geral, com  Carlos Alberto Vieira Muniz, designado comandadnte-em-chefe, Stuart Edgard Angel Jones, João Lopes Salgado e Sérgio Rubens de Araújo Torres , que havia participado do sequestro do embaixador americano.

 Em junho, João Lopes Salgado e Alexandre Lyra de Oliveira, disfarçados de funcionários da Light, entraram na residência do industrial José Carlos Leal, no Leblon, acobertados por outros militantes do Grupo de Fogo. Em face da reação da vítima, fugiram, depois de Salgado ter baleado o industrial.

Em julho, descontentes com os procedimentos adotados no sequestro do embaixador alemão cinco militantes que haviam participado dessa ação deixaram a Vanguarda Popular Revolucionária - VPR-  e integraram-se ao MR-8. Ao mesmo tempo, por outras razões, mais três militantes da VPR  também entraram no MR-8. Com o reforço desses oito militantes, o Grupo de Fogo do MR-8 realizou, nesse mês, quatro assaltos:

- à uma garagem na   Rua Cirne Lima, de onde, levaram três Volks e algumas placas;

- à Casa da Banha, na Tijuca;

- à residência do Sr Adam Valock, em Copacabana, de onde roubaram o cofre com 5 mil cruzeiros novos , 3.500 dólares e uma coleção de moedas estrangeiras

                 .( participaram destas  três  ações : José Carlos Avelino da Silva, Mario de Souza Prata e sua companheira Marilena Villas-Boas Pinto.

- à distribuidora da Kibon, em Copacabana, quando foram roubados quase 15 mil cruzeiros novos e Sérgio Landulfo Furtado baleou um guarda.

Continuando seus crimes, o MR-8 , na tarde de 13 de setembro, sob o comando de João Lopes Salgado, onze militantes do MR-8 assaltaram a churrascaria Rincão Gaúcho, na Tijuca, em "frente" com a Comando Regional/ GB da ALN, de onde roubaram cerca de 30 mil cruzeiros novos. Irritados com os dizeres "Ninguém segura o Brasil", colado num painel de vidro, explodiram-no com uma bomba, e deixaram outra no local, posteriormente desativada pela polícia.

Nesse mês o MR-8 transformou o Grupo de Fogo em Grupo Político-Militar (GPM), criando dois grupos, sob os comandos de João Lopes Salgado e Sérgio Landulfo Furtado. Os GPM, além de realizar os assaltos e "justiçamentos", tinham a missão de fazer a propaganda armada, através da distribuição de gêneros alimentícios nas favelas e do sequestro de gerentes de supermercados.

Em:outubro, os militantes do GPM realizaram dois assaI tos:

- no dia 4, ao posto de gasolina Shell, no Flamengo, roubando  cerca de  de 8.500 cruzeiros novos;

- no dia 30, ao depósito da Coca-Cola, na Gávea, de onde roubaram cerca de 13 mil cruzeiros novos.

 Em novembro, após o assalto a uma loja de loteria esportiva, no Flamengo, de ·onde foram roubados 3 mil cruzeiros novos,  os dois GPM foram unificados, sob o comando de Roberto Chagas da Silva.

No dia 13, César de Queiroz Benjamin, o "Menininho", quando "cobria um ponto"  com Sônia Eliana Lafoz e Caio Salomé Souza de Oliveira, na Rua Visconde de Itamarati, junto à Igreja Divino Salvador, no Encantado, trocou tiros com os componentes de uma rádiopatrulha. Ferindo dois policiais, os três militantes conseguiram fugir, com Caio baleado na mão e Sônia ferida de raspão na cabeça e na perna. 

 Às 11.30 horas de 20 de novembro de 1970, sob o comando de Mário Prata, o MR-8 assaltou o Banco Nacional de Minas Gerais, agência Ramos. No banco entraram Mario Prata , Sérgio Landulfo Furtado, Alexandre Lyra de Oliveira, José Carlos Avelino da Silva e Dirceu Grecco Monteiro. Na cobertura, junto à porta, ficaram Zaqueu José Bento e Manoel Henrique Ferreira. Na Rua, como cobertura exrterna, estavam Stuart Edgard Angel Junes, Cesar de Queiróz Benfjamin, Nelson Rodrigues Filho, Marilena Villas-Boas Pinto e José Mauríci Gradel.

 Enquanto se processava o assalto, chegou um  carro-forte do banco e seus integrantes, imediatamente, entraram em.intenso tiroteio com os  terroristas, saindo feridos dois guardas e um transeunte, além de Stuart Edgard Angel Jones, baleado no joelho. Os militantes, levando mais de 55 mil cruzeiros novos e um  revólver Taurus calibre .38, fugiram em três carros, depois de picharem o muro em frente ao banco, com a frase "Comando Joaquim Câmara Ferreira - homenagem do MR-8 a "Toledo", da ALN, falecido em 23/10/1970.

 Na Avenida Brasil, na aItura de Bonsucesso, quando faziam o transbordo de Stuart, os militantes foram atacados por um guarda que os havia seguido. Alexandre Lyra de Oliveira foi baleado no ombro e nas costas, enquanto que o guarda caía, atingido por um tiro de espingarda desfechado por Cid Benjamin Queiróz, "Menininho".

Em 27 de novembro, Marto Prata, "Menininho", Marilena, Roberto das Chagas, Manoel Henrique Gradel e José Carlos Avelino assaltaram os dois policiais militares que davam guarda no Mirante Dona Marta, ponto turístico em Botafogo, levando-lhes dois revólveres e suas fardas. Na ocasião, feriram a coronhadas o tenente do Exército, Flávio Amarante Ribeiro, que passeava no local com a família.

Para encerrar o ano de 1970, em 29 de dezembro, o MR-8 assaltou a Kornbi de transporte de valores do Moinho Inglês, em são Cristóvão, o que lhe proporcionou cerca de 33 mil cruzeiros novos.

Quase  duas dezenas de carros roubados e 14 assaltos foi o saldo da organização nesse ano. Em compensação, teve dezenas de quadros presos e um deles morto, membro da Direção Geral. No ano seguinte, a linha militarista do MR-8 continuaria a prevalecer, com a realização de dezenas de ações armadas.

Daniel Aarão Reis, Cid Benjamin Queiroz  e Vera Silvia, juntamente com Gabeira, seriam banidos em 15 de junho  de 1970  para a Argélia, em troca da vida do embaixador alemão, enquanto  Pedro Alves Filho o seria , em 13 de janeiro de 1971,  para o Chile, em troca do embaixador suíço.

Comentários  
#1 George 29-09-2014 15:11
Pergunto: Onde foi parar todo esse dinheiro roubado????
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