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Categoria: Memórias reveladas
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 Fidel recebe um grupo de funcionários vindos do Brasil, também conhecidos como exilados...

O sequestro do Embaixador Charles Burke Elbrick - 04/09/1969 - (2ª parte)
As 1300 horas Virgílio Gomes da Silva determinou que o dispositivo fosse retomado. Apenas o volks vermelho nâo foi utilizado. Havia vários carros estacionados estreitando a rua. O volks foi abandonado na Rua Capistrano de Abreu.

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Pronto o dispositivo, surgiu na Rua Marques um carro semelhante ao do embaixador americano. Os olhares convergiram para "Baixinho", que se encontrava na esquina. O sinal convencionado não foi dado; era o carro do embaixador português.

Finalmente, às 1445 horas, "Baixinho" fez o sinal combinado. Surgiu na esquina da Rua Marques o imponente Cadi11ac negro, chapa CD-3, dirigido por Custódio Abel da Silva. Em marcha moderada, deslocava-se pela rua aproximando-se do local da ação.

No banco traseiro, Charles Burk Elbrick. Cerca de vinte metros à frente, um volks azul deixava o acostamento lentamente e fazia uma manobra em U. Custódio freiou para aguardar que a rua ficasse desimpedida.

Repentinamente, a calma da tarde foi interrompida. Quase que simultaneamente, as quatro portas do Cadillac foram abertas e quatro elementos armados lançaram-se para o interior do carro. Virgílio e Manoel Cyrilo encarregaram-se do embaixador. Elbrick, aturdido e sem entender o que estava ocorrendo, foi forçado a abaixar-se no assoalho do carro com as mãos na nuca, enquanto Virgílio anunciava: "Somos revolucionários brasileiros". Pela porta do motorista, entrou Cláudio Torres, que, empurrando Custódio e tomando-lhe o boné, colocou-se ao volante. Pela porta dianteira direita, entrou Paulo de Tarso, ameaçando Custódio com sua arma.

O Cadillac ao arrancar foi seguido pelo Volks azul que fazia a cobertura na retaguarda. Ao retornar à Rua São Clemente, seguindo para a região de transbordo, o carro diplomático passou a contar com uma cobertura à frente proporcionada pelo volks bege dirigido por Sebastião Rios.

Após rodar alguns minutos, o Cadillac atingiu a região de transbordo. Elbrick recebeu a ordem para fechar os olhos e sair do carro. Imaginando que seria morto, tentou segurar a mão de Virgílio que empunhava um revólver. Recebeu violenta coronhada na cabeça desferida por Manoel Cyrilo. Sangrando abundantemente e atordoado pela pancada, foi colocado no chão da Kombi e coberto com uma manta.

Os terroristas tinham, entretanto, cometido um erro grosseiro. O motorista Custódio, previsto para dar o alarme à  polícia e divulgar o ocorrido, tinha sido levado ao local de  transbordo e visto a kombi verde que levaria o embaixador. Esta foi uma das valiosas pistas que levaram os órgãos de segurança a descobrir o "aparelho" da Barão de Petrópolis, já no dia seguinte, 5 de setembro.

Conduzido ao "aparelho ", Elbrick, ensanguentado e ferido, permaneceu ainda cerca de quatro horas no interior da Kombi, dentro da garagem do "aparelho", aguardando  o escurecer para ser levado para o interior da casa. 

No local, já se encontravam "Toledo", Gabeira e Antonio de Freitas Silva ("Baiano"). "Baiano" havia sido contratado por elementos da DI/GB,como serviçal para, futuramente, prestar serviço como mimeografista na preparação de documentação subversiva.

Após o seqüestro, o efetivo do "aparelho" foi engrossado pelas presenças de Virgilio, Manoel Cyrilo, João Lopes e Franklin.

No interior da casa foi montado um esquema de segurança. Os terroristas que tinham contato com o embaixador o faziam encapuçados para nao serem reconhecidos.

A equipe de sete terroristas mantinha-se tensa, aguardando o desdobramento da ação. Os panfletos deixados no interior do carro diplomático exigiam a sua divulgação através dos meios de comunicação, como uma das condições para a salvaguarda de Elbrick .

Finalmente, durante a noite, os terroristas captaram a transmissão de rádio que divulgava o manifesto. Era o sinal de que o Governo resolvera negociar, preservando a vida do diplomata americano. Naquela mesma noite foi iniciada a seleção de nomes para a lista dos quinze criminosos a serem libertados.  

A idéia inicial do MR-8 de libertar 3 (três) lideres estudantis, ampliada posteriormente por "Toledo" para quinze, exigia uma pesquisa para a qual o bando seqüestrador não estava preparado. Tiveram dificuldades em selecionar nomes de outras organizações, pois desconheciam a importãncia dos diversos presos no contexto da subversão. Ignoravam, inclusive, o nome de Mário Roberto Galhardo Zanconato, da Corrente/MG, colocado na relação com o apelido de "Xuxu" (sic).

Finalmente, completaram a lista. Dela faziam parte: Argonauta Pacheco da Silva, Flávio Aristides de Freitas Tavares, Gregório Bezerra, Ivens Marchetti de Monte Lima, João Leonardo da Silva Rocha, José Dirceu de Oliveira e Silva, José Ibraim, Luis Gonzaga Travassos da Rosa, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Mário Roberto Galhardo Zanconato, Onofre Pinto, Ricardo Vilas Boas sá Rego, Ricardo Zarattini, Rolando Fratti e Wladimir Gracindo Soares Palmeira.

Na manhã do dia 5, sexta-feira, Fernando Gabeira e Cláudio Torres colocaram na urna de donativos da igreja do Largo do Machado uma mensagem, informando que divulgariam a lista de 15 nomes e um bilhete manuscrito de Elbrick para a esposa. Uma cópia da mensàgem foi deixada, como alternativa, na urna de donativos da Igreja N.Senhora de Copacabana, na Praça Serzedelo Correia.

Elbrick, acovardado e orientado por seus sequestradores, suplicava em seu bilhete que as autoridades não tentassem localizá-lo, informando que "a gente que me prendeu está determinada". Cláudio Torres, orientado por Gabeira, ligou para o Jornal do Brasil e para a Última Hora comunicando onde se encontravan as duas cópias da mensagem e solicitou a sua publicação.

No inicio da tarde do dia 5 de setembro, a relação com os quinze nomes foi colocada pela dupla Gabeira-Cláudio Torres na caixa de sugestões do mercado "Disco", do Leblon. Foi utilizado o expediente de ligar para a Rádio Jornal do Brasil, informando o local onde se encontrava a mensagem e pedindo a sua divulgaçao.

Naquela altura, os órgãos de segurança, graças ao amadorismo dos seqüestradores, já tinham localizado o "aparelho" e o mantinham sob vigilância. Após seguirem Gabeira e Cláudio Torres nas andanças para a colocação das mensagens, os órgãos de segurança resolveram demonstrar aos sequestradores que já os tinham sob vigilância e que qualquer dano causado ao embaixador seria imediatamente reprimido. Dois agentes bateram à porta do "aparelho" e, sem se preocuparem em disfarçar suas intenções, fizeram perguntas sobre os moradores da casa e outros detalhes típicos de uma investigação. Gabeira, esforçando-se em aparentar naturalidade, respondeu, de forma pouco convincente, as perguntas dos policiais. Enquanto isso, dentro do "aparelho", os sequestradores, assustados, preparavam-se para fazer frente a uma ação que não haviam previsto. Virgílio correu para o quarto de Elbrick e, colocando-o sentado no chão, permaneceu com o revólver apontado para a cabeça do apavorado embaixador.

Para alívio dos "revolucionários" os policiais retiraram- se. A vigilância foi intensificada e, a partir daquele momento até altas horas da madrugada, o tempo foi consumido em discussões para decidir qual a atitude a tomar. Chegaram à conclusão que deveriam permanecer no "aparelho" e prosseguir com o planejamento inicial. Enquanto mantivessem Elbrick vivo teriam chance de escapar.

O dia  de sábado foi de expectativa. O Governo brasileiro, em respeito à vida humana de um representante estrangeiro, já havia aceitado as condições dos térroristas. O México, um dos países propostos, tinha concordado em receber os "presos políticos".

Quatorze "presos políticos" foram reunidos no Rio de Janeiro. Gregório Bezerra seria recolhido em Recife, quando da passagem do avião. As 17.30 horas, um avião Hércules da FAB decolou da Base Aérea do Galeão levando rumo ao México os primeiros terroristas banidos do território nacional.

 Na manhã do dia 7 de setembro, domingo, foi colocada por Cláudio Torres, no monumento em frente à empresa Manchete, na  " Praia do Russel", a terceira e, ultima mensagem. Os sequestradores anunciavam o conhecimento da chegada dos 15 subversivos no México e aguardavam apenas uma autenticação, previamente combinada, para libertar o embaixador.

Com o "aparelho" cercado, a vida do sequestrado valia, então, a vida dos sequestradores. Os terroristas resolveram escolher o momento da saída do jogo Fluminense x Bangu, no Maracanã, para libertar o embaixador. Tirariam proveito do início da noite e da confusão do trãnsito, no final do jogo, para escapar do cerco policial. Elbrick foi colocado vendado num volks dirigido por Cláudio Torres, tendo Virgílio Gomes a guardá-lo. Em  outro volks, fazendo a cobertura, deslocaram-se Cid Benjamin e Manoel Cyrilo.

Helena Bocayuva Khair já tinha auxiliado Gabeira a retirar do "aparelho" os dirigentes Franklin, Lopes Salgado e Câmara Ferreira. Antonio de Freitas Silva também já tinha abandonado o local, auxiliado por Helena, tendo sido guardado num "aparelho" no bairro de São Cristóvão.

Por volta das 18.30 hs, os terroristas trancaram o "aparelho" e iniciaram o deslocamento, acompanhados por uma viatura policial. Os órgãos de segurança tinham ordem de não intervir, para não colocar em risco a vida de Elbrick. No congestionado trânsito do jogo do Maracanã, os terroristas conseguiram distanciar-se e foram perdidos pela viatura policial.

Elbrick foi abandonado numa rua próxima do Largo da Segunda-feira, na Tijuca, com ordens de permanecer quinze minutos no local, antes de procurar auxílio. O intimidado embaixador cumpriu à risca as ordens dos terroristas. Tendo transcorrido o prazo, tomou um táxi e retornou à sua residência.

Terminava assim, resguardada a  integridade do embaixador, o episódio que serviria de modelo para o sequestro de mais três diplomatas.

O sequestro do embaixador americano,  "em frente" com a ALN, foi um marco na história da DI/GB , que assumiu neste episódio a sigla do MR-8. Nascia , assim o segundo Movimento Revolucionário - 8 de Outubro.

À satisfação pelo sucesso do sequestro e pela libertação de 15 presos, sucedeu-se  o pânico pela prisão, logo em seguida -  9 de setembro - , de dois de seus militantes, que haviam participado do sequestro: Antonio de Freitas Silva - o caseiro -  e Cláudio Torres da Silva, da FTA, que durante a prisão baleou o sargento da Marinha Jorimar José Igrejas.

 Helena Bocayuva Khair, que havia alugado o aparelho para essa ação, fugiu para França, sendo acompanhada , no final do ano por  Luiz Eduardo Prado de Oliveira.

Franklin de Souza Martins,  lider da Frente de Trabalho Armado - FTA -, fugiu do Brasil, indo fazer curso de guerrilha em Cuba, mas  continuaria a participar da luta armada , como veremos nos futuros capítulos sobre o MR-8, mesmo estando no exterior e depois, ao voltar clandestinamente ao Brasil.

 

Projeto Orvil