O sequestro do Embaixador Charles Burke Elbrick - 04/09/1969 - (1ª parte)
Assaltos a bancos, ataques a sentinelas, roubos de armas e explosivos, assassinatos apresentados sob o eufemismo de "justiçamentos" - a violência estarrecia, porém perdera o ineditismo. A repetição sistemática das ações tirava-lhes o impacto do fato novo gerador de curiosidade. Era necessário imaginar algo que mexesse com a opinião pública.
 
 
 
 
Com esse pensamento, a direção da DI/GB (Dissidência da Guanabara) imaginou, em meados de 1969, o sequestro de um representante diplomático.A ação  teria a finalidade de libertar  terroristas presos e de chamar a atençâo da opinião pública nacional e internacional para a audácia e a determinação do movimento revolucionário no Brasil.

 O alvo mais significativo seria o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick ,  o representante e defensor dos "interesses imperialistas norte-americanos em nosso País".

 O pensamento inicial da DI/GB era libertar o seu militante e líder estudantil , Wladimir Palmeira, além dos dirigentes do movimento José Dirceu de Oliveira e Silva e Luís Gonzaga Travassos da Rosa. A idéia partiu de  Franklin de Souza Martins, que havia estado preso junto com os demais  líderes até o final de 1968.

A direção da DI/GB, liderada por Franklin de Souza Martins, após os planejamentos preliminares, concluiu que a falta de experiência de seus quadros seria um impedimento a consecução de suas intenções. Seria necessário o apoio de uma equipe mais experiente. A Ação Libertadora Nacional - ALN-  já havia conseguido notoriedade por meio da intensificação de suas atividades, principalmente em São Paulo, e pela constante divulgaçâo de textos de Marighela, incentivando qualquer tipo de "violência revolucionária". Marighela afigurava-se como o apoio mais competente a ser tentado.

Em julho de 1969, Cláudio Torres da Silva, membro da Frente de Trabalho Armado (FTA), foi fazer contato com Joaquim Câmara Ferreira - " Toledo". Este, dentro da autonomia revolucionária permitida pelos princípios da ALN, tomou conhecimento e aprovou o planejamento da DI/GB.  Sem o conhecimento de Marighela, foi prometido o apoio da· ALN  à empreitada da DI/GB.

Durante os preparativos, foi alvo de  de especial atenção a escolha da data da ação .Havia duas opções : a semana de 7 de setembro ou 8 de outubro. O 8 de outubro,  dia significativo da  "queda" de Guevara na Bolívia, foi preterido pela Semana de  7 de Setembro, em função da urgência em libertar os presos polí ticos e da intenção de desmoralizar as autoridades e esvaziar as comemorações da Semana da  Pátria.

No final de agosto Cid de Queiróz Benjamin, membro da FTA tornou a fazer contato com "Toledo", em São Paulo, pormenorizando detalhes da operação. Da reunião participou Virgilio Gomes da Silva, coordenador do Grupo Tático Armado -GTA da ALN, que seria o comandante da operaçao. Virgilio selecionou os militantes Manoel Cyrilo de Oliveira Neto e Paulo de Tarso Venceslau para participarem diretamente da ação. "Toledo", representando a direção da ALN deslocar-se-ia para o Rio de Janeiro para coordenar ,as ações e orientar a ligação com as autoridades.

Os levantamentos, reconhecimentos e providências logisticas da operação, todas sob a responsabilidade da DI/GB, já haviam sido tomadas.

Fernando Paulo Nagle Gabeira, jornalista do Jornal do Brasil e responsável pelo setor de imprensa da DI/GB, por meio  de  Helena Bocayuva Khair, havia alugado, em 5 de agosto, a casa nº 1026 da Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido.

O "aparelho", além de servir ao setor de imprensa, seria utilizado para esconder o embaixador após o sequestro.

Cláudio Torres, Cid Benjamin e Franklin levantaram o itinerário do carro do embaixador, que, invariavelmente e sem qualquer segurança, transitava de sua residência oficial - na

rua são Clemente, em Botafogo - para a embaixada, na Av. Presidente Wilson. O itinerário, sempre o mesmo, iniciava-se na Rua São Clemente, passando pela   descongestionada e tranqüila Rua Marques para atingir a Rua Voluntários da Pátria. A Rua Marques, pelas suas caracteristicas, foi escolhida como o local para a abordagem do carro do embaixador.

Vera Silvia Araújo Magalhães ,"Marta", militante da FTA da DI/GB, foi a encarregada de levantar a personalidade e os horário de saída do embaixador. Aproveitando-se de sua aparência fisica atraente, e a semelhança de ações anteriores, apresentou-se na casa do embaixador à procura de  emprego  como doméstica.

Atendida pelo encarregado da segurança, Antônio Jamir, "Marta" envolveu-o emocionalmente, conseguindo os dados necessários à complementação do planejamento.

Acertados os detalhes, foi marcada a data de 4 de setembro para a acão. Paulo de Tarso Venceslau, no dia 2 de setembro, conduziu para o Rio de Janeiro os terroristas Virgílio Gomes da Silva e Manoel Cyrilo. Ao chegarem, foram recebidos, por Cid e Cláudio que os conduziram,  vendados, para um "aparelho" no bairro do Flamengo, próximo ao Hotel dos Ingleses.

Virgilio, cioso de suas prerrogativas de comandante, iniciou junto com os outros militantes da ALN os reconhecimentos dos locais e itinerários, ainda no dia 2 de setembro, complemetando-os no dia seguinte.

 No dia 3 de  setembro, complementado o planejamento,   Paulo de Tarso, por telefone, comunicou-se com "Toledo", em São Paulo, informando: "Negócio fechado. Mande a mercadoria."A senha, enviada para a  residência do industrial Jacques Breyton - da rede de apoio da ALN -, significava que a ação estava preparada e seria desencadeada e que "Toledo"  poderia deslocar-se para o Rio de Janeiro. No mesmo dia, "ToIedo" viajou de avião para o Rio de Janeiro e alojou-se no "aparelho" da Rua Barão de Petrópolis.

Em 3 de setembro, já estava pronto o documento, redigido por Fernando Gabeira, que seria deixado  no carro do embaixador após o sequestro. O manifesto inseria o seqüestro dentro do contexto das demais ações terroristas que ocorriam na ocasião, classificando-o como um "ato revolucionário". Fazia propaganda  "antiimperialista" (...).  Fazia a exigência da libertação de 15   presos politicos - a serem anunciados oportunamen.te - , que seriam conduzidos para a Argélia, Chile ou México, onde lhes pudesse ser concedido asilo politico. A outra exigência era "a publicação e leitura desta mensagem completa nos principais jornais e estações de rádio e televisão de todo o país". Finalizando o manifesto, era feito o ultimato, concedendo quarenta e oito horas para o Governo aceitar as condições impostas e mais vinte e quatro horas para que os presos fossem transportados para o exterior, em segurança. O não atendimento das exigências representaria o assassinato ou, mais apropriadamente, o "justiçamento" do embaixador. Assinavam o manifesto a Ação Libertadora Nacional e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro -MR-8- ,nome  adotado pela DI/GB a partir de então. Renascia o MR-8.

A manhã do dia 4 de setembro foi tensa para os executores diretos do sequestro. Com antecedência necessária, foi tomado o dispositivo para a ação.

Na esquina das ruas São Clemente e Marques, ficou estacionado o Volkswagen beje com João Lopes Salgado e Vera Sílvia , " Marta". O motorista era José Sebastião Rio de Moura, " Baixinho", que se postou a pé na esquina, para anunciar a aproximação do carro do embaixador.

 Num Volkswagen azul, com chapa de São Paulo, foram transportados Franklin, Cid e Virgílio. Virgílio saltou na Rua Marques que, de acordo com o planejamento, seria um dos elementos a entrar no carro do embaixador após a abordagem. O Volks azul, estacionado na rua Marques, deveria realizar uma manobra - aparentando movimento normal de trânsito - que obrigasse o carro diplomático a parar.

Cláudio Torres, Paulo de Tarso e Manoel Cyrilo chegaram ao local num volks vermelho com chapa do Espírito Santo. Os três abordariam a pé, junto com Virgílio, o carro do embaixador. O volks vermelho estacionou na Rua Marques, no lado oposto ao volks azul, para estreitar a rua e impedir a manobra do veículo diplomático

Na Rua Caio de Melo Franco, no Jardim Botânico, já  havia sido estacionada por Sérgio Rubens de Araújo Torres, membro da FTA da DI/GB, a Kornbi Volkswagen verde que serviria para o transbordo do embaixador.

Tudo pronto. O tempo passava, a tensão aumentava. O Cadilac do embaixador não aparecia.

Cerca das 1100 horas o esquema foi desfeito. Apurara-se que o embaixador, contrariando a rotina, havia saído de casa bem mais cedo. Restava a alternativa do retorno do mesmo para a embaixada, após o almoço em sua residência.

 Continua no próximo capítulo

 Fonte :Orvil

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