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Categoria: Política interna
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Por Sérgio Pinto Monteiro*

O sacrifício do Alferes Tiradentes hoje completa 230 anos, A Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965, proclamou Joaquim José da Silva Xavier Patrono Cívico da Nação Brasileira. A data deveria ser comemorada com o merecido destaque. Entretanto, desde o encerramento do ciclo do chamado período militar, a grande mídia, em geral patrocinada por sucessivos governos de inspiração marxista-gramscista, vem relegando ao esquecimento as mais expressivas datas cívicas nacionais. Tradicionais heróis nacionais estão sendo “substituídos” por personagens de nenhuma ou duvidosa relevância em nossa história, inclusive estrangeiros. Especialmente a partir dos últimos 30 anos, está em curso uma sinistra campanha de desconstrução de grandes vultos da história brasileira, muitas vezes substituídos por figuras execráveis, como “che” Guevara, assassino sanguinário, cuja imagem campeia livremente em nossos muros e ambientes escolares. Parcela expressiva da mídia e setores culturais da nação, dominados por elementos a serviço de partidos da esquerda radical e jurássica brasileira, criam narrativas descompromissadas com as verdades históricas visando, principalmente, cooptar a juventude, mais vulnerável às suas pretensões impatrióticas. Sobre a data de hoje, chegam ao absurdo de proclamar que Tiradentes não foi enforcado e teria morrido, anos depois, na Inglaterra. Seria apenas ridículo, se não fosse um verdadeiro crime de lesa-pátria.

Joaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746 na Fazenda do Pombal, localizada entre a Vila de São José, hoje a cidade de Tiradentes, e São João Del Rei. Era filho do português Domingos da Silva Santos e da brasileira Maria Antonia da Encarnação Xavier. Quarto filho entre sete irmãos perdeu a mãe aos nove anos e o pai aos onze. Sua família, com muitas dívidas, ficou sem a pequena propriedade onde vivia. Joaquim, menor de idade, acabou sob a tutela de um padrinho, cirurgião, residente na cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto. Trabalhou como mascate e minerador. Foi sócio de uma botica de assistência à pobreza na Ponte do Rosário, em Vila Rica, se dedicou também às atividades farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido de Tiradentes. Na carreira militar tinha o posto de Alferes, correspondente hoje ao de segundo tenente e serviu no Regimento de Cavalaria Paga (os Dragões) da Capitania das Minas Gerais. Solteiro, teve uma filha com uma viúva de nome Joaquina. Considerado líder da Inconfidência Mineira, Tiradentes foi preso na Rua dos Latoeiros, hoje Gonçalves Dias, no Rio de Janeiro, quando divulgava os ideais revolucionários de tornar o Brasil uma nação independente.

Manhã de sábado, 21 de abril de 1792. Às onze horas e vinte minutos, depois de penosa caminhada, sob um sol rigoroso, pelas principais ruas do centro do Rio de Janeiro, o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, subiu, sem medo, o patíbulo erguido no Campo da Lampadosa, atual Praça Tiradentes, onde bradou: “Cumpri a minha palavra, morro pela liberdade!” Como demorasse a morrer, o carrasco, um criminoso comum, montou-lhe nos ombros para abreviar o seu fim. Segundo a sentença, Tiradentes, único executado entre os Inconfidentes, seria enforcado, decapitado e esquartejado. Com o seu sangue, lavrou-se uma certidão de que fora cumprida a pena. Sua cabeça apodreceu dentro de uma gaiola em Vila Rica. Os quatro quartos, conservados em salmoura, foram colocados em postes, ao longo do Caminho Novo, na Capitania de Minas Gerais, onde o Alferes fazia as “infames prédicas” pela liberdade de nossa pátria. Seus bens foram confiscados, as casas em que morara, arrasadas e salgadas, para que nunca mais, naquele chão, algo germinasse.

A Marinha do Brasil tem sob a sua guarda um dos mais importantes sítios históricos brasileiros. Visitamos a cela onde Tiradentes ficou confinado, situada nas instalações do atual Hospital Central da Marinha, na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, até ser transferido para a Cadeia Pública da cidade, conhecida como Cadeia Velha, demolida em 1922 (próximo do atual prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), de onde partiu para ser executado, por enforcamento, na praça que hoje leva o seu nome. Foi emocionante adentrar aquela masmorra, escura, fria e úmida, sabendo que há mais de dois séculos o nosso herói maior ali padeceu pela liberdade do Brasil.
Nesta data, recordamos e reverenciamos o sacrifício do Alferes Tiradentes, que, em última análise, retrata os ideais de liberdade e soberania de nosso povo, gente simples, humilde e trabalhadora, que repudia qualquer tentativa de condução do país por caminhos que não se coadunem com os princípios democráticos e cristãos que forjaram a nação brasileira.

“Libertas quae sera tamen”
(Liberdade ainda que tardia)

Imagens da cela de Tiradentes podem ser vistas em https://www.youtube.com/watch?v=QZYyQ5Yc0e8

* o autor, 82 anos, é professor, historiador e oficial da reserva do Exército. É Patrono, fundador e ex-presidente do Conselho Nacional dos Oficiais da Reserva (CNOR). É membro da Academia Brasileira de Defesa, da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto Histórico de Petrópolis. É presidente do Conselho Deliberativo da ANVFEB e vice-presidente da Liga da Defesa Nacional - RJ.