Por Paulo Carvalho Espíndola, Cel Reformado - TERNUMA Regional Brasília
Em 1978, no posto de capitão, fui presidente de uma Comissão de Seleção em São Roque/SP, que visava a recrutar soldados para o Serviço Militar em minha Unidade em Itu/SP.
Entrevistando os convocados, deparei-me com um jovem que se diferenciava em muito dos demais. Inteligente, ele alcançou índices que eu nunca tinha observado em outros, com toda a minha experiência em seleção. Confesso que forcei a sua incorporação ao meu quartel, pois que via nesse moço um excelente futuro soldado da minha bateria. Ele o foi realmente. Bom atleta, disciplinado, bom companheiro e estimado por seus pares.

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Lá pelo fim do ano de instrução, começaram a ocorrer furtos nos armários dos vestiários de oficiais e sargentos da subunidade.

Após algumas diligências, descobri que o melhor soldado da minha bateria, o mais inteligente e destacado aluno do curso para promoção a cabo, era o autor dos delitos. Ele foi expulso do Exército com toda a pompa e circunstância prevista naquela época. Tropa em forma, uma viatura da polícia na saída do pátio de formatura, um Certificado de Isenção do Serviço Militar por incapacidade moral. Esse foi o fecho de uma triste história, muito decepcionante para mim.

Trinta anos decorridos, vejo a cena de soldados saqueando donativos para as vítimas da tragédia de Santa Catarina. Triste momento visto pela televisão.

O comandante desses homens, como eu numa trintena de anos atrás, imediatamente tomou as medidas disciplinares que o caso exige. Assim é no Exército Brasileiro.

A repercussão do caso, entretanto, extrapola o fato de seres humanos manchados por erros e respinga na Instituição mais honrada e mais aclamada pela opinião pública brasileira.

Os mais apressados logo se atreveram a estampar manchetes envolvendo a farda nessa ignomínia. Outros, mais interessados em denegrir a Instituição, pretenderam generalizar, associando o fato à rapina existente no Brasil.

A impressão que fica é que neste país não há regras e, muito menos, respeito.

Disso, não posso negar. O poder público e os políticos estão muito longe dos mínimos padrões de moralidade e honestidade.

É muita hipocrisia. Roubam mais e muito mais os que estão no poder e a sociedade só se indigna, induzida, com o malfeito de uns soldados bandidos?

E a abnegação de voluntários, bombeiros, soldados verdadeiros do Exército, policiais, pilotos militares, gente de toda ordem e de toda vestimenta? Todos são heróis, sem dúvida, mas o que interessa para a mídia são quatro ou cinco traidores da farda honrada.

Os chefes militares, eles devem ser responsabilizados por isso? Se forem, eu, como capitão, deveria ser fuzilado por ter, quando jovem oficial, trazido para o Exército um ladrão muito inteligente.

A diferença é que no Exército Brasileiro o crime não compensa, malgrado essas bobagens de que os chefes de agora não são mais chefes e de que os de ontem eram melhores de os de hoje.

Cadeia para esses ladrões! Sem dúvida eles terão.

E a restolhada que rouba o Brasil?

Ah! Isso é coisa de Estado.

Estará presente no Legislativo, Executivo e Judiciário, até que tenhamos vergonha.

Quando será? Talvez no dia de São Nunca.

Talvez, se criarmos vergonha até lá...

 

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