Médici, um dos melhores presidentes que o mundo já viu. Basta ler os números.

O Globo - Em meio à celebração do Sesquicentenário e do crescimento econômico, governo Médici experimentou apoio popular - Por Chico Otavio
O escoteiro amapaense José Alves Pessoa tinha 69 anos, em 1972, quando atravessou o Brasil a pé, do Oiapoque ao Chuí, repetindo o que seu grupo fizera 50 anos antes. O gesto, pela demonstração de fervor, entraria para a história como um dos eventos marcantes das comemorações do Sesquicentenário da Independência. Como milhares de brasileiros naqueles tempos, Pessoa tinha fé na pátria e nos seus governantes. Depois de caminhar mais de seis mil quilômetros, cumprimentando no trajeto o presidente Médici em Brasília, ele viraria nome de rua em seu estado natal.

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A epopéia do escoteiro e os eventos que mobilizaram a sociedade brasileira, em 1972, são alvos da pesquisa de doutorado de Janaína Cordeiro, historiadora da UFF. Em "Lembrar o passado, festejar o presente: as comemorações do Sesquicentenário da Independência entre consenso e consentimento", ela contesta a idéia de que, nos anos mais terríveis da ditadura, sob a égide do AI-5, os militares teriam se isolado no poder, cercados por uma população ávida pelo fim do regime e pelo retorno à democracia.


Ao examinar o maior evento popular na Era Médici, Janaína procura entender com dados históricos como, ao contrário da aludida resistência geral, foi formado um consenso em torno da ditadura, que acabou contribuindo para a permanência do regime.


- A ditadura não saiu do nada. É uma construção social e foi capaz de estabelecer um diálogo com a sociedade. Construiu-se uma memória de que todos foram contra, mas não foi o que ocorreu. Governo e sociedade não são coisas deslocadas - sustenta a pesquisadora.



Sociedade e regime em festa

Para vencer o que ela chama de lógica simplificadora "que coloca de um lado um Estado opressor e, de outro, uma sociedade vitimizada", Janaína entendeu as comemorações dos 150 anos da Independência, abertas pelo presidente Emílio Garrastazu Médici no dia 21 de abril, como a grande celebração do consenso entre regime e sociedade nos Anos de Chumbo, como o período ficou conhecido.

Enquanto a máquina de torturar e matar da repressão funcionava nos porões a todo vapor, milhares de brasileiros fizeram, naquele ano, fila para assistir ao filme "Independência ou morte", protagonizado por Tarcísio Meira e Glória Menezes, para acompanhar o desfile dos restos mortais de Dom Pedro I, trazidos especialmente de Portugal, e para torcer pela seleção tricampeã na Taça Independência.

- Cumprimentei pessoalmente o casal de atores, que foi visitar meu pai no Palácio do Planalto. Se a minha memória não falha, Glória Menezes contou que era gaúcha, como minha família. Meu pai tinha uma enorme popularidade. Saiu do governo com 82% de aprovação. E medidos pelos mesmos institutos que, hoje, dão os números da popularidade do Lula. Médici deixou o governo com mais popularidade do que a do atual presidente e, infelizmente, ninguém se lembra disso - lamenta Roberto Médici, filho do ex-presidente.

Para iniciar as festividades, em 21 de abril de 1972, os militares promoveram o "I Encontro Cívico Nacional", que reuniu "em praças públicas o povo para ouvir o pronunciamento do presidente da República, assistir ao hasteamento da bandeira e cantar o Hino Nacional". Em seguida, o presidente de Portugal, Marcelo Caetano, acompanhou o traslado dos despojos de D. Pedro I de Portugal para o Brasil. A programação se estenderia até a Semana da Pátria, em setembro, com os desfiles militares do dia 7 em todo o país e a inauguração do monumento à Independência no Museu do Ipiranga, em São Paulo.

Janaína, cuja pesquisa está em andamento, levantou que as comemorações incluíram também a reedição de importantes obras que tratavam da emancipação brasileira, privilegiando para tanto o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; a organização da Taça Independência; a realização do filme "Independência ou Morte", do cineasta Carlos Coimbra, e a inauguração do monumento do Ipiranga, o qual abrigaria os restos mortais de D. Pedro I.

-- O filme, sucesso de bilheteria, exibe um Pedro I bem militarizado. Como outros eventos destes 150 anos da Independência, procurou uma recuperação ufanista da História do Brasil, de acordo com a qual, em 1822, Dom Pedro I havia realizado a independência política da nação e, então, os militares realizariam 150 anos depois a independência econômica - disse.

Filho de Médici: ele era popular

A pesquisadora lembra que os festejos de 72 aconteceram num contexto complexo, após a edição do AI-5 e o aumento da repressão contra adversários do regime. Ao mesmo tempo, Janaína disse que foi a fase em que "o capitalismo brasileiro, continuando e aprofundando a linha ascendente inaugurada em 1967, deu um gigantesco salto para frente", o chamado Milagre Brasileiro, quando o país, "comparado a um imenso canteiro de obras", foi tomado por incontida euforia desenvolvimentista. Em sua mensagem de fim de ano em 1971, Médici anunciava: "Vejo chegar, afinal, depois desses 150 anos de vida independente, a emancipação econômica dos sonhos dos inconfidentes".

- Se meu pai desse um grito, todo o povo iria para a praça pública. Ele tinha amplas condições de continuar, mas preferiu encurtar o mandato em dois anos. Na época, gozava de imensa popularidade, e o país vivia ainda uma guerra interna, pretexto de todo o ditador para se perpetrar no poder - afirma Roberto.

Roberto Médici, embora discorde, disse que não vê problemas em falar das marcas sangrentas do regime, que teria atingido o auge da repressão no governo do seu pai, na primeira metade dos anos 70.
- Costumo dizer que dois bichos são imortais: verdade e liberdade. A verdade vai florescer neste Brasil. Não é possível que se esconda por tanto tempo. É irônico ler um artigo do José Dirceu sobre o AI-5. Ele fugiu para Cuba, cujos muros estavam manchados de sangue derramado pelo ditador Fidel Castro. A obrigação de meu pai era reprimir os grupos armados que queriam fazer do Brasil uma grande Cuba. Mas nem por isso o presidente deixou de ser popular. Flamenguista doente, foi aplaudido de pé nas duas vezes em que foi assistir aos jogos no Maracanã - diz Roberto Médici.
Ao buscar as razões dos aplausos a Médici e a popularidade dos festejos do Sesquicentenário, Janaína desafia a tendência predominante até então entre os historiadores, que sempre consagraram os grupos de esquerda como vítimas e preferiram ignorar os movimentos civis de direita, que, ao fim, constituíram a base social de apoio e legitimação da ditadura, mesmo nos anos mais terríveis dela.
- A apropriação da resistência e a negação do apoio civil à ditadura devem ser compreendidas, pois, como um projeto nacional de conciliação, perdão e esquecimento, que ia se conformando à medida que avançava o processo de abertura política. Todavia, se o esquecimento do consenso em torno da ditadura cumpria neste contexto uma função social, não se pode "fazer do "direito ao esquecimento" uma virtude cívica. É preciso ir além e tentar desvendar os mecanismos através dos quais a memória dos grupos que apoiaram o regime foram construídos e consolidados - sustenta Janaína.

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