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Categoria: Diversos
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 Opinião – Editorial - JB Online
Uma mulher que sofreu na carne as atrocidades da narcoguerrilha colombiana agora leva uma mensagem de esperança e um apelo emocionado, mas cheio de razão, para que o mundo não se esqueça de outros tantos companheiros ainda sob o jugo do terror. Em seu périplo pela América do Sul, Ingrid Betancourt, ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), encontrou-se na semana passada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo, e agradeceu a mobilização do governo e do povo brasileiro em prol de sua libertação. Foi muito clara ao descrever as duas opções que se apresentam à frente dos guerrilheiros: a regeneração ou a morte.

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Ex-candidata à Presidência da Colômbia por um partido ligado às questões ambientais, Ingrid foi feita refém em fevereiro de 2002, quando fazia campanha política numa região desmilitarizada do país – uma enorme extensão territorial entregue pelo então presidente Andres Pastrana à guerrilha, em nome de um processo de paz que nunca avançou. Foi nas selvas colombianas que a senadora conheceu o calvário imposto por seus algozes. A rotina de fome, doenças e sofrimento só viria a ser quebrada mais de seis anos depois, no dia 2 julho, quando foi resgatada por militares numa operação que, à parte o caráter cinematográfico, coroou uma bem-sucedida estratégia levada a cabo pelo presidente Álvaro Uribe, de estrangulamento das Farc, pela eliminação de seu ambiente político, econômico e militar.

Há muito a guerrilha deixara de ter motivação ideológica para ser um embolorado sobrevivente da bipolaridade que marcou a segunda metade do século 20. Do marxismo original, o pouco que ainda restava foi para o túmulo com o chefe supremo, Manuel Tirofijo Marulanda, morto em março deste ano, de causas naturais. Desgastadas e corrompidas, as Farc se tornaram uma organização mais conhecida por seus vínculos com o narcotráfico do que pela política. Nos últimos meses, sofreram reveses pelo Exército que as enfraqueceram. É nesse contexto que Ingrid evidencia aos que ainda militam na guerrilha que é hora de dar adeus às armas e tentar o processo político.

"Não vejo futuro para as Farc", comentou, em São Paulo. "Ou eles morrerão ou vão se regenerar, mas, para isso, precisam sintonizar-se com os problemas da Colômbia", sintetizou a ex-refém, completando: "Mas para vencer, precisam convencer o povo de outra forma que não seja matando". A mensagem – a mesma expressa nos países vizinhos visitados, como Argentina, Peru e Chile – condiz com o sentimento geral da população colombiana. É hora de pôr fim ao terror da narcoguerrilha.

Enquanto houver cidadãos de bem privados de liberdade pelas Farc (e ainda há centenas deles), não é possível pensar numa Colômbia realmente livre ou mesmo numa América do Sul política e socialmente estável. Daí a importância de todos os presidentes do continente reforçarem a luta contra este tipo particular de terrorismo – que, infelizmente, ainda encontra respaldo entre líderes ditos "bolivarianos". A neutralização das Farc representaria, portanto, um avanço para a humanidade. E um passo à frente em direção à paz.