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Categoria: MST
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 Zero Hora
– Southall é nossa! Escrita em letras graúdas por toda parte no velho casarão da sede da Estância do Céu, à beira da linha do trem, no interior de São Gabriel, a frase não deixa dúvida de que há um novo dono na propriedade. As inscrições, feitas por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), marcam a tomada pela organização da última trincheira de resistência dos pecuaristas contra os assentamentos: a Fronteira Oeste.

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A estância pertence à família de Alfredo William Southall, 69 anos, que a herdou do seu pai, um tropeiro argentino descendente de ingleses que se estabeleceu em São Gabriel no início do século 20. Durante cinco anos, Southall e São Gabriel resistiram ao cerco do MST. No começo do mês, o produtor acabou vendendo 5 mil hectares para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) assentar famílias sem terra. Quase simultaneamente, o governo federal adquiriu outras quatro áreas que, com a Estância do Céu, somam 9,4 mil hectares, pagando de R$ 5,7 mil a R$ 6,4 mil por hectare. A previsão é instalar 612 famílias das 2,6 mil que hoje vivem nos 22 acampamentos de sem-terras no Estado.

– Atirei a toalha – diz Southall.

Se o símbolo dos agropecuaristas desistiu, seus colegas prometem resistir. Tarso Teixeira, presidente do Sindicato Rural de São Gabriel, pediu que advogados estudem a possibilidade de usar a legislação que protege o ambiente contra os assentamentos. A alegação será de que o ecossistema da região é frágil e não resistirá à exploração agropecuária intensa.

– As leis ambientais são rígidas. Vamos ver se funcionam contra eles – afirma o presidente do sindicato.

Teixeira é uma espécie de general dos fazendeiros. Foi um dos arquitetos da resistência contra a polêmica Marcha ao Coração do Latifúndio, em 2003, quando 800 famílias sem terra se deslocaram de diversos acampamentos com o objetivo de acampar em São Gabriel. A reação dos estanceiros foi forte, e a marcha não conseguiu chegar à cidade.

Um velho adversário do MST, Gedeão Pereira, de Bagé, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), vai mais longe e chega a projetar um êxodo de fazendeiros. Ele lembra que, no final dos anos 80, quando os sem-terra começaram a se instalar na região de Bagé, onde hoje ocupam 60 mil hectares, aconteceu uma debandada de produtores rurais:

– Vários venderam as terras e compraram no Uruguai. Entre eles, os donos do Consórcio Ana Paula, que hoje produzem carne no Uruguai.

Rossano Gonçalves, deputado estadual pelo PDT e crítico da movimentação do MST em direção a São Gabriel, lamenta a compra das áreas pelo Incra, mas não esmorece.

– Foi perdida uma batalha. Não a guerra. Vamos ver se sobrevivem como agricultores.

CARLOS WAGNER | São gabriel

 

 

Por que as terras estão sendo vendidas

 

Não foi o fim de uma guerra. Apenas uma trégua que servirá para reagrupar as forças. Assim está sendo entendida pelos fazendeiros a derrubada da última trincheira erguida por eles nos campos da fronteira contra o avanço dos assentamentos do MST. A queda aconteceu com a compra, pelo Incra, de cinco fazendas na região, incluindo parte da Estância do Céu, o símbolo da resistência dos estancieiros.

O empurrão final para a queda da trincheira foi dado em outubro, quando os fazendeiros perderam um aliado de peso: a Aracruz. Alegando prejuízos com a crise financeira mundial, a empresa suspendeu o investimento de R$ 4,9 bilhões no Estado. Parte desse dinheiro seria para compra e arrendamento de terras para o plantio de eucaliptos em 36 municípios, entre eles São Gabriel.

– Para aqueles que precisavam vender restou apenas um comprador, o Incra – observa Dilmar da Silva, 56 anos, corretor de terras na região.

Nina Tonin, líder do MST, diz que os assentamentos vão levar para a região agricultura familiar, que gera mais empregos do que as médias e grandes propriedades, responsáveis por fazer de São Gabriel o sexto município na produção de arroz irrigado do Estado e o quinto na produção de gado de corte.