Parte do tucanato e o petismo têm em comum a dedicação às tertúlias revolucionárias. Na semana passada, no Memorial da Resistência, em São Paulo, puseram todas as diferenças políticas de lado e se encontraram para mais uma celebração dos seus feitos históricos durante o regime militar. Desta feita, veja se tem cabimento, inauguraram um monumento em louvor aos 40 anos do 30º Congresso da UNE que não houve.

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Uma ocasião e tanto para que ex-companheiros de armas se encontrassem para comemorar o quanto o País do futuro é generoso com o passado. Quem podia imaginar que aqueles bitolados e enlameados estudantes reunidos em Ibiúna em uma desastrada mobilização seriam agraciados não só com o poder como viriam a auferir lautas compensações por tê-lo perseguido? É tanto vantagismo proporcionado pelas “conquistas democráticas” que eles se auto-homenageiam solenemente.

O mais interessante é a capacidade que esse pessoal tem de criar marcos históricos e construir mártires para se manter em permanente estado de celebração e evidência. Vamos falar a verdade, o congresso da UNE em Ibiúna foi um erro estratégico do movimento estudantil, misto de infantilismo com provocação. Não há razão plausível para a destinação da simpatia governamental à iniciativa desastrosa.

A não ser que devamos considerar de relevância política o fato de Ibiúna ter colaborado com a precipitação do AI-5 ou lançado um bando de irresponsáveis à luta armada. Se o caminho for esse no próximo ano será erguido monumento a Carlos Marighela, o libertador, e comemorado o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos como ponto de partida da queda do imperialismo ianque.

Outro absurdo é o reconhecimento de Leonel Brizola como anistiado político. É o cúmulo da falta de motivação. Brizola foi anistiado em 1979, soube com muita habilidade fazer o jogo democrático, tanto que criou o próprio partido político, governou o Rio de Janeiro duas vezes e quase chegou à Presidência da República. Trata-se de uma biografia pronta e acabada. Não é necessário reconhecer o que uma lei já o fez há quase 30 anos, especialmente porque as pensões, os monumentos e as solenidades saem do orçamento da União.

O que mais impressiona é o tom autocrático do secretário Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, ao se nomear caçador oficial de torturadores e, do alto das prerrogativas palacianas, assegurar que estes terão direito de defesa como se ele fosse proprietário do contraditório. É o mesmo que garantir ao enforcado o direito ao cadafalso. Vannuchi é o típico ex-preso político sectário agora convertido em democrata com o encargo governamental de realizar as grandes vinganças.

 

Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)

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