Edson Antonio Albertão
Já sei o que você quer saber: é sobre as Farc", adianta o ex-metalúrgico e professor de Educação Artística na rede estadual de ensino Edson Antonio Albertão, ao ver o repórter à sua frente, antes de o objetivo da visita ser explicitado. Na entrada da sala, cartazes e pôsteres das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia estão afixados nas paredes. Em outro canto, dezenas de fotografias em poses triunfalistas ao lado do comandante Raúl Reyes – o número 2 das Farc, morto em março – e de outros jovens guerrilheiros. "Como você vê, eu apóio as Farc clandestinamente", ironiza Albertão, 52 anos, ex-petista, vereador polêmico e candidato a prefeito pelo PSOL em Guarulhos.
 
 
Albertão é um visitante freqüente das áreas montanhosas da Colômbia dominadas pela guerrilha. Já fez rifas e camisetas para ajudar a organização, da qual se aproximou há dez anos. Se considera um "socialista revolucionário".

O candidato a prefeito rejeita o rótulo de representante ou "embaixador das Farc" no Brasil – título atribuído também ao padre Olivério Medina – e diz ser apenas um "amigo" dos camaradas guerrilheiros. "Sou um dos contatos que a guerrilha tem. Talvez o principal, o mais aberto, o mais público. Mas eu não represento as Farc. Elas não se fazem delegar. Se fazem representar por elas mesmas", explica.

Albertão tem sido responsável por importantes contatos políticos dos guerrilheiros. Era amigo de Raúl Reyes – "ele foi assassinado da forma mais cruel possível: enquanto dormia", lamenta – e foi portador até de uma carta da guerrilha endereçada ao presidente da República. "O Raúl me mandou entregar umas cartas a Lula. Eu disse que ia tentar. Voltei e pedi ao Suplicy (senador Eduardo Suplicy, do PT), que as encaminhasse. E o Suplicy entregou ao Frei Betto (ex-assessor da Presidência). Mas isso é uma coisa extremamente normal e corriqueira nas relações. A guerrilha estava parabenizando Lula pela eleição", justifica.

Ele considera "bobagens" as denúncias da revista colombiana Cambio de que a guerrilha mantém contatos com autoridades do governo brasileiro. "Contatos são feitos, de forma aberta. Eu pedi, por exemplo, ao Plínio de Arruda Sampaio (ex-deputado petista, hoje no PSOL) para que me ajudasse a intermediar uma conversa com o Itamaraty no sentido de não espetacularizar a concessão de refúgio para o Medina quando ele estava preso", afirma. "Nesse período, tive contatos com deputados de direita e do PSDB. Falei com todo mundo." Crítico feroz do governo Uribe – "é um narcotraficante ligado ao paramilitarismo", ataca –, Albertão acha que as Farc não devem recuar. "Os guerrilheiros não podem depor as armas sob pena de serem assassinados pelo regime de Uribe. Como aconteceu na década de 1980 com o assassinato de milhares de militantes, após a declaração unilateral do cessar-fogo", relembra.
Carta Capital - 19/09/2008
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