O retrato de uma geração em cartas escritas na prisão da Vila Militar
Ex-presa política, Lúcia Velloso lança em livro textos que escreveu entre 1971 e 1974
por Leonardo Cazes - O Globo - 05/12/2015
Lúcia, que fazia parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa em setembro de 1971 e guardou rascunhos e cópias feitas em papel carbono das missivas - Fernando Lemos / Agencia O GloboRIO - Em setembro de 1971, Lúcia Velloso Maurício foi presa na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Aos 20 anos, ela militava na organização clandestina de esquerda Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), responsável pelos sequestros do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben e do embaixador suíço Giovanni Bucher em 1970, ambos trocados por presos políticos da ditadura militar. Lúcia passaria os próximos quatro anos presa na Vila Militar. Naquele período, escreveu cerca de 200 cartas para família, amigos, ex-colegas de prisão e, principalmente, Alex Polari, também membro da VPR e com quem se casaria ainda na prisão.

 

Passados mais de 40 anos desde que “apagou as luzes” da prisão da Vila Militar, como ela mesma diz, já que foi a última mulher presa a deixar o local, a hoje professora da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP/Uerj) decidiu publicar uma seleção de textos escritos no cárcere no livro “Cacos de sonhos: cartas de uma ex-prisioneira da Vila Militar (1971-1974)”, que será lançado na próxima quinta-feira, às 19h, na Blooks Livraria (Praia de Botafogo, 316). As missivas reunidas constroem um retrato da geração que pegou em armas contra o regime: o conflito com a família, a conquista da liberdade sexual, as discussões políticas, as formas de gastar o tempo na prisão. Lúcia conta que quis publicar as cartas a partir da convivência com os alunos.

— Queria apresentar a minha geração para as gerações mais novas. Esse período aparece muitas vezes numa discussão muito politizada ou muito acadêmica ou como uma aventura. Eu queria mostrar essa história do cotidiano, do estudo, dos livros que eram lidos, dos discos que eram ouvidos — afirma a professora. — Todo mundo que escreveu sobre o passado, escreveu de hoje para trás. Já esse livro foi escrito lá atrás. Acho isso uma grande qualidade.

Filha de uma pedagoga e de um médico da Marinha, Lúcia entrou para o movimento estudantil secundarista quando estudava no Colégio Estadual André Maurois, no Leblon. Foi na militância que conheceu e começou a namorar Alex. No início de 1970, ela fugiu da casa dos pais e foi morar com o namorado numa casa no Engenho Novo, um “aparelho” pago pela VPR e que chegou a receber reuniões com a presença do capitão Carlos Lamarca. No início de 1971, a organização começou a ser aniquilada pela repressão. Em maio, Alex “caiu”. Em setembro, foi a vez de Lúcia.

RASCUNHOS E NUMERAÇÃO

As cartas só puderam ser publicadas em livro porque a professora guardou rascunhos e cópias feitas com papel carbono dos textos que escreveu na prisão. O caminho das missivas até os seus destinatários era tortuoso. Primeiro, era preciso passar pela censura dentro do quartel para que ela chegasse às mãos dos familiares. Depois, no caso das cartas para Alex, preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), havia um novo controle. Escrevia-se sem saber quando nem se as cartas chegariam e se haveria alguma resposta. Para tentar controlar as que se perdiam, Lúcia as numerava. A partir de abril de 1973, até a numeração foi proibida. No livro, há textos que nunca chegaram ao seu destino.

— Como eu ia saber se o Alex recebeu ou não, como eu ia lembrar o que eu tinha escrito dois, três meses antes (de chegar a resposta). Fazer rascunho era um hábito meu de estudante. Por isso guardei todo esse material — diz ela.

Lúcia identifica três fases distintas da correspondência. As primeiras cartas são marcadas por um tom de acerto de contas com seus interlocutores. A relação com a família era tensa. Ela chegou a ser internada num hospital psiquiátrico, em 1969, e seu pai cogitou entregá-la para a polícia após a prisão de Alex. Nas cartas desse período, fica clara a tentativa de tentar se fazer compreender pelas irmãs e de reconstruir a relação com o namorado. Num segundo momento, resolvidos os impasses iniciais, as missivas abordam a rotina da prisão, as novas amizades, as atividades para passar o tempo, como o artesanato.

A última etapa engloba os dez meses em que Lúcia ficou sozinha na prisão e abordam a perspectiva de liberdade. Em geral, as presas que encarariam penas longas pediam para ser transferidas para um presídio civil. No seu caso, ela optou por continuar na Vila Militar. A esperança era que, se Alex também fosse transferido para lá, os dois poderiam se ver. O acordo dos dois era que, se ela não aguentasse a solidão,pediria a transferência.

Observação do site www.averdadesufocada.com :O fato de preferir permanecer na Vila Militar demonstra que  ela foi bem tratada, como as seis presas do  DOI de São Paulo que também pediram para permanecer no DOI até o bebê de uma delas nascer, e não irem para o presídio.

— Quando fiquei sozinha, foi uma questão de sobrevivência — lembra. — Desde o início, as cartas eram o único meio que eu tinha para me comunicar com as pessoas a que não tinha acesso direto. Eu me organizava semanalmente para escrever. As cartas que eu recebia eram compartilhadas com as minhas companheiras de cela também.
Entre o início da digitação dos manuscritos e a publicação do livro se passaram 12 anos, tempo em que Lúcia refletiu sobre o que desejava tornar público ou não. Desde 2011, seu arquivo pessoal, incluindo as cartas, está depositado no Arquivo Nacional. No entanto, esse processo não ocorreu sem dúvidas e sofrimento.

— Por que expor meus pais? Isso mexe comigo. Mas eles me internaram num hospital psiquiátrico, não foi invenção — afirma ela. — Nessa exposição, achei que era mais importante revelar do que não revelar. E, se eu não colocasse alguns ingredientes, ia parecer uma linda história de amor de um casal que foi preso. Era bem mais complicado que isso.

LEIA TRECHO DA CARTA DE LÚCIA PARA A IRMÃ

“Sinto-me ferida quando você coloca entre aspas ‘cuidava do bem-estar do povo’. Realmente, Helô, era isso que eu queria, e quero. Não sei viver num lugar onde haja tantas injustiças sem querer mudá-las. Estudei e compreendi qual era a única forma de evolução. Lutei por ela, e não me arrependo. Isso é uma parte de mim, é a minha essência. Não aceito o individualismo, embora às vezes eu tome atitudes assim. Ninguém é ideal, e por isso existem os erros, as críticas e as autocríticas. Não me esqueci do sofrimento de vocês por causa da minha escolha. Lembre-se do que faz sofrer a vocês também me faz sofrer, porque gosto de vocês. Mas abri mão do meu sofrimento e do de vocês em troca do que você coloca entre aspas.

Vocês podem e sei que não concordam comigo, mas como já disse, ninguém é dono da verdade. Cada um é dono de sua vida e eu quis usar a minha para um fim que eu e meus amigos achamos mais justo. E sofri muito Helô. Mais talvez do que você pensa e essa carta é um pequeno reflexo desse sofrimento. Sei que disse ao Papai e a Mamãe coisas que devem tê-los ferido profundamente. Sei que várias vezes fui injusta. Mas sou franca, como você. E nada disso quer dizer que os desconsidere. Acho a nossa família de uma formação fora do comum. Não me lembro de famílias tão abertas como a nossa. E eu agradeço a Papai e Mamãe pela educação que nos deram. E eu os admiro, cada um por um aspecto.”

Vila Militar, 27/11/1971

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Comentários  
#1 Milton 12-12-2015 11:48
" Na base do impeachment não está um partido político, mas a voz de milhões de brasileiros" ! Viva o Brasil ! (...)
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