Foto de noite de autógrafo em Curitiba

Procuradoria denuncia quatro ex-agentes da repressão pela primeira morte nos porões da ditadura
Por Fausto Macedo , Marcelo Godoy, e Julia Affonso - Estado de São Paulo - 27/11/2015
Virgílio Gomes da Silva foi preso e morto em 1969 após coordenar o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick,
Os 13 presos políticos trocados pelo embaixador Elbrick – os últimos dois subiriam a bordo do Hércules C-56 no meio da viagem – na base aérea do Galeão, Rio de Janeiro, antes de partirem para o exílio no México.O Ministério Público Federal em São Paulo denunciou quatro ex-agentes da ditadura pela morte, em 1969, do operário e sindicalista Virgílio Gomes da Silva, considerado oficialmente o primeiro desaparecido político após o golpe de 1964. Segundo a Procuradoria da República, o major Inocêncio Fabrício de Matos era um dos chefes da Operação Bandeirante (Oban) e participou, junto com seus subordinados Homero Cesar Machado, Maurício Lopes Lima e João Thomaz, da prisão e da tortura de Virgílio.

Pelo menos outras dez pessoas, já falecidas, também se envolveram no crime. Os denunciados devem responder por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Observação do site www.averdadesufocada.com : Mesmo estando cursando ainda a Escola de  Estado Maior, no ano de 1969, no Rio de Janeiro,  os repórteres fazem questão de se referirem a ele, e novamente de forma errada : O DOI foi criado em setembro de 1970 , quando o cel Ustra assumiu o comando, permanecendo  no órgão até setembro de dezembro de 1973.
Em janeiro de 1974 entrou  em trânsito transferido para Brasília.

Virgílio Gomes

Virgílio Gomes da Silva foi morto nas dependências do prédio onde funcionava a Operação Bandeirante, em São Paulo, dia 29 de setembro de 1969. Ele havia se notabilizado no início daquele mês por comandar o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, solto dias depois em troca da libertação de 15 presos políticos.

Virgílio foi o primeiro dos 136 militantes de esquerda cuja morte pelas forças de repressão ditatoriais está confirmada. Pouco depois do crime, a Operação Bandeirante deu origem ao Destacamento de Operações e Informações do II Exército (DOI), que, sob o comando do major Carlos Alberto Brilhante Ustra, transformou-se em um dos principais centros de tortura do regime militar. Só entre 1970 e 1974, durante a gestão de Ustra, 37 pessoas morreram ou desapareceram após passarem pela unidade.

oferecidas à Justiça Federal contra os responsáveis pela morte de Virgílio Gomes da Silva.

O número dos autos é 0001147-74.2010.4.03.6181. A tramitação pode ser consultada em http://www.jfsp.jus.br/foruns-federais/.

O operário era um dos dirigentes da Ação Libertadora Nacional, grupo de resistência capitaneado pelo militante comunista Carlos Marighela. Segundo a Procuradoria, a perseguição a ele, no entanto, acontecia desde 1964, quando fora preso por liderar uma greve na empresa onde trabalhava, a Nitroquímica, no ano anterior.

A morte ocorreu horas depois da prisão de Virgílio. Os agentes o capturaram em um apartamento no centro de São Paulo pela manhã, sem ordem escrita e sem comunicação às autoridades, e o conduziram diretamente para a Oban, encapuzado e algemado. Um grupo de militares, entre eles os quatro denunciados, ‘recebeu o operário com chutes e socos que o levaram ao desmaio’.

“Na sala de interrogatório, já acordado, ele foi submetido a intensa sessão de tortura, pendurado em uma barra de ferro com os punhos presos às pernas dobradas. Virgílio não suportou a intensidade das agressões e morreu por volta das 22h30?, afirma a denúncia do Ministério Público Federal.

Ocultação. O corpo foi localizado no dia seguinte em um terreno baldio no centro da cidade e enviado para o Instituto Médico Legal. Ainda segundo a denúncia, peritos redigiram um laudo constatando as lesões e os hematomas, e a Divisão de Identificação Civil e Criminal confirmou se tratar do cadáver do operário. Os primeiros registros internos do Exército indicavam que Virgílio havia morrido por resistir à prisão, mas após a emissão dos documentos que evidenciavam a real causa da morte, os agentes impuseram sigilo total sobre o caso e forjaram a versão de que o militante estava desaparecido. Ele foi enterrado no cemitério da Vila Formosa, mas até hoje os restos mortais não foram encontrados.

Os procuradores da República Ana Letícia Absy e Andrey Borges de Mendonça, autores da denúncia, destacam que a morte de Virgílio ‘é um crime de lesa-humanidade e, por isso, imprescritível e impassível de anistia’.

“As condutas imputadas foram cometidas no contexto de um ataque sistemático e generalizado à população civil, consistente na organização e operação centralizada de um sistema semiclandestino de repressão política, baseado em ameaças, invasões de domicílio, sequestro, tortura, morte e desaparecimento dos inimigos do regime.

O homicídio pelo qual os ex-agentes da repressão estão sendo denunciados é triplamente qualificado devido ao motivo torpe do crime (preservação do regime instaurado em 1964), o emprego de tortura e a impossibilidade de defesa da vítima, diz a Procuradoria.

Se condenados, além de cumprirem penas de prisão pela morte de Virgílio e a ocultação do cadáver, eles podem perder cargos públicos que ainda ocupem, bem como ter aposentadorias cassadas e o cancelamento de medalhas e condecorações recebidas.

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