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Categoria: Luta armada
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Prezado amigo, querido confrade, Gen. Paulo Chagas.
Soube pela manhã do passamento de nosso Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, e soube na terça feira dos sofrimentos físicos pelos quais estava passando. Li uma nota de muita sensibilidade, escrita por D. Jô, e que chegou até mim através do General Glenio Pinheiro, grande amigo, contando como ele estava sendo atendido, com o coração ferido pelo momento difícil vivido pelo seu querido amor e companheiro de uma vida inteira na MISSÃO de ser mulher de um SOLDADO.

 

E me solidarizo inteiramente pois, apesar da pouca vivencia como oficial R/2 do Exército Brasileiro, servi, na nossa Cavalaria, em Unidade de Fronteira, com grande intensidade. Como Oficial Subalterno recebi muitas missões que me fizeram crescer dez anos em somente um. Combati com pleno êxito a contrabandistas, ladrões, guerrilheiros e terroristas, sem até saber exatamente o que isto significava de perigo e, com certeza corri muitos riscos de vida. Mas me senti, sinto, e me sentirei honrado pelos árduos momentos dos anos 1967 a 1969, em que cumpri com todo o meu empenho as ordens recebidas de meus superiores. Aquilo foi uma guerra, e, na guerra e no amor ocorrem fatos e momentos muitas vezes inexplicáveis, onde são aceitas estas verdades e estas ações. E eu a vivi, de uma forma muito especial e até generosa.

As suas palavras enobrecem a memória de um herói, dos poucos condecorados com a Medalha do Pacificador com PALMA (que, infelizmente, muitos militares nem sabem o grande significado contido em tal COMENDA. Infelizmente (e digo isso sem rancores) as palavras sábias ditas pelo nosso Ministro do Exercito Gen Walter Pires, foram rapidamente esquecidas por muitos chefes que o seguiram. Não somente Cel. Brilhante Ustra foi "abandonado", mas muitos outros em escalas distintas. Não sei mais o que comentar mas, seguramente a história futura guardará, com honra, os nossos heróis, como nosso Coronel Ustra. Lembro-me claramente do episódio em que ele foi chamado para ser inquirido em uma daquelas reuniões da "Verdade e Justiça" em que ele, com todo o seu firme caráter de Oficial do Exército que teve uma vida ilibada no cumprimento dos seus deveres, simplesmente afirmou: "Quem deveria estar aqui sentado sendo inquirido não era eu e sim o Exército, a quem eu sempre procurei representar com a fidelidade que se exige de um soldado, e pelo conteúdo do meu juramento ao ser declarado Aspirante a Oficial do Exército. Não fugiu como tantos, não deixou de falar o que achava dever falar, e assustou a todos com sua firmeza de princípios e sua personalidade marcante, conquistando, até nesse momento difícil, o respeito, até, dos seus algozes.

Novamente o cumprimento pelas suas palavras intensas de sentimento patriótico. Elas, com certeza enobrecem nosso Exercito e nosso Brasil. E, de antemão, solicito sua autorização para espalha-las ao meu grupo de amizades, que pensam como eu, que sentem como eu.

Com admiração o cumprimento!

Atenciosamente,

Luiz Carlos Miglorancia

Tenente R/2 de Cavalaria

CPOR SP Ano 1964/1966