Por Ruy Fabiano - 20/06/15

O episódio da expulsão oficiosa – outra coisa não foi – da comitiva de oito senadores brasileiros de Caracas, há três dias, é mais um capítulo da luta pela construção da tal Pátria Grande, gestada no Foro de São Paulo.
Já não se pratica a diplomacia nos seus termos fundadores, de defesa da identidade, interesses e soberania das nações. A diplomacia brasileira, hoje, é ideológica e partidária.
O interesse nacional fica em segundo plano, quando estão em jogo planos estratégicos e ideológicos, como no caso da apropriação pelo governo boliviano de uma refinaria da Petrobras, em maio de 2006. O que foi um ato de afronta à soberania brasileira – o exército de um país vizinho ocupando um patrimônio do povo brasileiro – foi minimizado pelo então presidente Lula, que assim justificou a tolerância: “O povo da Bolívia é pobre”.

Claro, e o povo brasileiro é rico, livre de problemas em saúde, educação, moradia, transporte etc. Pode perder refinarias para o exército dos povos pobres, sem qualquer protesto.

No caso presente, o governo brasileiro viu-se numa encruzilhada: ou silenciar – o que equivaleria a avalizar a truculência diplomática do governo de Maduro – ou protestar. Encontrou um meio termo: a morna nota do Itamaraty, que jogou nas costas de “manifestantes” a responsabilidade pelas agressões.

Ora, sabe-se que a militância que lá estava não era espontânea. Mais que militantes, eram milicianos, armados de paus e pedras, agredindo o veículo que transportava a comitiva. A passividade dos policiais confirmava, se dúvidas houvesse, a conivência (ou cumplicidade) oficial. Mas houve mais.

A omissão do embaixador brasileiro, Rui Pereira, soma-se às demais evidências de conexão entre os governos brasileiro e venezuelano. O embaixador recebeu os senadores na pista do aeroporto e, em seguida, desapareceu.

Não prestou qualquer assistência, nem se manifestou posteriormente. Cumpriu ordens expressas do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, segundo este relatou ao deputado Antonio Imbassahy (PSDB-BA):

"Eu fiz a pergunta ao ministro se o comportamento e se a atitude do embaixador brasileiro na Venezuela estavam de acordo com as orientações passadas pelo Itamaraty, pelo governo brasileiro. Ele respondeu: 'Sim, ele fez o que nós mandamos fazer'", disse Imbassahy. Ou seja, abandonou os senadores à hostilidade dos milicianos, a serviço do governo Maduro. Nada menos.

A presidente Dilma não se indignou com o ocorrido. Indignou-se, isto sim, com os senadores, que, segundo ela, a colocaram numa “armadilha”.

De fato: a situação a obriga a definir-se de que lado está. No caso do traficante brasileiro condenado à morte na Indonésia, a presidente chamou o embaixador brasileiro naquele país, em gesto de hostilidade ao governo local, que cumpria suas leis, ainda que com elas não venhamos a concordar.

Pelo visto, para a diplomacia brasileira, um traficante vale mais que o Senado.

Não é a primeira vez que os países do Foro de São Paulo – e o Brasil com destaque – intervêm na política interna uns dos outros. O Brasil cedeu, em 2009, sua embaixada em Honduras para que o presidente deposto daquele país – deposto constitucionalmente pelo Congresso -, Manuel Zelaya, conspirasse para reocupar o poder.

Empenhou-se para suspender a presença do Paraguai no Mercosul, invocando a cláusula democrática, quando da deposição constitucional do então presidente Fernando Lugo, em 2012.

Em seu lugar, entrou a Venezuela, que, segundo Lula, “tem democracia até demais”. Tanta democracia que mantém na cadeia oposicionistas pelo simples fato de serem oposicionistas – e impede que sejam visitados por colegas vizinhos. Não bastasse, censura a imprensa e mata manifestantes que protestam contra o governo.

Quando, numa de suas visitas a Cuba, o então presidente Lula foi indagado a respeito da morte de um prisioneiro político em greve de fome, comparou-o aos criminosos comuns de São Paulo. Dilma, por sua vez, alegou que não se intrometia em assuntos internos de outros países, argumento que jogou ao lixo ao condenar na ONU ações do governo norte-americano.

O episódio que envolveu os senadores brasileiros reclama providências que não virão – entre elas, o afastamento da Venezuela do Mercosul. No Congresso, a tropa de choque da base aliada inverte os fatos e considera infratores os próprios colegas. Maduro está certo – e é um democrata, acham aqueles aliados.

Reverberam o ponto de vista do governo petista, o único do mundo a dispor de dois chanceleres: o oficial, Mauro Vieira, e o real, Marco Aurélio Garcia, expoente do Foro de São Paulo - o mesmo que sustentou que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que vivem de sequestros e tráfico de drogas, não é uma organização terrorista, embora mantenha até campo de concentração na selva.

No início da semana, um notável do governo Maduro, caçado pela Interpol por tráfico de drogas, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, esteve no Brasil. Foi recebido por Lula e por Dilma. Não foi molestado e, ao contrário, mereceu tapete vermelho. Dias depois, recepção inversa foi dada aos senadores brasileiros.

O episódio, lamentável, serve ao menos para que caia a máscara do governo brasileiro, que, de costas para os interesses nacionais – afrontados em tantos escândalos internos e trapaças diplomáticas -, trabalha pela Pátria Grande socialista

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