Merval Pereira 
08.01.2015 
A tragédia que se abateu sobre o jornalismo mundial é, sobretudo, a tentativa de sobrepor a violência à liberdade de expressão, um dos pilares do estado democrático. Mas é também a expressão mais brutal do desentendimento de sociedades que marca nosso mundo contemporâneo.
Teve a mão globalizada da Al- Qaeda a puxar o gatilho das kalashnikov contra jornalistas satíricos franceses, mas obedece ao mesmo conceito bárbaro que leva um político do interior brasileiro a assassinar jornalistas que expõem suas mazelas, ou simplesmente os expõem ao ridículo, como tantas vezes aconteceu nos últimos anos, crescentemente.

O elemento religioso que serviu de pretexto para a ação dos terroristas na redação do Charlie Hebdo é outro ingrediente de uma tragédia contemporânea, em que o desentendimento entre as civilizações está prevalecendo em lugar da tentativa de compreensão mútua.

Os direitos humanos como valores universais custam a se impor em sociedades que ainda lutam por liberdades individuais, e até agora apenas a Tunísia vem se saindo bem do movimento que se chamou Primavera Árabe e hoje não consegue ser um contraponto ao extremismo terrorista, que tem no Estado Islâmico sua imagem mais exemplar.

O filósofo francês François L´Yvonnet, secretário executivo da Academia da Latinidade, acompanha de perto a tentativa de aproximação das culturas, tarefa primordial da Academia, e tem também uma visão das questões francesas que estão em jogo nesta tragédia. Ele classifica o ataque ao Charli Hebdo de “um acontecimento inominável, um atentado particularmente inqualificável à liberdade de expressão”.

Mas há outras razões, particulares da França, para serem analisadas, diz L´Yvonnet. Para ele, a violência que se imiscui na sociedade francesa está presente na escola, nas ruas, em certas comunidades (judaicas e muçulmanas em particular). É esta violência, com alguns grupos particularmente radicalizados, que se expressa hoje (ontem).
Para L´Yvonnet, a França, por seu passado colonial, e pela importância de sua comunidade árabe-muçulmana, a França está exposta à frente da crise que abala o sul do Mediterrâneo, “crise vivida muito intensamente e quase em tempo real pelos subúrbios de nossas grandes cidades”. A integração republicana dessa comunidade é um desafio global, analisa, rassaltando as questões sociais que estão em disputa: exclusão, desemprego, evasão escolar, violência, zona de não-direitos.

“O que nós oferecemos às crianças dos subúrbios? Quais suas perspectivas?” É preciso ser lúcido, diz L ´Yvonnet, “Numerosos entre eles não têm outra perspectiva de sucesso social que a droga ou os assaltos a mão armada. Outra perspectiva de sucesso individual é a adesão largamente fantasiada ao Islã político”.

Como professor, François L Ývonnet diz que mede a mudança de atitudes de certos estudantes muçulmanos, “que não têm mais o perfil baixo, mas reivindicam fortemente o seu pertencimento a um Islã orgulhoso de si, feito de solidariedades transnacionais”.

Ele alerta que “o amálgama será feito certamente entre uma pequena minoria de radicais e o conjunto da comunidade, composta de vários milhões de indivíduos. O amálgama clássico. Não há nada de surpreendente”. Mas admite que “encontra um terreno propício numa França formando a imagem detestável da religião muçulmana pela ignorância sobre a cultura árabe-muçulmana e o desprezo que é dado aos árabes”.

Para François L´Yvonnet, a França não está sendo confrontada por um inimigo externo. “Está sendo confrontada por ela mesma, suas contradições, seus temores políticos, seus maus hábitos pós coloniais”.

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