por   Marco Antonio dos Santos
Infelizmente, o Rio de Janeiro volta às manchetes, não como um local de belíssimas praias e atração turística mundial.
O fracasso das UPP - Unidades de Policia Pacificadora - e as mortes de mais de 40 policiais em ato serviço, abatidos por traficantes, só neste ano, culminando com o assassinato de um cabo do Exército Brasileiro em missão de patrulha na força de ocupação na favela da Maré, trás à tona a imagem de um estado dominado pelo crime organizado.
Esse é um cenário que acompanha o Rio de Janeiro faz mais de seis décadas, pelo menos.

Primeiro foram os bicheiros com sua loteria zoológica, atividade passivamente aceita pela sociedade carioca, mas que trouxe muita violência com mortes, corrupção maciça de autoridades de todos os níveis e segmentos do poder no Estado e os correspondentes escândalos de repercussão internacional.

Mais recentemente, de cerca de 40 anos para cá, após a associação do narcovarejo com o jogo do bicho e a ocupação de áreas pelas organizações criminosas, enquistadas nas comunidades faveladas, especialmente na capital do estado e cidades adjacentes, a crise se agravou e as cenas de combate urbano, de fazer inveja aos noticiários dos confrontos entre palestinos e israelenses ou a ocupação de Falujah, no Iraque, pelas tropas da 7ª Divisão de Fuzileiros norte americanos.   

As atividades criminosas organizadas não são privilégio ou exclusividade do Rio, mas é nele que encontram algumas facilidades não disponíveis em outros locais. Talvez a índole dos cariocas, o enraizado "jeitinho esperto", tenha contribuído  para a disseminação em larga escala do tráfico de drogas, com "apitaços" antevendo ações policiais; o desenvolvimento de certa leniência com os viciados (que são a razão de ser da economia das drogas, a ponta do espectro criminoso estruturado); o não reconhecimento explícito de que o problema existe e é grave; a criação de uma economia paralela do tráfico nas favelas; a eleição de políticos corruptos sabidamente financiados com dinheiro  de origem ilícita, tenham criado as condições para o atual estado das coisas.

Erros na concepção e no prosseguimento das políticas de segurança pública, integradas a outras políticas anti drogas e de incorporação dos jovens à  força de trabalho do Estado, como forma de evitar o contágio do vício, como exemplo, também, é óbvio, completam o quadro dantesco com que  ora o país se depara em relação a uma de suas Unidades federadas mais importantes.

O fracasso das UPP se deve á incapacidade de dar prosseguimento a uma boa idéia, embora se saiba de alguns interesses abjetos por trás dela.

À ocupação ao modo militar e com suporte das Forças Armadas (e que não se daria com êxito de outra forma), não se seguiu à presença efetiva das demais expressões do Estado nas comunidades "pacificadas". Aliás, o termo que melhor caracteriza o que foi levado a cabo seria "comunidade ocupada".

Também, o quadro político que levou ao programa das UPP, financiado por empresários com interesses difusos, mudou, embora o governador eleito seja parte do mesmo ideário.  

Por ter trabalho muito tempo no Rio de Janeiro, vi iniciativas semelhantes - com siglas parecidas, como CIPOC, PPC, CIDS etc - irem por terra por descaso político semelhante. Junto às UPP, faltaram defensoria pública, assistência social, escolas e creches, centros de atendimentos a viciados, transparência política e fiscalização de condutas  em atividades urbanas, como os bailes funks, raves e coleta de lixo. Todas essas iniciativas estavam previstas após os êxitos da Operação Rio, em 1994 / 1995, hoje contundentemente esquecida.

A expressão "comunidade pacificada", muito utilizada pela mídia televisiva, serviu para mascarar um acordo, se não oficial, pelo menos tácito de que "não atiramos em vocês, vocês nos deixam vender nossas drogas". Sim, porque o narcotráfico não foi enfrentado. A venda do "branco, do preto e das pedras" não deixou de existir. Qualquer morador de comunidade ou taxista sabe bem disso. E tem exemplos para dar.

O setor realmente beneficiado foi o da especulação imobiliária. Esse deu certo. Áreas do Pavão Pavãozinho, Tabajaras, Rocinha e Vidigal acabaram nas mãos dos "gringos" e pousadas foram instaladas nos pontos "com vistas para o mar" para receber turistas.
Que bom!
Mas esqueceram de dizer à sociedade que os fiscais de posturas e de tributos não conseguem acessar tais empreendimentos, pois aí os "donos" do morro lhes obstam o acesso. Traficantes estrangeiros adquiriram mansões onde antes era favela.  Também qualquer taxista sabe disso.

Fato é que, atualmente, de certa forma, o Estado  não detém o controle sobre as principais cidades cariocas e os riscos presentes e potenciais  para a população são imensuráveis. Sejam eles físicos, morais ou sociais. E a sociedade não cobra isso.

O tiro de precisão que matou o cabo, no dia 28 de novembro, indica que pode pairar sobre a cabeça de qualquer carioca o fantasma de um "snipper", à semelhança do que ocorria na via da morte em Sarajevo, nas décadas de 1980 / 1990.

Isso só aconteceu porque o criminoso se sentiu à vontade para atuar, mesmo diante de tropa do Exército Brasileiro. É uma afronta à lei e à Justiça.
Muitos advogam que o Exército não deveria estar lá.

Talvez desconheçam ou avaliem mal a magnitude das ameaças representadas pelas muitas atividades do crime organizado, desde seu espectro visível de vendas de drogas "malhadas" para consumo final e até a cadeia estratégica que se origina na produção, logística de financiamento, transporte, armazenagem e distribuição  e a inserção dos lucros na economia formal, processo que se denomina popularmente como lavagem de dinheiro.

Acresça - se a esse mundo, os crimes conexos associados, que operam na penumbra dos outros níveis de atuação ilícita, como o tráfico das armas que os brasileiros já se acostumaram a conhecer, mais até que um soldado norte americano no Afeganistão; o tráfico de pessoas, especialmente mulheres; a prostituição e a pedofilia; o terrorismo e o eterno circulo vicioso da corrupção de agentes públicos.

Esse complexo sistema, conduzido por uma entidade abstrata que se costuma  denominar crime organizado, promovido ou não por organizações de tipo mafioso,  em que a palavra vale mais que qualquer contrato,  atinge cerca de  1/3 do PIB mundial, dependendo da fonte pesquisada. Afinal é dinheiro ou chumbo, como dizem os traficantes mexicanos.

Países como a Itália, o México, a China, a Colômbia e a Rússia empregam ou empregaram efetivos militares em operações episódicas ou sistemáticas em ações contra "máfias" em seus territórios. Os EUA também o fazem, empregando meios e pessoas das Guardas Nacional, Aérea e Costeira, forças armadas de uso doméstico, na repressão à imigração ilegal e ao tráfico transfronteriço de     drogas, armas, explosivos e pessoas.

A favela da Maré é área estratégica para o crime organizado no Rio de Janeiro. Permite acesso pelo litoral, por terra e pelo ar. Navios ao largo podem desovar cargas flutuantes de cocaína ou de armas, resgatadas à noite por embarcações leves. Avenidas demandam à Barra da Tijuca, baixada fluminense ou à via Dutra. Pequenos aviões podem lançar pacotes com relativa facilidade no emaranhado de vielas que drenam a região.   Além disso, um traficante pode atingir aeronaves, que pousam e decolam, no aeroporto do  Galeão, desde que disponha de um foguete RPG 7, facilmente acessível no mercado internacional de armas ilegais.

Penso que as Forças Armadas têm que ocupar espaço nessa "guerra" ao crime transnacional e suas versões nacionais. Isso é um problema de todos os brasileiros.Talvez sejam a opção restante, diante do fracasso  das políticas e das demais forças do Estado.

Apenas avalio que elas não atuem a reboque de decisões políticas equivocadas, como vem acontecendo.

Políticos tomam decisões políticas sem que assumam, posteriormente, responsabilidade sobre elas, como fatos da história recente deste país tem cabalmente demonstrado.
Soldados costumam morrer enquanto  políticos lucram.

Militares devem tomar decisões que podem ter como consequência a morte de pessoas, nem sempre as culpadas, como a do jovem cabo.

Importante que os militares tenham a consciência, por mais cruel e lamentável que isso possa ser, de que a morte faz parte de seu trabalho. É inerente a quem usa armas, abraça ideais e professa valores.

Mas que a morte seja a daqueles que se opõem ao cumprimento da missão que a Pátria lhes atribuiu.

E que as responsabilidades sejam assumidas e compartilhadas.
Marco Antonio dos Santos
Empresário e professor

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