Turma Nações Unidas-AMAN 1964
Sinto-me honrado de haver sido escolhido pela Turma Nações Unidas para fazer este discurso comemorativo do cinquentenário de nossa formatura na Academia Militar das Agulhas Negras.
Neste dia de reencontro, neste momento de alegria e confraternização que estamos a vivenciar, é justo que deixemos as reminiscências invadir nossas almas, nossas mentes , nossos corações…Serão essas recordações o fio condutor de um breve esvoaçar ao passado já distante, agora que, setentões, a pátina do tempo coloriu de branco nossos cabelos, um pouco ou muito mais ralos…

 

19 de dezembro de 1964, uma data marcante para todos nós. 285 orgulhosos Aspirantes ultrapassamos os colossais e hieráticos portões de saída da AMAN, espada à cinta e peitos inflados pela conquista tão almejada e finalmente alcançada. O simbolismo daquele evento era um divisor de águas. Encerrávamos ali, naquele instante, três anos de intensa e extenuante atividade física e intelectual. Solidificados em nossos ideais, gratificados pelo sucesso, estávamos preparados a adentrar uma nova etapa de vida. Ainda que inexperientes, sobre nossos ombros pesava uma nova e poderosa realidade: dignificar, agora como oficiais do Exército Brasileiro, nosso solene juramento de dedicarmo-nos ao serviço da Pátria, preservar as Instituições Nacionais e garantir a soberania nacional, a despeito de qualquer ameaça à sua integridade.

Prestes a sermos lançados em uma diáspora nacional, os novos desafios e a alegria daquele momento ofuscavam a tristeza decorrente da interrupção da convivência diuturna e do afastamento necessário dos amigos e camaradas com os quais aprendêramos a dividir alegrias e tristezas. Com aqueles companheiros não mais repartiríamos o pão e as agruras de cada dia, mas mesmo distantes continuaríamos a compartilhar dos mesmos excelsos valores que juntos aprendêramos a respeitar em nossa ainda incipiente vida militar. Esse sentimento solidário, de união em torno de ideais elevados, perdura até hoje, nunca esmoreceu…E essa nossa festa, esse nosso reencontro, é a mais lídima demonstração dessa assertiva. 

Esperançosos, sonhadores, estávamos no dealbar de uma longa e imprevisível jornada. Aonde a vida nos iria conduzir? Que sonhos e projetos conseguiríamos alcançar? Que dificuldades enfrentaríamos? Toda uma vida, inteiramente nova, se descortinava agora frente a cada jovem Aspirante. 

Estávamos, no entanto, bem preparados para enfrentar os percalços que doravante surgiriam em nosso caminho, pois nem tudo foram alegrias e sucessos em nossa passagem pela AMAN. Com muito foco e energia aprendêramos a superar os óbices que a vida acadêmica nos impôs. Esses obstáculos se constituíram, de fato, no fogo sagrado que acrisola a alma, transforma o barro bruto em porcelana e tempera o fio da espada. Hoje relembramos daquelas dificuldades com muito humor e dedicamos boa parte das reuniões de turma ao relato rebuscado daqueles fatos, transmutados e burilados, parte indissociável do anedotário castrense. 

A organização impecável era o paradigma que norteava nossa formação militar e intelectual. Nossos passos eram minuciosamente planejados e executados por nossos excelentes professores e instrutores, em obediência a um muito bem elaborado programa de ensino. A todos esses mestres prestamos nossa homenagem e  expressamos nosso reconhecimento. No mais das vezes, na ausência da família, eram eles os conselheiros e amigos a nos apoiar e orientar. 

O sucesso de nossas atividades dependia, e muito, da estrutura administrativa da Academia Militar. Na maior organização militar do Exército Brasileiro, milhares de militares e civis trabalhavam de forma integrada e harmônica, colaborando para que a Academia Militar da Agulhas Negras, orgulho de nosso Exército, continuasse a ser um destaque internacional, e um exemplo vivo às Instituições congêneres de nosso país. A todos esses anônimos companheiros de jornada o nosso agradecimento fraterno. 

Ao longo dos três anos de curso, acompanhávamos com atenção e muita inquietude a crescente deterioração dos poderes da República. Era-nos evidente que o país vivia um período de grande turbulência que fatalmente desaguaria em uma guerra civil. Nossa juventude e inexperiência não impediam que percebêssemos o rumo caótico seguido por nossas Instituições. Grupos paramilitares, à moda das execráveis SA nazistas, brandiam facões e fuzis de forma intimidatória. Greves selvagens, lideradas por pelegos controlados por comunistas, mergulhavam o país na anarquia. As Forças Armadas, baluarte último da sustentabilidade nacional, de forma sistemática e ardilosa eram solapadas, enfraquecidas em suas bases, clivadas em sua unidade por movimentos que buscavam separá-las em classes. Brasília assistiu à rebelião dos sargentos e marinheiros amotinados foram recebidos com honras por seu Almirante, por eles vergonhosamente carregado aos ombros em grotesca e indisciplinada procissão. O limite dessa escalada, o ponto de viragem, foi a presença do Presidente da República em ato promovido por uma associação de graduados do Exército. Suas palavras de incentivo à indisciplina e à insubordinação acenderam o estopim que detonou a Revolução de 31 de Março de 1964, a alternativa que salvou o país do mergulho no abismo que se avizinhava. 

Veteranos na AMAN, não fomos apanhados de surpresa, pois nos bastidores já nos preparávamos para nos unir à iminente revolução. Tínhamos, no entanto, um Chefe, um líder na verdadeira acepção da palavra. O Gen Emílio Garrastazu Médici, nosso Comandante e futuro Presidente da República, revelou-se um dos próceres da Revolução. De pronto posicionou a AMAN na vanguarda das forças civis e militares que apearam do poder um presidente fraco, vacilante, títere de forças comunistas mequetrefes, vinculadas, obedientes e financiadas por governos estrangeiros, ansiosos por ver instalada em nosso país uma ditadura do proletariado, nos moldes do sangrento regime instalado em Cuba alguns anos antes. 

Deslocados para a via Dutra, os cadetes da AMAN tiveram um papel fundamental ao aglutinar em torno de sua imagem, exemplo e determinação forças militares ainda indecisas. Essa primeira e decisiva participação com as forças revolucionárias foi um evento emblemático para a Turma Nações Unidas, pois doravante, pela maior parte de nossa vida militar, trabalharíamos em prol da consolidação dos ideais que nortearam a Revolução: a construção de um Brasil novo, justo e moderno, anseio de militares e civis irmanados em prol do Bem Comum, que alguns dias antes inundaram com sua presença e voz as maiores cidades do país, em repúdio ao caos aparentemente inevitável. 

A Revolução de Março de 1964 transformou o Brasil. O Poder Nacional evoluiu em todas as suas expressões. As Forças Armadas se profissionalizaram; o Exército reorganizou-se, tornou-se maior, mais bem equipado, passou a ser ainda mais respeitado. Mas uma nova ameaça surgiu quando os comunistas derrotados apelaram para ações terroristas. As armas voltaram a ser usadas, com muitos militares colocando em risco a própria vida. Hoje travestidos de democratas, os guerrilheiros-terroristas de então foram sumariamente enxotados para outras querências, sepultando de vez a esperança que nutriam de estabelecer em solo pátrio um poder paralelo ao Estado. Esse expurgo definitivo garantiu a paz interna, pois nesse processo os brasileiros erradicamos por completo a lepra guerrilheira que ainda infesta alguns países irmãos. 

Esgotado o ciclo revolucionário, a pacificação deu-se por meio da Lei da Anistia, um documento juridicamente perfeito aprovado por um Congresso Nacional livre, soberano, voltado aos interesses nacionais. Os eventuais crimes cometidos por ambos os lados deveriam ser esquecidos em prol da estabilidade das Instituições e do interesse nacional. 

A pacificação retirou-nos do proscênio político. Voluntária e disciplinadamente retornamos à caserna, de onde nunca pretendêramos sair. Desde então, as Forças Armadas tornaram-se o “Grande Mudo”, não mais interferindo no processo político nacional, desta forma honrando e cumprindo os termos acordados na Lei da Anistia. 

A missão foi cumprida com pleno sucesso. O Brasil democratizado tornou-se uma das maiores economias do mundo, potência regional dinâmica e pujante. Grandes obras, grandes avanços sociais ainda hoje atestam os resultados ciclópicos de um período marcado por administrações eficazes, honestas, devotadas ao grande interesse nacional. Os irmãos brasileiros reconhecem isso de forma categórica, insofismável, pois ano após ano as pesquisas de opinião apontam as Forças Armadas como a Instituição Nacional mais respeitada e confiável do país. 

Nós, da Turma Nações Unidas, estivemos no epicentro de todo esse processo telúrico que sacudiu nosso país, e nossa vida militar foi por essa mesma razão moldada pelos fatos a que sumariamente aludi. Lamentavelmente a nação brasileira volta a viver momentos dramáticos, novamente erodida em suas bases por uma corrupção sem freios ou receios, capitaneada por um partido que aferrasse ao poder ainda que à custa de desmandos e malfeitos, sabotando e corrompendo as Instituições Nacionais, dessangrando a Pátria e tornando uma nação respeitada em motivo de chacota frente ao mundo civilizado. A que ponto chegamos, e até quando isso será tolerado? 

Hoje observamos o desenrolar dos fatos. E não estamos satisfeitos… Reescrever a História e enxovalhar os militares são objetivos gramscianos aos quais estamos atentos, revanchismo explícito que os derrotados pelas armas buscam alcançar no movediço terreno político, escorados em outros poderes dóceis ou venais. A tentativa de aviltamento da Forças Armadas prossegue sem tréguas, mas sem sucesso. Uma suposta Comissão da Verdade, que distorceu a missão legal que recebeu, com seus membros escolhidos a dedo para atingir esse fim, divulgou resultado ultrajante e indigno ao pretender denegrir chefes militares de passado limpo. Esse ato, por si só covarde, mendaz e digno do repúdio da História, é tão descabido quanto a omissão dos atores que, no mesmo período, sabidamente cometeram atos terroristas e deveriam, por força da lei que a criou, serem objeto de sua detalhada investigação. 

Entrementes, nós da Reserva permaneceremos como estivemos quando no serviço ativo, sempre atentos ao toque de reunir e avançar… 

Cinquenta anos depois de nossa formatura ainda conservamos acesa a mesma chama que nos guiou pela longa senda que trilhamos. Na caserna aprendemos, ensinamos e crescemos profissionalmente, o que sempre nos conduziu a novos patamares de conhecimento e desempenho. Forçoso é reconhecer que nessa jornada nunca estivemos sozinhos. Nossos Chefes, e foram muitos, merecem nosso respeito e reconhecimento, bem como os companheiros mais antigos e mais modernos que também muito nos ajudaram a crescer. Um destaque especial para a família, refúgio sagrado, porto seguro a nos amparar, aconselhar, apoiar e aplaudir nossas ações. Pais, irmãos, esposas, filhos, em suma, aquela família ampliada que nunca nos faltou, a qual agrego os amigos, verdadeiros irmãos por escolha. A todos vocês nosso respeito, agradecimento e homenagem. 

Encerrando este discurso, cumpre prestar uma última homenagem aos setenta e três precursores da TNU que deixaram o plano terrestre e nos assistem da eternidade, certamente a aplaudir esta reunião festiva. De cada arma o nome de um precursor simbolizará a saudade que sentimos de todos. Ao chamado que farei, responderemos “PRESENTE” como nossa homenagem e lembrança: 

Infantaria- Kencis Mold
Cavalaria- Macedo
Artilharia- Nelson
Engenharia- Nobuo Oba
Comunicações- Araújo
Material Bélico- Cuinhas
Intendência- Cláudio Braga
Resende, 13 de dezembro de 2014
Gen Ex Ref José Benedito de Barros Moreira

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