Merval Pereira
O Globo - 16/12/2014
  A presidente Graça Foster já perdeu as condições políticas para comandar a Petrobras. Além de várias as autoridades terem pedido uma mudança geral na diretoria, o assunto já é tema de conversas entre os partidos aliados, que se sentem acuados diante de tantas denúncias, que acabarão atingindo-os diretamente quando o Ministério Público anunciar a lista de políticos envolvidos no petrolão. Os que nada têm a ver com o tal esquema querem uma reformulação que permita a Petrobras se recobrar.
A própria Graça já pediu duas vezes para sair, mas a presidente Dilma, que é tão sua amiga que a trata por “Graciosa”, reluta em fazê-lo. Acho que a presidente está tentando levar o caso até o final do ano para poder tirar Graça Foster sem demiti-la formalmente, colocando a reformulação da Petrobras no pacote do novo corpo ministerial. Mas vai ser difícil levar a questão sem definição por mais 15 dias, devido ao surgimento de casos novos a cada momento, desde a assinatura de contratos em branco até mesmo permuta de propinas.

Ontem, mais um grupo, incluindo outro ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, foi denunciado pelo Ministério Público, inclusive o lobista Fernando Baiano, identificado como o agente do PMDB no esquema. De acordo com a força-tarefa da Operação Lava Jato, em julho de 2006, “solicitaram, aceitaram promessa e receberam, para si e para outrem, direta e indiretamente, vantagem indevida no montante aproximado de US$ 15 milhões” a Julio Camargo, também denunciado, a fim de que fosse viabilizada a contratação de um navio sonda com o estaleiro Samsung Heavy Industries Co., na Coréia, no valor de US$ 586 milhões para perfuração de águas profundas a ser utilizado na África.”

A Procuradoria da República constatou que chegou a US$ 53 nilhões toda a propina paga nesse caso, incluindo como beneficiários o doleiro Alberto Youssef, o operador do PMDB Fernando Baiano, o executivo Julio Camargo e Nestor Cerveró para viabilizar a construção de dois navios-sonda, propina paga por meio de contas offshores no exterior ou em nome de terceiros, com base em contratos simulados e falsas justificativas de câmbio, “tudo com o fim de evitar a identificação dos envolvidos, a natureza espúria do dinheiro e a sua atual localização, tornando seguro o produto do crime”.

A denúncia do Globo de domingo é exemplar da balburdia que impera na empresa. Já havia uma denúncia anterior, da revista Veja, a Petrobras fez uma comissão interna para investigar o assunto e deu um veredicto: nada havia acontecido. Meses depois, a própria empresa holandesa de plataformas, a SBM, diante de uma investigação séria de órgãos da Bolsa de Nova York, teve que admitir que deu propinas para diversos servidores da Petrobras, e chegou a listar os nomes dos que participaram da transação.

Pois até hoje a Petrobras diz que sua comissão não foi capaz de identificar se houve corrupção e quais de seus servidores foram corrompidos. Reflete uma completa desorganização na empresa que evidentemente precisa de uma chacoalhada generalizada, é será difícil a presidente Dilma evitar que sua amiga Graça Foster saia da empresa em meio a uma reformulação que já se torna urgente.

O que retarda sua saída não é apenas amizade da presidente por ela, mas, sobretudo, a dificuldade para encontrar um substituto que assuma essa imensa caixa-preta em que se transformou a Petrobras. Quem quererá assumir para depois descobrir, como aconteceu agora, que contratos para a construção de plataformas foram assinados em branco, ou que houve até mesmo troca de propinas entre seus diretores e fornecedores?

Como se sabe, a legislação dos Estados Unidos sobre corrupção é muito rigorosa, e os diretores da Petrobras e de seu Conselho de Administração, desde o início do esquema de corrupção implantado pelo PT em 2004, estarão sujeitos a punições severas. Além da própria empresa estatal, as fornecedoras envolvidas no esquema que tiverem ações na Bolsa receberão multas pesadas e sanções do mercado de ações em Nova York.

Ontem mesmo as ADRs da Petrobras foram suspensas da negociação em Nova York por terem caído perto de 10% no pregão, o mesmo acontecendo em São Paulo.
O grande problema de Dilma será escolher substituto que possa começar do zero trabalho de reorganização da empresa. Henrique Meirelles, Luciano Coutinho e o próprio Guido Mantega são alguns dos cotados.

A cada dia tem um escândalo, uma revelação, e com processos nos Estados Unidos, na Holanda, o presidente novo vai ter que ter controle absoluto sobre a empresa, demitir todo mundo que queira, refazer o Conselho de Administração, ou então correrá o risco de ser envolvido em processos que ele não terá nem ideia do que sejam.

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