Pobre país que, noite após noite, dorme inebriado de esperança e acorda entorpecido pela crueza da realidade que, dia a dia, lhe subtrai, paulatinamente, a expectativa de sonhar. Pobre país que se deixa enganar por justificativas irrisórias de acontecimentos inexplicáveis pela simples espera de estar frente ao último, fingindo ignorar que já, há muito, deparou-se com aquele que deveria ser o derradeiro.

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 Pobre país que convive com irregularidades e vilezas que o faz acreditar que as leis existem para disseminar e preservar as injustiças.

Pobre país dos ignorantes, que, na ausência de conhecimento, buscam na estupidez de suas escolhas tirar proveito daquilo que lhes é devido por direito.

Pobre país dos milhões de aposentados atormentados pelos empréstimos consignados, criação mórbida para subtrair-lhes uma pensão digna e iludi-los com o dinheiro fácil das financeiras, como se ele fosse um complemento salarial.

Pobre país de outros milhões de endividados, atraídos pelos créditos a longo prazo, que por terem as rendas totalmente comprometidas, serão alijados do encanto do consumo nos próximos anos.

Pobre país que perdeu a fé em seu destino e satisfaz-se com um presente maculado por erros que comprometem o seu futuro.

Pobre país dos Dirceus, dos Genuínos, dos Luizinhos e de tantos outros que iludiram uma geração inteira desfraldando a bandeira da ética e pregando a moralidade.

Pobre país dos Delúbios, dos Waldomiros, dos Marcos Valérios e dos Silvios que do alto de suas arrogâncias e da torpeza de suas fraudes mostraram que todas as siglas políticas são iguais, desde que lhes sejam facultadas as chaves do poder.

Pobre país dos Paulos, dos Barbalhos, dos Garotinhos, dos Rorizes e dos Zecas que concluem seus mandatos acossados pelo Ministério Público por irregularidades cometidas ao longo de seus governos.

Pobre país das CPIs, onde as apurações satisfazem egos e massageiam vaidades, e apresentam, nos holofotes, defensores intransigentes da probidade, como se as conclusões não obedecessem ao velho ritual dos acordos antecipados na perfídia das alcovas parlamentares.

Pobre país dos mensalões, dos dólares guardados nas partes íntimas, da compra de dossiês e dos dossiês "arquivo de dados", do caso Alstom e o metrô de São Paulo, do advogado amigo do presidente e a compra da VarigLog, dos Fábios Luis e dos mais de 200 grandes escândalos surgidos nos últimos anos, mal-apurados ou não apurados, em que se sacrificam bagrinhos para a preservação de tubarões.

Pobre país da mãe do PAC e do pai dos pobres, estratégias marketeiras que dissimulam surrados rótulos eleitoreiros para divulgar programas antigos e projetos óbvios, como se desenvolver o país e praticar a justiça social não fossem obrigações constitucionais dos governantes.

Pobre país onde pequenas minorias impõem suas vontades e, paparicadas por políticos inescrupulosos, pretendem desqualificar, de uma só vez, valores, costumes e tradições, firmados e cultuados ao longo da história.

Pobre país onde sob o subterfúgio da discriminação a discordância em procedimentos é apresentada como delito, como se a liberdade de expressão fosse prerrogativa apenas daqueles que se nomeiam discriminados.

Pobre país onde a esperteza e a "lei da vantagem a qualquer custo" já ultrapassam os meios empresariais e políticos, chegando ao ambiente doméstico, onde estão sendo passadas de pai para filho como herança familiar.

Pobre país que assiste seus presidentes do Legislativo Federal, Câmara e Senado, Severino e Renan, serem afastados de seus cargos sob suspeita de corrupção e, mesmo assim, serem cortejados pelo chefe do Executivo Federal, como se seus modos fossem naturais na república dos imorais.

Pobre país em que um bacharel reprovado duas vezes em um concurso público para juiz poderá, por decreto presidencial e anuência do legislativo, ser transformado em ministro do Supremo Tribunal Federal.

Pobre país de tão poucos Odilons que, mesmo ameaçados e sabendo-se marcados, vão além de suas obrigações e, renunciando a coisas que todos outros almejam, devotam ao cumprimento do dever os melhores dos seus dias.

Pobre país de tão escassos Helenos que abdicando de cargos e posições de relevo, ainda que aspirados por toda uma existência, utilizam-se da simplicidade corriqueira aos soldados para dizer o que é de conhecimento comum, porém, que ninguém arrisca falar.

Pobre país de tão reduzidos Jatenes que pela inteireza de caráter são, há um só tempo, referência de capacidade cientifica e de procedimento como homem público.

Pobre país de tão parcos políticos honestos que adentrando na política desprovidos de interesses financeiros, não se deixam levar por maquiavelismos partidários e quando dela se afastam, saem com a cabeça erguida e a consciência limpa, exceções dificilmente distinguidas em um meio maculado pela improbidade que não é possível citar um nome sequer.

Pobre país onde honra, honestidade e caráter deixam de ser valores cultuados como atributos e, aos poucos, passam a ser vistos como aberrações.

 

Hélio de Souza Filho – Pós-graduado em Política e Estratégia

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