Revista VEJA – Carta ao Leitor – 29/10/2014

Em sua edição de 10 de setembro, VEJA escreveu na Carta ao Leitor: “O governo de Dilma Rousseff pode estar na iminência de enfrentar um escândalo de proporções semelhantes às do mensalão”. Começavam naquela semana os depoimentos à Polícia Federal e ao Ministério Público de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, como parte de seu acordo de delação premiada. Costa, antecipou VEJA, disse aos delegados da PF e aos promotores que nos governos de Lula e Dilma Rousseff a Petrobras foi usada como fonte de dinheiro com que o PT comprava a fidelidade de aliados no Congresso Nacional. Em depoimento posterior, também revelado com antecedência pelos repórteres de VEJA, Paulo Roberto Costa relatou aos policiais que Alberto Youssef, o doleiro preso que fazia o papel de banco clandestino do grupo, seria capaz de dar ainda mais detalhes sobre o funcionamento do esquema de corrupção e as responsabilidades de cada um dos envolvidos.

Nesta edição VEJA publica com exclusividade trechos inéditos da delação premiada de Youssef feita na última  terça-feira:

   - O Planalto sabia de tudo – disse Youssef.

   - Mas quem no Planalto? – perguntou o delegado.

   - Lula e Dilma – respondeu o doleiro.

    Youssef ocupa uma das celas da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, de onde, nas últimas duas semanas, tem sido retirado e levado à sala de depoimentos. Ele está com a cabeça raspada, magro, abatido. Sua rotina consiste em conversar com seus advogados e com os outros três presos ocupantes de celas próximas. Demonstra ter uma memória prodigiosa nos depoimentos, que podem chegar a durar quinze horas. Consola-se com o fato de ter aceitado o pedido comovido das duas filhas para que recorresse à delação premiada, instrumento jurídico em que um acusado tenta obter penas mais brandas em troca de revelações, indícios, provas e pistas úteis para a investigação.

   Nos últimos depoimentos, Youssef disse que Lula participou da montagem do esquema de corrupção na Petrobras e que Dilma Rousseff sabia de tudo quando era ministra-chefe da Casa Civil e, depois, já eleita presidente da República. A sala despojada, a rotina do registro das informações dadas pelo doleiro, o trabalho disciplinado, quase litúrgico, dos delegados e promotores emprestavam à cena uma falsa sensação de normalidade. Mas é explosivo o que foi dito, registrado e anexado ao processo de delação premiada de Youssef. O conteúdo logo estará nas mãos do juiz Sérgio Moro, responsável pelo caso, em que passam a constar como suspeitos um ex e uma atual e, quem sabe, futura presidente da República.

   Pelo papel de operadores no esquema de corrupção, pela qualidade e quantidade das provas que os depoentes estão entregando e pela acusação não mais genericamente aos governos, mas às figuras de Lula e Dilma, as consequências do escândalo são difíceis de mensurar.

É verdade tudo o que Costa e Youssef dizem? Como beneficiários da delação premiada, eles não têm vantagem alguma em mentir. A própria Dilma aceitou a delação como verdade, a ponto de afirmar em debate na TV o seguinte: “(...)quando se verifica que houve propina para o PSDB(...)”. Portanto, pelo mesmo critério da presidente, não poderá ser surpresa se “se verificar” que Youssef está dizendo a verdade sobre ela e Lula.

   VEJA publica essa reportagem às vésperas do turno decisivo das eleições presidenciais obedecendo unicamente ao dever jornalístico de informar imediatamente os fatos relevantes a que seus repórteres têm acesso. Basta imaginar a temeridade que seria não trazê-los à luz para avaliar a gravidade e a necessidade do cumprimento desse dever.

  

 

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