Por Míriam Leitão e Marcelo Loureiro
O Globo - 23/10/2014

O melhor da democracia é a democracia. Perto de eleição há sempre um ambiente inflamado de debates, ânimos exaltados, divergências, e cada lado acha que se o outro vencer será o fim do mundo. Há escolhas mais sensatas que outras, mas a democracia tem seu jeito de ir arrumando as coisas e serenando os espíritos após o período eleitoral. O maior risco é não ver as ameaças concretas.

Há líderes na cena política e a democracia precisa deles. Não são condutores seguidos cegamente como no passado, porque as novas formas de comunicar, o poder na mão de cada cidadão é muito maior na sociedade da informação. Mesmo assim, há líderes que degradam a democracia, a enfraquecem ou com o comportamento desviante ou porque não são democratas, mas apenas se aproveitam dela.

O pior risco da democracia é perdê-la. Nem sempre acontece da forma explícita, como no Brasil, em que de repente chegaram os tanques e o país precisou atravessar um longo deserto de 21 anos até o fim daquele regime. Às vezes, o perigo chega devagar, vai solapando as instituições, transformando sua natureza. Foi esse o processo que enfraqueceu as bases democráticas de alguns vizinhos nossos. As eleições ficam viciadas, as instituições fingem que funcionam, mas a democracia vai perdendo sua essência. É isso que aconteceu na região e não estamos livres que aconteça aqui. O Brasil tem demonstrado ter instituições mais fortes. Mas não é uma fortaleza inexpugnável. Também nós temos que trabalhar para proteger nosso patrimônio. Melhor evitar o que aconteceu com Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina. Em graus diferentes, a democracia deles foi perdendo qualidade, e em alguns países já nem merecem ser definidas com esse nome. E o ataque é sempre da mesma forma: tudo começa a morrer quando se mata o contraditório. A imprensa livre é um dos mais poderosos antídotos contra os excessos dos governantes. E é sempre o primeiro alvo.

Foi a democracia que produziu avanços impressionantes como tenho relacionado aqui com uma certa frequência: uma nova Constituição, a estabilização, a ampliação de direitos sociais, a universalização do ensino do primeiro grau, a inclusão social. O projeto certo é aquele que preserva o que está conquistado e segue adiante atrás dos muitos problemas que ainda temos que superar.

Infelizmente não temos conseguido um ambiente eleitoral em que as questões relevantes sejam aprofundadas. Os estereótipos e as simplificações acabam tomando o espaço mais destacado. Esse ambiente de vilão e salvador não reflete os fatos, não ajuda os avanços, mas é o que tem prevalecido, porque tem trazido dividendos eleitorais.

Os fatos da história recente são transfigurados de tal forma que o país não vê sua própria trajetória. Tudo é transmutado em nome da manutenção do poder. O receituário tem sido negar os méritos de outros e exaltar apenas os próprios; atribuir-se o início do mundo e apropriar-se dos feitos alheios; dividir o país entre nós e eles para, desta forma, mais facilmente manipular as convicções.

Uma eleição pode ser uma grande festa da democracia, ou pode criar fendas no país difíceis de serem fechadas. Na Venezuela foram feitas muitas eleições, enquanto o país foi perdendo sua democracia. No México do PRI, também havia eleições e os vencedores eram escolhidos a dedo por uma oligarquia partidária.

O melhor da democracia é ela ser uma sociedade aberta. Está aí a sua força e a sua vulnerabilidade. Como proteger a democracia dos que não a respeitam sem criar limitações que a sufoquem? Vivemos dias intensos e eles estão terminando com várias sequelas. Precisaremos de muita sabedoria para curá-las e continuar a construção do futuro. 

 

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