Conselho de Itaipu é típico cabide de empregos
EDITORIAL O GLOBO - 22/10/14
Nomeado pela ministra Dilma, João Vaccari Neto, personagem do escândalo na Petrobras, ocupa cargo de conselheiro na usina binacional
Seria injusto acusar apenas o PT de utilizar-se de conselhos de administração de estatais para abrigar correligionários, aliados políticos e similares. Outros governos foram pelo mesmo caminho, incluindo os da ditadura militar.O artifício costuma ser usado para melhorar o rendimento de ministros, obrigados, assim como o presidente da República, a obedecer a limites salariais hipócritas. O mesmo vale para parlamentares, induzidos a se valer de copiosas verbas de gabinete para complementar os subsídios.Mas se o PT não foge à regra, ele exagera. O que acontece no Conselho de Administração da usina Itaipu Binacional é exemplar — do que não deve ser feito, por suposto. Este conselho entrou no noticiário porque lá se encontra, desde 2003, nomeado pela então ministra das Minas e Energia Dilma Rousseff, João Vaccari Neto, estrela em ascensão no escândalo da Petrobras, personagem também de outras histórias estranhas.

Oriundo do braço sindical petista, com atuação na categoria dos bancários — origem também, entre outros, do mensaleiro foragido Pizzolato, de Berzoini, e do falecido Gushiken — o discreto Vaccari, desde 2010, responde pela acusação de ter desviado dinheiro da Bancoop, cooperativa habitacional de sindicalizados. É acusado de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

À folha corrida de Vaccari serão acrescentadas outras denúncias ao ser encerrado o inquérito da Operação Lava-Jato, em que ele aparece, segundo testemunhos do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, como recolhedor da parte do leão que cabia ao PT no pagamento de propinas por empreiteiras contratadas pela estatal.

João Vaccari, portanto, parecia dono de um currículo à altura do cargo de tesoureiro da legenda, já ocupado por Delúbio Soares, mensaleiro condenado em fase de cumprimento de pena. O “secretário financeiro” do PT foi tirado de um semianonimato ao ser citado por Aécio Neves no debate com Dilma promovido pela Record. “Semi” porque Vaccari já fora citado também como intermediário em negócios pouco claros com fundos de pensão de estatais, bilionário braço financeiro do sindicalismo petista.

O ex-bancário não está sozinho no conselho de Itaipu. Lá também se encontram o ministro-chefe da casa Civil, Aloizio Mercadante, petista; o pedetista histório Alceu Collares, ex-governador do Rio Grande do Sul e, entre outros, o filho do ex-governador do Paraná Orlando Pesutti, do PMDB. Todos recebendo R$ 20.804,31 por participação nas reuniões do conselho.

Mais um caso para sedimentar a ideia de que esses conselhos são sinecuras indevidamente financiadas pelo contribuinte. O escândalo na Petrobras levou à redescoberta de Vaccari e, por tabela, jogou luz sobre o conselho de Itaipu. Esta história não para de produzir surpresas.

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