Merval Pereira
O Globo - 05/10/2014
 
O candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, chega no dia da eleição em crescimento não apenas no primeiro turno, quando supera a adversária Marina Silva do PSB de acordo com as últimas pesquisas, mas principalmente na simulação do segundo turno, o que faz com que o voto útil oposicionista passe a ser para ele, e não para Marina.
Com isso, é provável que aumente a diferença a seu favor na última hora, sem haver o perigo de que votos de Marina migrem para a presidente Dilma, fazendo-a vencer no primeiro turno. Essa hipótese é afastada pelos dois institutos de pesquisas, que registraram sua estagnação nas últimas rodadas entre 44% e 46% dos votos válidos, votação que, se confirmada pelas urnas, é menor do que a registrada na eleição de 2010.

As pesquisas indicam que o receio de que eleitores de Marina poderiam ir para Dilma é infundado, o que também retira de Marina o poder de influenciar diretamente na eleição. Os eleitores que saíram do voto nulo e em branco para apoiá-la parecem definitivamente participantes do jogo eleitoral. E do lado da oposição.

Ela teria, no entanto, obrigatoriamente que fazer um gesto político em direção ao companheiro de oposição que estará no segundo turno, e se mais uma vez decidir ficar em cima do muro estará confirmando que é uma liderança política não gregária, que se recusa ao jogo democrático.

Em 2010, ela ainda tinha a expectativa de, distanciando-se dos partidos que polarizam a cena política, ficar marcada como a terceira via democrática para uma próxima eleição. Só que essa eleição chegou e ela será derrotada, se as pesquisas estiverem corretas.

Nesse caso, sair da disputa sem apoiar o projeto oposicionista que a superou nas urnas, numa eleição tão apertada quanto essa, é ajudar que o grupo político que está no poder continue predominando. Da mesma forma, o candidato tucano terá a obrigação de apoiá-la caso as pesquisas estejam erradas e Marina chegue ao segundo turno.

A tendência de crescimento de Aécio e declínio de Marina é registrada na simulação do segundo turno: no Datafolha, a diferença de Dilma para Marina era de sete pontos entre os dias 1 e 2, e passou para 10 pontos nessa última pesquisa. Quando a presidente enfrenta Aécio Neves, a distância vai se estreitando: caiu de 11 pontos para 6 pontos em uma semana.

No Ibope, a diferença está em oito pontos a favor de Dilma contra os dois adversários, mas também nesse caso vai aumentando em relação a Marina – que já esteve até mesmo à frente da presidente Dilma, como a única que poderia derrotá-la – e sendo reduzida em relação ao tucano.

Uma simulação do que seria uma disputa entre Marina e Aécio num segundo turno, impossível de acontecer, mostra, no entanto, como o eleitorado de oposição está se passando para o lado do tucano: Aécio, que já perdera para Marina por 24 pontos, agora sairia vencedor dentro da margem de erro, por 39% a 36%.

A subida de Aécio Neves está sendo impulsionada pela tentativa de reverter a eleição em Minas Gerais, tarefa praticamente impossível. Mas a redução da diferença entre Fernando Pimentel do PT para Pimenta da Veiga do PSDB se deve à intensificação da campanha mineira. Perdendo em Minas, Aécio perde também uma boa arma eleitoral para o segundo turno, pois terá que se referir à sua experiência administrativa exitosa com a retaguarda aberta pela derrota em seu território.

Em contraposição, a campanha da presidente Dilma ganhará um bom mote eleitoral com a vitória de um petista em Minas Gerais, terra onde nasceu. Poderá reforçar esses laços com o eleitor minero num segundo turno, dificultando a caminhada de Aécio Neves, que terá que obter uma boa votação no sudeste para superar a defasagem de votos no nordeste.

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