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Categoria: Diversos
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 Por Claudio Leal
Integrante de três governos da ditadura militar, o coronel reformado do Exército e ex-ministro da Justiça Jarbas Passarinho, 88 anos, não esconde uma visão cética sobre as agitações políticas de 1968: "Eles acabaram não dizendo a que vieram". Em depoimento a Terra Magazine, Passarinho analisa as transformações da Era de Aquarius, a guerrilha no Brasil e a Lei de Anistia.

 

 

Texto completo  


- Você não pode comparar o movimento de 68, na França, com a guerrilha brasileira. O primeiro teve uma simpatia enorme dos pais e dos professores, como diz Raymond Aron. Mas eles chegaram ao ponto de dizer: "É proibido proibir".

O ex-ministro comenta o debate sobre a revisão da Lei de Anistia, para punir crimes de tortura. O ministro da Justiça, Tarso Genro, defende uma mudança legal. "A Lei de Anistia é uma lei política. Ela incide sobre os crimes políticos. A tortura não pode ser considerada um crime político", disse Genro, em 15 de maio. Passarinho critica e contesta essa interpretação:

- É a abertura de todas as cicatrizes. Morreram do lado de cá 200 também. Quem está pagando às famílias dos que eles mataram? (...) Essa gente falar em tortura? Como se eles fossem os puros? Eles torturaram também! - afirma, citando a guerrilha do Araguaia.

Veja também:
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Quando ocupava o ministério do Trabalho, no governo Costa e Silva (1967-1969), Jarbas Passarinho participou da reunião que discutiu o texto do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, marco da restrição às liberdades individuais no País.

Em seu livro de memórias, "Um híbrido fértil", Passarinho relata: "Quando chegou minha vez de opinar, não me furtei às palavras comprometedoras (...) Preferi não ser monossilábico. Disse, sem medo de mostrar que estávamos ingressando na ditadura: - A mim me repugna, senhor presidente, enveredar pelo caminho da ditadura, mas já que não há como evitá-la, às favas os escrúpulos de consciência".

- Foram coisas que se somaram - diz sobre a origem do AI-5, referindo-se não somente ao crescimento da guerrilha urbana naquele ano.

No governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), Passarinho foi o primeiro ministro do regime militar a admitir, publicamente, a existência de tortura. Em entrevista ao repórter Reali Júnior, afirmou que ouvira notícias de sevícias, mas que não era uma prática institucionalizada. Relata a Terra Magazine uma experiência pessoal diante da tortura de uma estudante da UnB (Universidade de Brasília).

- Quando deram o choque, ela caiu em coma. Fui apurar o fato e pedi com urgência ao presidente Médici uma audiência. (...) Fui ao presidente e disse: "Presidente, trago um caso concreto. Acho que nem o senhor pode passar pra história como torturador institucional, nem seu ministro". Na minha presença, ele pegou o telefone e ligou para a Polícia Federal, que era a única que ele tinha comando direto.

Ex-governador do Pará e militar da linha moderada, Passarinho tem reserva generosa de ironias, sempre lançadas num papo em que manipula citações de intelectuais. Sobram frases levemente envenenadas para o general Assis Brasil, Leonel Brizola, Fernando Gabeira e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- Como disse o Delfim (Netto), ele (FHC) foi auto-exilado. Saiu do Brasil como o Delfim dizia: com passaporte e bagagem despachada (risos).

Em sua opinião, a chegada do presidente Lula ao poder não deve ser elencada entre as heranças de 68. Para ele, o "bruxo" Golbery do Couto e Silva, criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), tem sua parcela de influência.

- Golbery fez tudo para conquistar o Lula. E a mudança de posição do próprio Figueiredo foi quando Lula começou a fazer as greves.

Jarbas Passarinho reside atualmente em Brasília. Lê o sociólogo francês Raymond Aron e planeja escrever um "artigo encorpado" sobre 1968.

Leia a íntegra da entrevista.

Terra Magazine - O senhor já tem falado um bocado sobre Maio de 1968. Quais aspectos acha que não foram abordados nessa avalanche de comemorações?
Jarbas Passarinho - No problema da França, meu mestre é o Raymond Aron (1905-1983, sociólogo francês). Ele fez a análise da revolta - inicialmente universitária, depois associada aos trabalhadores. Aron foi contra. Na ocasião, rara voz contrária. Ele faz um estudo muito interessante no livro "La révolution introuvable". De saída, mostra que a universidade deve ser mantida pela tolerância mútua e uma disciplina aceita normalmente pelos estudantes. No caso, os dois pilares foram quebrados. Os estudantes começaram em Naterre, seguiram para Paris e foram à Sorbonne. Ocuparam as duas universidades e o governo do (Charles) de Gaulle chegou ao ponto de quase ir à renúncia. E, no meio disso, se destaca um rapaz carismático, (Daniel) Cohn-Bendit.

Dany, le Rouge.
Ele chega a ser entrevistado por Sartre. Intelectuais e professores da esquerda se solidarizaram, inclusive um que está vivo, o (Alain) Touraine, que veio aqui ao Brasil.

Ligado a Fernando Henrique Cardoso.
E disse que o governo de Fernando Henrique era uma merda. Pra ele, "merda" é uma palavra comum. Por aí, você vê o tipo de aceitação de divergências.

A luta contra a cátedra vitalícia não era outro ponto?
Exatamente. Mas eles acabaram não dizendo a que vieram. Cohn-Bendit dizia que ele trabalhou pelo comunismo obsoleto. O comunismo também não servia a ele. Claro que o principal objetivo era a universidade liberal. Mas eu fui ler agora a entrevista dada por Cohn-Bendit. Perguntaram: "O que vocês queriam? Qual era a finalidade?" Ele: "Alguma coisa". A finalidade era "alguma coisa". Aí aparece o seu Zuenir Ventura (jornalista), que, estou sabendo, foi comunista de carteirinha, e analisa com dois livros - um mais antigo (1968 - O ano que não terminou), outro mais novo (O que fizemos de nós).

 


O sociólogo francês Raymond Aron: na contramão de 1968 (reprodução)

O que achou?
Primeiro, ele fala das conquistas do 68. Entre essas conquistas, aparece a liberdade sexual e os direitos das minorias. Na questão das minorias, há a história dos homossexuais, que mudaram agora os símbolos. Esse grupo acrescentou os travestidos, até criou umas letras (GLS) e o horizonte ficou resolvido com o arco-íris. Ao lado dessas vantagens, há o que ele (Zuenir) chama de duas "pragas": a droga - a intensificação do uso das drogas - e a outra miséria, pra surpresa minha, é a luta armada no Brasil.

Mas a luta armada não é anterior a 1968?
Pois é. Começou em 1967. As ações armadas começaram mesmo em 1967. Tem um livro que, infelizmente, no tempo em que fui governo, não circulou. Mas nós não tínhamos muito conhecimento do que fazia o SNI (Serviço Nacional de Informações) ou, sobretudo, o que chamamos de comunidade de informações. Então, o SNI proibiu a publicação de um livro, no Brasil, que eu tenho como modelo.

Qual é?
"A luta armada no Brasil - de 1967 a 1973". Esse livro foi premiado em Cuba. Cada um citou as suas proezas, inclusive a morte do (capitão norte-americano Charles) Chandler, etc. Só fugiu desse livro... Tenho pra mim que meu amigo (Fernando) Gabeira foi o copidesque desse livro (risos). Eles mataram o Chandler, mataram por engano o major alemão (Edward von Westernhagen) e essa coisa que eles esqueceram: o primeiro ato foi em 1966, em Guararapes. Nesse livro, premiado pela Casa de las Américas, eles admitem que foi antes do AI-5.

O AI-5 e o fechamento do regime vieram em função da luta armada ou da pressão existente nas ruas?
Foram coisas que se somaram. Uma interpretação que eu li, com interesse, é a seguinte: o movimento de 1964 apanhou de surpresa a garantia daquele general da Casa Militar, que falava no tripé em que sustentaria o governo Jango: a área sindical, a infiltração no Exército e o legalismo do governo.

Era o dispositivo militar do general Assis Brasil.
Esse mesmo. Chamavam um "cavalo branco" pra ele, né? Uísque. (risos) Não tinha essa marca? Ele era chamado de "Cavalo Branco". Estava tão certo dessa garantia que não conseguiu uma só greve geral dos trabalhadores... Os militares se uniram todos. Jango terminou sendo deposto sem um tiro.

Havia uma rede legalista...
Do Brizola. Eles eram divididos. Tenho outro livro precioso. Este que já te falei não foi vendido no Brasil. Era dos exilados brasileiros em Cuba. Cada um contava suas proezas como vanglória, inclusive a morte do sentinela do II Exército (Mário Kosel Filho). Eles soltaram uma viatura aberta, colocaram os explosivos e, ao contrário dos muçulmanos, que se matam pra matar os outros, salvaram a própria vida e aproveitaram o declive que dava pra porta do quartel do II Exército. Engrenaram a marcha e saltaram do carro. E o carro desceu a ladeira. Mas parou diante de uma árvore. O sentinelas, principalmente um deles, tiveram a idéia de ir ver. Quando chegou junto, houve a explosão.

Ele morreu e cinco ficaram gravemente feridos. Isso é contado como proeza por um camarada (Diógenes do PT) que, no primeiro governo do (Olívio) Dutra, no Rio Grande do Sul, se envolveu num escândalo com o jogo do bicho. Então, a idéia que eu li é a seguinte: eles foram apanhados de surpresa, porque achavam que estavam totalmente garantidos contra qualquer golpe. E aí aparece (Salomão) Malina, comunista famoso e membro da FEB (Força Expedicionária Brasileira). Ele disse: "Eles deram um golpe antes de nosso golpe". Entra o livro precioso que eu te falei, do Jacob Gorender.

"Combate nas trevas".
Se você pegar o oitavo capítulo dele, o título é: "A pré-revolução e o golpe preventivo", onde ele mostra o Grupo dos Onze - que eu acho que é uma das razões do Brizola não ter dado certo, porque ele saiu desse processo mal. Fez um grupo dos 11, em vez de dez (risos). Eles passaram a se organizar a partir de 1965. Em 1966, houve o atentado do aeroporto de Guararapes. Portanto, antes de 1968. Esse livro de Cuba mostra que vai das primeiras organizações de guerrilha até a última, a do Araguaia.

E isso confirma a tese do golpe preventivo?
Confirma. Bom, eu tive uma conversa com dom Hélder, em Olinda. Ele me recebeu muito bem. Eu era ministro da Educação. O AI-5 em vigor. Perguntei a ele se a esquerda que estava adepta da Igreja não tinha a capacidade de fazer uma oposição democrática. Ele disse: "Não. Porque aí vem a violência. É a violência número 2, porque a número 1 é de quando vocês depuseram Jango". A explicação era essa. A violência 2 era uma resposta à violência 1.

Por que o trabalho dos Autênticos do MDB, que fizeram essa resistência democrática, hoje é menos valorizado do que a guerrilha?
Porque os autênticos se desmoralizaram por eles mesmos. Um dos grandes líderes dos autênticos era Jader Barbalho.

Jader Barbalho não era do grupo autêntico. Os líderes dos autênticos eram Chico Pinto, Alencar Furtado...
Líder, não. Era um dos permanentes. Mas houve autênticos que permaneceram com o ponto de vista deles até o final. Chico Pinto...

Lysâneas Maciel...
Lysâneas eu chamava de "inimigo da humanidade" (risos). Quando ele começava a falar, já estava babando de ódio. Tive uma parada com ele, numa convocação que me fizeram como ministro da Educação. As comissões de Educação da Câmara e do Senado. Lá o pessoal da Arena tomou logo a iniciativa de se inscrever pro debate. E ele, quando se inscreveu, já estava atrás do 12°. Ele reclamou logo ao (Gustavo) Capanema, que conduzia os trabalhos. Ele disse que eu tinha aplicado o 447. Nunca foi verdade.

O senhor deixou de aplicar o decreto-lei 477 na UnB (Universidade de Brasília)?
Quando chegamos ao governo, a UnB tinha a marca da invasão. Foi um dos erros que nós praticamos. Quando fui convocado pelo presidente Médici, eu até estava numa conferência internacional de ministros do Trabalho, nos Estados Unidos. Ele telefonou pra me convidar. Lembrei a ele que havia um fuso horário. Fui acordado às 5h (risos). Ele gostava muito de mim. E me disse: "Quero você em meu ministério. Você já fez o máximo pelo processo revolucionário. E Delfim que lhe deve agradecimentos". Por causa daquela frase que usei, quando cheguei a São Paulo: "O Tietê não é o Sena" (na época da greve de Osasco). Não teve nenhuma greve combinada com as guerrilhas. Agora, o grupo Autêntico tinha realmente convicção. É diferente do Cohn-Bendit.

Régis Debray, autor de "A Revolução na revolução", também ficou mais conservador.
Foi um oportunista do Che Guevara. Na verdade, ele achou que se chegava ao poder rapidamente, como Che fez em Cuba, descendo a Sierra Maestra. Antes de Cuba, o Che tentou na América Central. Não se deu bem.

Como o senhor vê a ascensão da geração de 68 ao poder?
Estão todos aí... Você não pode comparar o movimento de 68, na França, com a guerrilha brasileira. O primeiro teve uma simpatia enorme dos pais e dos professores, como diz Raymond Aron. Mas eles chegaram ao ponto de dizer: "É proibido proibir". Eu escrevi, nessa ocasião, um artigo. Quando eles vieram de Nanterre à Sorbonne, tomaram o edifício e começaram a depredar. E tinha lá uma placa de um herói de guerra francês. Arrancaram. "Isso é passado!". A mesma pergunta que você faz, eu me faço agora: por que o Cohn-Bendit, que era um dos líderes mais famosos de 1968, hoje é um deputado do parlamento europeu, perfeitamente conservador? Ele nega, diz que não é de direita. Mas o papel dele é de claro antagonismo ao que defendeu antes.

» 2ª parte da entrevista de Passarinho: Golbery, FHC, Lula, SNI, tortura, Anistia...

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