EDITORIAL
 O GLOBO - 19/09/2014 

Com propostas genéricas e imprecisas, candidatos passam a impressão que tentam esconder a própria fragilidade de seus projetos
A primeira vítima numa campanha eleitoral é a verdade. A sentença, como toda frase feita, é arbitrária. Mas serve para resumir o teor de ataques petistas a Marina Silva (PSB), a maior ameaça, até agora, ao projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Diante do escasso efeito, porém, a agressiva estratégia seria revista. Também porque surgiram sinais na última pesquisa Ibope-Rede Globo de que as distorções maniqueistas de filmetes produzidos para “desconstruir” Marina estariam prejudicando a própria Dilma. Um tiro pela culatra.

A candidata-presidente, então, tenderia a ser mais propositiva. Se assim for, ganharão os eleitores. Dilma já tem feito a defesa de políticas e programas isolados, enquanto dá balanços positivos de atos do governo. Ao tratar, por exemplo, do Supersimples — desburocratiza a vida do pequeno empreendedor e estabelece uma carga tributária leve sobre ele —, a candidata se compromete a criar uma “rampa” tributária, a fim de o pequeno empresário não ser punido punido se crescer. É boa iniciativa.

Mas o que se quer saber mesmo são questões macroeconômicas, da própria filosofia de condução do país por Dilma: insistirá no intervencionismo? O Banco Central continuará uma espécie de sucursal do Planalto? Vai combater como preciso a inflação, ou a elevada taxa de 6,5% anuais foi mesmo convertida em centro da meta? A contabilidade criativa persistirá tornando cada vez menos transparente as contas públicas? É ingênuo esperar que haja respostas diretas. Mas PT e candidata podem ter certeza que a omissão em torno desses e outros assuntos cruciais soará como confirmação de que o segundo mandato será um videoteipe do primeiro, apesar do fracasso da política econômica, expresso na elevada inflação, no baixo crescimento — que já começa a afetar o emprego —, nos investimentos anêmicos, nos desequilíbrios externos e na hemorragia fiscal.

Marina Silva e Aécio Neves (PSDB) também precisam expor com clareza, e aos detalhes, qual o programa de seu eventual governo. Marina divulgou uma primeira versão de propostas e promete uma nova, mais detalhada.

Pode aproveitar para explicar de onde virão os R$ 150 bilhões que, se estima, custarão, em quatro anos, propostas que faz, sem incluir um amplo programa de mobilidade urbana para cidades com mais de 200 mil habitantes. Deveria, ainda, esclarecer a cariocas e fluminenses se irá mesmo tirar royalties do Rio, reduzir investimentos no pré-sal e interromper as obras de Angra3.

Aécio deve divulgar seu programa semana que vem. Mas anuncia-se que será genérico — um erro. Paira a sensação de que a falta de objetividade e clareza em propostas esconde a sua própria fragilidade. Tem sido assim em eleições. Mas hoje a situação do país exige uma dose bem maior de franqueza e honestidade.

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