Por Merval Pereira - O GLOBO
Superados os momentos de glória da ministra Dilma Rousseff na CPMI dos Cartões Corporativos, quando se colocou como uma heroína que resistiu à tortura, mentindo para não entregar seus companheiros de luta armada, o debate político vai se recolocando, a partir do fato de que o decorrer das investigações mostrou que ela mentiu quando garantiu que não houve um dossiê sobre os gastos pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O depoimento do ex-chefe de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Nunes Pires deixou claro que o dossiê que ele enviou para o assessor do senador Álvaro Dias saiu de seu computador sem alterações. Isto é, o documento que consubstancia um dossiê foi preparado mesmo pelo grupo de trabalho coordenado por Maria Soledad, a Marisol, diretora de Recursos Logísticos e chefe de gabinete de Erenice Guerra, a secretária-executiva e principal assessora da ministra Dilma Rousseff.

Texto completo  

Mas a questão foi recolocada também do ponto de vista histórico, a partir de um corajoso artigo do historiador Marco Antonio Villa no jornal "Folha de S. Paulo", onde ele contesta a tese de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Também o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, escreveu um artigo no GLOBO na mesma linha de contestação, ressaltando o papel da sociedade civil organizada e dos partidos políticos na luta pela redemocratização.

Em diversas oportunidades, membros do governo vêm encontrando maneiras de exaltar seu passado guerrilheiro, estimulando uma confrontação sem sentido. O historiador Marco Antonio Villa afirma que a luta armada "não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum".

E que "a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime. O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva".

Villa ressalta que "todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado". As eventuais menções à democracia estavam ligadas à "fase burguesa da revolução".

A exaltação da luta armada sempre foi um instrumento político usado pela ministra Dilma Rousseff. Na transmissão de cargo no Gabinete Civil, ela e José Dirceu trocaram elogios, com destaque para a atuação na luta arma.

Dirceu chamou-a de "companheira de armas", se referindo à atuação de Dilma como guerrilheira da Colina, que tem entre seus feitos o roubo do cofre do ex-governador paulista Adhemar de Barros.

Recentemente, em cerimônia para julgar a anistia política de estudantes perseguidos pela ditadura militar, o ministro da Justiça, Tarso Genro, defendeu que os torturadores do regime militar sejam julgados pelos crimes que cometeram no período, negando que a anistia tenha perdoado esses delitos.

Antes, ele havia batido boca com o deputado Jair Bolsonaro, que o chamou de "terrorista". O mesmo Bolsonaro já protagonizara inaceitável episódio, levando para o plenário da Câmara o tenente-coronel do Exército Lício Augusto Ribeiro, que prendeu e interrogou em 1972 o então guerrilheiro do Araguaia José Genoino.

Ministro da Comunicação, Franklin Martins, um dos autores do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, também resolveu entrar nessa disputa inútil e deu uma declaração, a propósito dos 40 anos dos acontecimentos de 1968: "É melhor ser herdeiro de 68 do que de 64. Ter uma ditadura é muito pior do que ser herdeiro de um movimento que atingiu ou não resultados. O erro é querer reduzir 1968 a uma coisa só".

No novo livro de Zuenir Ventura "1968, o que fizemos de nós", Franklin dá um depoimento onde diz que sempre esteve do lado certo, e trata com condescendência "quem não lutou muito, ou quem lutou só um pouquinho" contra a ditadura.

Ele se diz "muito tolerante inclusive com setores políticos que apoiaram a ditadura em algum momento, por confusão política ou, às vezes, porque tinham mais medo do comunismo do que da ditadura".

Ao contrário, Fernando Gabeira, candidato a prefeito do Rio, em depoimento para o mesmo livro de Zuenir fala do seqüestro do embaixador americano, de que também participou, sem nostalgia nem ressentimentos, e diz com todas as letras que "estávamos equivocados".

Para Gabeira, "quando se compreende o que aconteceu e a fragilidade do que estava por baixo, você começa a ter uma visão até bem-humorada dos erros".

Outro ex-guerrilheiro, o dirigente do Partido Verde e ex-vereador do Rio Alfredo Sirkis, por exemplo, está hoje mais preocupado com uma aproximação com as Forças Armadas para a preservação da Amazônia, na linha defendida pelo novo ministro do Meio-Ambiente Carlos Minc:

"A reação não foi das melhores - o Minc deveria ter conversado com eles antes -, mas a discussão cabe sem dúvida", reafirma Sirkis, enfatizando: "Para um diálogo com os militares em relação à defesa nacional frente a novas ameaças e conflitos futuros, devemos abandonar definitivamente a exploração política de conflitos passados, tanto quando feita pela esquerda, quanto pela direita. O confronto pavloviano entre o ministro Tarso Genro e o deputado Bolsonaro sobre os 'anos de chumbo', que já têm quase 40, é patético", exclama.

Para ele, "não teria sentido algum saltarmos de volta para nossas antigas trincheiras do mundo da guerra fria, ou ficar remoendo o passado, se no horizonte do Brasil se perfilam novas ameaças que exigem um trabalho em comum, uma colaboração ombro a ombro".

 

Adicionar comentário