André Gustavo Stumpf - Jornalista
CORREIO BRAZILIENSE - 13 Set 2014 
Delação premiada é um instituto do direito penal brasileiro bastante complexo. Não é simples como parece à primeira visada. Em primeiro lugar, o réu deve admitir a responsabilidade no malfeito. Ou seja, ele reconhece sua culpa. Depois, passa a detalhar, minuciosamente, sua maneira de operar. Não pode economizar no relato. É obrigado a entregar nomes, números de telefones, endereços, contas bancários, valores recebidos e pagos. E, naturalmente, o nome de todos os envolvidos, desde o porteiro do escritório até o sócio mais importante. É o juiz quem decide se o que foi narrado é, ou não, suficiente para abrandar a pena do cidadão colocado diante dessa situação.

Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras entre 2004 e 2012, fez e desfez na maior empresa brasileira. Ele estava em posição de poder na operação de compra da refinaria de Pasadena, no Texas. Estava, também, nos mais altos escalões durante todo o processo de negociação e construção da refinaria Abreu e Lima, nas proximidades de Recife. Segundo o relato de algumas pessoas passaram pelas mãos dele, nos últimos anos, mais de US$ 35 milhões. É muito dinheiro para um simples assalariado. Além disso, depois de aposentar-se da empresa, na qual fez parte do corpo de funcionários, passou a atuar na mesma área com o título de consultor.

Rockfeller dizia que o melhor negócio do mundo é uma refinaria bem administrada. O segundo melhor negócio do mundo é uma refinaria mal administrada. A Petrobras é mais do que uma simples refinaria. Ela perfura, transporta, refina e vende na bomba de gasolina, no meio de uma estrada ou no centro de uma cidade no Brasil e no exterior. Conseguiu o prodígio de diminuir de tamanho. Sua produção está estagnada nos anos recentes em torno de 2 milhões de barris/diários. Recentemente, os primeiros poços do pré-sal começaram a produzir e houve um ganho de mais 200 mil barris/dia. Tudo muito lento.

As notícias de que o ex-diretor estava abrindo a boca e colocando os problemas na real dimensão fez com que ações da empresa perdessem substância nas bolsas de valores. O que seria um sólido investimento de longo prazo transformou-se numa opção ruim e maneira certa de perder dinheiro. Os investidores se retraíram. Venderam os papéis. A queda nesta semana foi profunda. A Petrobras, que já foi símbolo de Brasil grande, de Brasil desenvolvido, hoje figura nas páginas policiais. Uma coleção de políticos, todos da base de apoio do governo, é acusada de se locupletar com o dinheiro da empresa.

Getúlio Vargas criou em 1953 a Petrobras, Petróleo Brasileiro S.A., com ações vendidas em bolsa. Ele enfrentou violenta batalha política. Foi o início do fim de sua era. A oposição bloqueou o projeto de todas as maneiras. O capital estrangeiro, as famosas sete irmãs, não gostava da ideia de uma empresa estatal operando no setor de petróleo. Mesmo porque, segundo elas, não havia petróleo no Brasil. A oposição radicalizou. Decidiu propor e votar o monopólio estatal, que, afinal, foi aprovado. O que deveria ser um golpe contra Getúlio terminou levando o povo para as ruas. A palavra de ordem era: "O petróleo é nosso".

A Petrobras passou por diversos momentos. No começo, ocorreram tímidas descobertas no interior da Bahia. O primeiro poço de petróleo com escala comercial ganhou o nome de Lobato — homenagem ao escritor de histórias infantis que sempre defendeu a exploração de petróleo no Brasil por brasileiros. Geólogos norte-americanos vieram ao país para confirmar a suspeita de que não haveria petróleo aqui. Em terra, realmente, não havia. Foi o presidente Ernesto Geisel que incentivou a Petrobras a caminhar mar adentro em busco do precioso mineral negro. As profundidades foram aumentando e a produção subiu com os sucessos obtidos pela arte de perfurar poços no oceano.

Em 2010, a produção brasileira chegou ao pico de 2.620 barris/dia. De lá para cá, caiu vertiginosamente. Só nos meses recentes voltou a subir. Tudo coincide com a descoberta dos desvios financeiros ocorridos. E da sangria que a empresa sofreu. A refinaria de Pernambuco teve seu valor multiplicado várias vezes. A do Texas, que valia pouco mais de US$ 45 milhões, acabou negociada por mais de US$ 1 bilhão. Ainda assim, a Petrobras não quebrou nem faliu. É um bom negócio mesmo mal administrada. Difícil é saber quem se beneficia do petróleo brasileiro. Ele é nosso. Mas de quem mesmo?
 

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