Durante homenagem, família de torturado defendeu transformação de DOI-Codi em centro de memória da ditadura
Felipe Werneck / Rio
ESTADÃO.COM.BR -13 Set 2014 
Duas filhas do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado em 1971 no antigo DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) da Barão de Mesquita, na Tijuca, zona norte do Rio, defenderam ontem a transformação do quartel em centro de memória,durante a inauguração de um busto de bronze do pai. A homenagem, que reuniu cerca de 100 pessoas, ocorreu na praça Lamartine Babo, que fica em frente ao 1.º Batalhão de Polícia do Exército, onde funcionou o principal centro de torturas no Estado durante a ditadura militar (1964-1985).

 Em cartazes, manifestantes pediam a "abertura de arquivos da ditadura" e "tortura nunca mais". No início da cerimônia, com o busto ainda coberto, a voz de Rubens Paiva podia ser ouvida até mesmo dentro do quartel. Em depoimento à Rádio Nacional no dia do golpe militar, o então parlamentar conclama trabalhadores e universitários de São Paulo a fazer uma greve geral em solidariedade ao presidente João Goulart.

 

 

Sentada na platéia improvisada, Eliana Paiva,uma das filhas, abraçou a tia Maria Lúcia Paiva de Mesquita e chorou. "A gente tinha ficado 43 anos sem ouvir a voz dele.Agora, é como se tivéssemos finalmente um lugar para homenageá-lo", discursou Vera Paiva. A filha falou sobre a dificuldade de encerrar o ciclo de luto, porque até hoje o corpo de Rubens Paiva nunca apareceu. "O desaparecimento é uma forma de tortura também, assumida pelo aparato militar, que continua acontecendo até hoje."

Falou ainda que a família se sente privilegiada, mas que há muitas outras histórias a serem contadas. "Eu gostaria que esse ato fosse o início do resgate da memória, da transformação desse espaço em um museu,como a Comissão da Verdade do Rio (CEV-Rio) reivindica." Idealizada pelo aposentado Lao Tsen, a homenagem foi uma iniciativa do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio– Rubens Paiva era engenheiro. Inicialmente, o busto ficaria de frente para o quartel, mas acabou sendo chumbado de costas para os militares. "Parece que ele está saindo. Ficaria mais aflita se tivesse ao contrário", disse a filha Eliana, que comemorou a decisão de quarta-feira do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região sobre o caso Rubens Paiva. Pela primeira vez, um tribunal brasileiro reconheceu que assassinatos e desaparecimentos de corpos atribuídos a agentes da ditadura são crimes contra a humanidade, seguindo o entendimento do Ministério Público Federal de que não se aplica a Lei da Anistia.
 

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