Merval Pereira

O Globo - 11/09/2014
 
11.09.2014 08h00m Depois de passar os últimos dias sob bombardeio permanente não apenas da presidente Dilma, mas também do candidato do PSDB Aécio Neves, a candidata do PSB Marina Silva mostrou a consistência de sua candidatura. Ao manter estabilizada sua situação na disputa, mesmo com um viés de alta para a presidente, Marina demonstra que continua sendo a opção dos que pretendem tirar o PT do governo.

Já a presidente Dilma deve intensificar a agressividade de sua propaganda, que tem demonstrado capacidade de pelo menos frear a subida de Marina, obrigando-a a um esforço redobrado para manter-se competitiva até a chegada do segundo turno.

A má notícia para a presidente Dilma é que os desdobramentos do escândalo da Petrobras prometem marcar esses últimos dias da campanha, cujas contradições internas no PT podem abrir espaço para a recuperação de Marina.

Até mesmo a questão da independência do Banco Central, que tem dado motivos de críticas acirradas do governo, fica fragilizada com as notícias de que o próprio ex-presidente Lula está trabalhando para que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles seja anunciado como o responsável pela política econômica do governo Dilma em caso de reeleição.

Meirelles é o exemplo típico do banqueiro internacional que o PT trouxe para o governo Lula, tirando-o do PSDB, partido pelo qual havia sido eleito deputado federal, para dar credibilidade à política econômica petista. Como acusar a adversária Marina de querer dar poder a banqueiros quando um ex-presidente do Bank Boston é a figura central da mudança econômica que ela pretenderia anunciar para tranquilizar os investidores?

E como ser contrário à autonomia do Banco Central se Meirelles foi intocável durante os dois governos Lula, gozando de uma autonomia que irritava os setores mais radicais do petismo?

O candidato do PSDB, Aécio Neves, por mais que se mostre preparado para o cargo e tenha projetos de longo prazo para o país que fazem sentido e, mais que isso, são necessários, perdeu a capacidade de encarnar a indignação da maioria dos eleitores, que encontraram em Marina Silva essa representante.

Aécio tem sido instado por seus aliados a arrefecer os ataques a Marina, para permitir a organização de uma aliança para o segundo turno. A declaração de ontem, depois da sabatina do Globo, de que se não ganhar a eleição o PSDB irá para a oposição, certamente não é consensual no partido e nem entre seus aliados da oposição.

Ele tem razões para estar amargurado, pois a entrada em cena de Marina colocou emoção na disputa, o que retirou do primeiro plano a análise da real capacidade de governar dos que estão na disputa. O candidato do PSDB contava com a máquina partidária para impor-se ao adversário Eduardo Campos, mas a entrada de Marina misturou as pedras no tabuleiro político, deslocando Aécio para a terceira colocação mesmo nos Estados em que o PSDB ou seus aliados estão vencendo as eleições para os governos estaduais.

Em São Paulo, Marina está em primeiro lugar, embora o governador Geraldo Alckmin tenha condições de vencer no primeiro turno. A composição com o PSB local, que deu o vice na chapa de Alckmin, está se mostrando mais eficaz para Marina do que a máquina partidária do PSDB favorável a Aécio.

O caso mais emblemático é o de Minas, em que o PSDB perde no momento o governo estadual e Aécio disputa o terceiro lugar com Marina Silva. Ele está certo de que manterá seu território político intacto, mas terá que gastar mais energia do que imaginava, enquanto o resto do país a polarização entre a presidente Dilma e a candidata Marina Silva se impõe.

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