Tribuna da Internet  - 18/08/2014 
 
Carlos Chagas

Por algumas horas assistimos Dilma, Marina, Aécio e mais o Lula, Alckmin, Serra, montes de governadores, deputados, senadores – todos concentrados num pequeno espaço, cercados e infiltrados pela multidão na entrada do palácio das Princesas, em Recife, ao lado dos caixões com os restos mortais de Eduardo Campos e seus auxiliares, falecidos no início da semana em desastre aéreo em Santos, São Paulo. Uma concentração como raras vezes se vê, todos contristados, cenho fechado, sem se falarem, de pé e com falta de espaço até para respirar.

Foi esse retrato do Brasil que a televisão mostrou ontem: um velório organizado na desorganização natural desses eventos espontâneos onde ninguém deixará de ter pensado como são efêmeros os planos e os sonhos de todos nós. Horas depois, com o sepultamento, desfez-se a improvisada reunião de personagens que não deveriam ter estado reunidos, não fossem as artimanhas do destino.

Saber quem vencerá a eleição torna-se dúvida menos importante do que meditar sobre a impotência do ser humano frente ao desconhecido. A tragédia poderia ter-se abatido sobre qualquer um. O imponderável escolheu Eduardo Campos, o mais jovem de todos os candidatos. As cartas sucessórias foram embaralhadas, a única previsão admissível é de que haverá segundo turno. Entre Dilma e Aécio? Ou entre Dilma e Marina? Por que não entre Aécio e Marina? E vencendo quem vencer, mudará o quê, na vida do cidadão comum?

Já se foi o tempo de candidatos messiânicos, salvadores da pátria, geralmente aventureiros ou até desequilibrados. Felizmente, equivalem-se Dilma, Aécio e Marina, apesar de características distintas. Nenhum dispõe de planos mirabolantes, projetos esotéricos ou fórmulas mágicas capazes de iludir o eleitorado. Isso é bom, tanto faz se graças às qualidades ou às deficiências dos três. O principal fator que leva à conclusão de que pouquíssima coisa vai mudar situa-se no íntimo de cada um de nós, eleitor ou não.

Apesar das ditas melhores intenções, o candidato vencedor nem por milagre conseguirá acabar com a corrupção. Muito menos levar a cada família a satisfação de suas necessidades. Sequer atender os anseios do assalariado ou diminuir as agruras do empresário envolto na carga tributária. Jamais atender as finalidades constitucionais do salário mínimo, que manda o trabalhador prover, e à sua família, as despesas de alimentação, habitação, vestuário, transportes, educação, saúde e até lazer.

Será sonho de noite de verão imaginar que o futuro presidente da República consiga matricular toda criança e todo jovem em escolas gratuitas e de tempo integral, ou abrir a universidade a quantos pretendam conseguir diploma. Muito menos fazer funcionar ferrovias, rodovias e portos de modo a suprimir as carências nesses setores.

Conquistar igualdade com as nações desenvolvidas em termos de produção até da ciência e da tecnologia de que carecemos? Conter a violência urbana e rural fundada na falta de oportunidades aos que não conseguem ingressar no mercado de trabalho? Interromper o fluxo inexorável do tráfico de drogas e a ação do crime organizado na maioria das atividades sociais? Cortar pela raiz a ação dos especuladores, conter o lucro exagerado dos controladores do sistema financeiro, diminuir a relação entre as matérias primas que exportamos e os manufaturados impostos de fora?

Em suma, terão os candidatos presidenciais reunidos ontem em Recife tido consciência das próprias limitações? Por um momento sequer, pensaram em desistir

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