MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 17/08/2014 

A política tem a capacidade de embaralhar todas as peças e derrubar as certezas. A economia tem oscilações que influenciam o rumo político, às vezes. O papel da economia pode crescer, mas determinante é a política em si mesma. Estão agora todos os candidatos andando sobre gelo fino, e qualquer erro cobrará sua conta. A campanha ficou inesperadamente tensa e difícil.

Não faz muito tempo, o marqueteiro da presidente Dilma fez a previsão que já era temerária na época e agora revela amadorismo. Segundo João Santana, a presidente iria "ganhar no primeiro turno porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Eles vão se comer lá embaixo e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo". Quando foi dita, a frase era arrogante. Agora, é estúpida.

Os "anões" que se comeriam "lá embaixo" seriam Marina, Eduardo Campos e Aécio Neves. Eles não se atacaram e dois deles se uniram até que a morte os separou. A presidente teve uma queda súbita de popularidade com as passeatas de junho do ano passado. Seus índices de intenção de votos rodam num nível mais baixo e nada confortável para quem contava em liquidar a fatura no primeiro turno, ainda que permaneça na frente, nas pesquisas.

O acaso acaba de fazer ao Brasil uma dolorosa surpresa. De luto, brasileiros falaram intensamente da tragédia que nos levou um precioso quadro político no momento em que ele alçava seu voo nacional. A história da República brasileira é marcada por comoções que alteraram o rumo dos acontecimentos. Historiadores e cientistas políticos mostram que a coleção dessas cicatrizes é maior do que se imagina. "Mas o Brasil é bom nas crises", disse Maria Celina D'Araújo, professora da PUC-Rio. Defendeu a tese de que nesses momentos o país cresce e surpreende.

Na economia, é assim também. Nos distúrbios agudos foram tomadas decisões difíceis. Quando a crise é crônica, como agora, a tendência dos gestores e políticos é adiar as medidas impopulares. O volume de problemas que se acumula na economia é assustador. Falarei de um só, como exemplo, porque é impossível esgotar numa coluna a lista de bombas a desarmar.

Nos últimos tempos, o governo conseguiu refazer um perigoso embaralhamento dos balanços de entes públicos. A Eletrobrás, que deve à Petrobras, pegou dinheiro emprestado no Banco do Brasil e na Caixa, para pagar apenas uma parte, e pendurou o resto. O Tesouro não tem repassado à Caixa todos os valores devidos para o Bolsa Família e o seguro-desemprego. As distribuidoras de energia elétrica, privadas, receberam empréstimos de BB, Caixa, bancos estaduais, BNDES e bancos privados em operações financeiras intermediadas por uma câmara de empresários, por ordem do governo, e tendo como garantia o aumento futuro da tarifa. O Tesouro deve bilhões ao FGTS e ao FAT. O BNDES deve R$ 400 bilhões ao Tesouro. É um emaranhado de dívidas cruzadas. Isso já ocorreu no Brasil, e o saneamento das empresas e bancos deu muito trabalho ao governo Fernando Henrique.

Quem se sente flanar no Olimpo pode achar que nada disso chega ao eleitor comum. Mas esses e outros mal feitos gerenciais minam a confiança na economia, murchando investimentos em todos os níveis. Um taxista me disse dias atrás que adiou a compra do carro novo para trabalhar porque não sabe se terá clientes. Ele vê os consumidores perdendo fôlego. Os sinais da economia se propagam dos grandes aos pequenos.

Da economia, não virá o impulso para que Dilma ganhe no primeiro turno. Ela enfrentou segundo turno até quando o PIB crescia a 7,5%, em 2010. E o ex-presidente Lula, grande encantador de plateias, também passou por isso duas vezes.

O historiador José Murilo de Carvalho conta que a República presidencialista do Brasil tem sido afetada por sucessivos eventos, trágicos ou inesperados, que alteram o cenário eleitoral. A lista é longa e vem do século XIX, mas é da natureza da política brasileira.

Estamos vivendo mais um desses eventos em que tudo mudou, exigindo novas atitudes e estratégia de todos os atores. A economia será subsidiária.

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